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  • Jules Bianchi e seu legado na Fórmula 1.

    Jules Bianchi e seu legado na Fórmula 1.

    A morte do piloto francês que fez a F1 se preocupar ainda mais com a segurança.

    Por Renata Resende

    Jules Bianchi, o piloto que era uma promessa da Ferrari, sofreu um acidente no Grande Prêmio do Japão, e foi para o hospital com estado grave.

    A sua morte, nove meses depois do acidente, deixou um legado na segurança do carro da Fórmula 1, o Halo. O que ninguém imaginava é que esse legado acabaria salvando a vida de seu “afilhado” na F1: Charles Leclerc.

    Mau presságio.

    Jules Bianchi pilotando um Marussia. Imagem: Globo Esporte.

    A semana que ia acontecer o Grande Prêmio do Japão em 2014, estava bem agitada no país nipônico. E no fim de semana não foi diferente.

    A previsão era de que o tempo chuvoso não iria passar, e para completar, um supertufão estava chegando no Japão. Devido ao mau tempo, a FIA estava indecisa se adiantava o GP para sábado ou se adiantava o horário da prova no domingo.

    Mas o veredito final da Federação foi manter o horário já programado.

    As 15:00 foi dada a largada da corrida, mas devido a chuva, as primeiras voltas foram guiadas pelo Safety car. O temporal não dava trégua, e já na segunda volta, a prova foi paralisada.

    Quando aconteceu a relargada, depois de 20 minutos de bandeira vermelha, o carro madrinha voltou para a pista, dessa vez só saindo na sétima volta.

    Bianchi tinha largado em 19, mas aos poucos conseguia escalar o pelotão. Foi a partir a 41 volta que a situação ficou extremamente feia na pista. Felipe Massa já tinha avisado cinco vezes no rádio que a chuva piorava e que não dava para ver nada, mas foi Adrian Sutil que comprovou que estava difícil dirigir no asfalto encharcado.

    Sutil aquaplanou na pista e acabou batendo na curva Dunlop. O impacto chamou o trator resgate para o circuito, e a direção de prova acionou só as bandeiras amarelas na prova. Adrian já tinha se levantado do carro e ainda estava perto da barreira de pneus quando viu a cena se desenrolar na sua frente.

    A Tragédia.

    Jules Bianchi, infelizmente, também perdeu o controle de seu carro e assim como Sutil, aquaplanou e bateu. A diferença é que a batida foi direto na traseira do trator que retirava o bólido da Sauber da pista.

    De acordo com o site Racecar Engineering, uma das teorias é que pode ter acontecido uma falha no carro que talvez, mas talvez, pudesse ter impedido o impacto. A teoria é que Bianchi, ao tentar evitar o carro de resgate, botou o pé no freio, o que fez as rodas dianteiras travarem.

    Mas enquanto Jules acionava o freio, o outro pé ainda estava no acelerador.

    Os carros da Fórmula 1, em 2014, tinham um sistema chamado Failsafe, que é um algoritmo de software no computador de bordo. Basicamente a função desse sistema é sobrepor o acelerador e desligar o motor em situações como de Jule.

    O problema é que o carro, que Bianchi pilotava, tinha um sistema incompatível com o Failsafe. Na prática, o Coordenador de Torque do bólido do piloto francês, impediu que o Failsafe agisse como programado. O motor não desligou, o que pode ter influenciado no impacto.

    A outra teoria é que Jules talvez tenha se distraído e não conseguiu desviar a tempo. Ele até tentou desacelerar, tendo uma redução abrupta de velocidade, de acordo com o site português Observador, que teve como base o relatório acessado pelo Auto Motor und Sport.

    Ainda segundo esse relatório secreto, Jules bateu a 126 km/h e sofreu impacto de 254 G, o que foi extremamente impactante para o piloto francês.

    Situação agravante.

    Velorio de Jules Bianchi. Imagem: Lance!

    Quando o resgate chegou para Jules Bianchi, o piloto já estava inconsciente. A situação era tão grave, que do centro médico, ele precisou passar por uma cirurgia de emergência.

    No autódromo de Suzuka, a prova finalmente foi encerrada, mesmo faltando onze voltas para a bandeirada. Lewis Hamilton, Nico Rosberg e Sebastian Vettel foram para o pódio, mas não tinha mais o menor clima para celebração.

    No Hospital de Mie, o piloto da Marússia precisou ficar na Unidade de Tratamento Intensivo, pois foi diagnosticado com Lesão Axonal Difusa.

    Quando o carro de Bianchi bateu no guindaste, ele entrou parcialmente debaixo da grua e o capacete do piloto bateu no veículo do resgate. Nessa pancada, junto com a desaceleração forte do carro, o cérebro de Bianchi pode ter rotacionado.

    Nesse tipo de traumatismo cranioencefálico (em inglês), os axônios- prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão dos impulsos nervosos- podem ser danificados. Além disso, pode ter também um inchaço no cérebro e aumento da pressão intracraniana.

    O paciente que passa por esse tipo de traumatismo pode ter perda de consciência, de seis a oito horas, e em casos ainda mais graves, pode entrar em coma.

    Jules Bianchi tinha só 25 anos quando teve a carreira encerrada após passar nove meses em coma. O piloto que era considerado um talento em ascensão, morreu nove meses depois, e foi a última vítima do asfalto da Fórmula 1 até hoje (espero que não tenha mais vítimas).

    O Legado.

    Halo no carro da Ferrari. Imagem: Autosport.

    Entre os efeitos da morte de Bianchi, teve um que causou desgosto a primeira vista. Foi introduzido na F1 o Halo, uma estrutura de titânio, que tem como função proteger o piloto que maiores danos em caso de acidente.

    Assim como qualquer inovação, vieram as críticas dizendo que o Halo estragava a essência do carro da Fórmula 1. Os próprios pilotos estranharam, mas logo na temporada de estreia, teve piloto que provavelmente ajoelhou e agradeceu, a qualquer entidade que acreditasse, pela existência do Halo.

    Coincidência ou não, o legado de Jules foi salvar logo seu “afilhado” no automobilismo, o monegasco Charles Leclerc (em inglês).

    Em 2018, foi dada a largada do Grande Prêmio da Bélgica, e ainda no início da prova, aconteceu um incidente entre Nico Hulkenberg e Fernando Alonso. O carro do piloto espanhol, nesse acidente, acabou partindo para cima do novato Leclerc.

    Um dos pneus atingiu bem na área do Halo, e se caso não tivesse essa estrutura, o impacto poderia ter sido contra a viseira do capacete de Leclerc.

    Dois anos depois, no Grande Prêmio do Bahrein, o Halo agiu novamente, dessa vez impedindo que a barreira invadisse o cockpit de Romain Grosjean, o que pioraria muito mais o acidente, já que o carro pegou fogo.

    Grojean, que tinha criticado a criação dessa estrutura, acabou sendo ajudado pela mesma. No mesmo ano, o piloto da Haas anunciou sua aposentadoria, já que o acidente impactou demais na sua vida.

    Ligação que atravessa os mundos.

    Charles Leclerc é Jules Bianchi. Imagem: Globo Esporte.

    Mesmo tendo morrido anos antes da estreia de Leclerc nas pistas da Fórmula 1, Jules Bianchi continuou cuidando de seu mentorado no automobilismo.

    Além disso, sua morte não foi em vão. Medidas de segurança foram tomadas, como uma melhoria no sistema de drenagem da pista e uma importante diretriz que fala que o início da prova tem que ser pelo menos 4 horas antes do pôr do sol ou do anoitecer.

    Em 2024, a mãe de Jules, Christine Bianchi disse, ao site Stewarts Law (em inglês) que ainda é difícil lidar com a morte do piloto, mas que fazem o que podem para manter a associação criada em homenagem ao filho.

    A família Bianchi ajuda na compra de itens para o departamento de lesões cerebrais do Hospital Archet de Nice.

    Fontes e referências

    • COLLINS, Sam. Human error at the core of Jules Bianchi crash. Racecar Engineering, 4 dez. 2014. Análise técnica baseada no relatório da FIA, incluindo informações sobre o FailSafe, o sistema Brake-by-Wire e o Torque Coordinator. Racecar Engineering — Human error at the core of Jules Bianchi crash
    • OBSERVADOR. Relatório secreto: Jules Bianchi sofreu um impacto de 254 G. 23 jul. 2015. Matéria baseada em informações divulgadas pela revista Auto Motor und Sport sobre os dados do acidente. Observador — Relatório secreto: Jules Bianchi sofreu um impacto de 254 G
    • MESFIN, Fassil B.; GUPTA, Nishant; HAYS SHAPSHAK, Angela; MARGETIS, Konstantinos. Diffuse Axonal Injury. StatPearls [Internet]. Treasure Island: StatPearls Publishing. Atualizado em 7 jul. 2025. National Center for Biotechnology Information (NCBI). NCBI Bookshelf — Diffuse Axonal Injury
    • STEWARTS. Jules Bianchi’s fatal crash: reflecting on his legacy and safety in motorsport ten years on. 7 out. 2024. Informações sobre o legado de Bianchi, mudanças de segurança na Fórmula 1 e o desenvolvimento do Halo. Stewarts — Jules Bianchi’s fatal crash
    • JULES BIANCHI OFFICIAL WEBSITE. Jules Bianchi, ten years on: in the eyes of Charles Leclerc, the memory of a driver and the legacy of F1 safety. Depoimentos e informações sobre a relação entre Jules Bianchi e Charles Leclerc. Jules Bianchi — Ten years on

  • Senna, Leclerc e as raras vezes em que Mônaco foi inesquecível

    Do duelo histórico de 1992 à vitória mais emocional de 2024.

    Ayrton Senna pilotando em Mônaco/ Imagem: Wikipédia

    Por Renata Resende

    Conhecido por muitas vezes proporcionar corridas monótonas, o Grande Prêmio de Mônaco às vezes surpreende os fãs do automobilismo e entrega cenas inesquecíveis.

    O GP de Mônaco de 1992 é um exemplo disso. A prova, que parecia praticamente vencida por Nigel Mansell, ganhou uma reviravolta dramática nas voltas finais. Décadas depois, em 2024, outra corrida no Principado voltou a emocionar o público — desta vez, arrancando lágrimas dos torcedores.

    SENNA VENCE NA FORÇA DO BRAÇO

    Em 1992, a Williams vivia sua era de supremacia na Fórmula 1. Com o melhor carro do grid, a equipe contava com Nigel Mansell e Riccardo Patrese. Em Mônaco, Mansell conquistou a pole position, seguido pelo companheiro de equipe. Ayrton Senna, da McLaren, largava em terceiro, mas tomou a posição de Patrese logo na largada. Ainda assim, o brasileiro sabia que alcançar a liderança seria uma missão difícil.

    Com o decorrer da prova, vários carros abandonaram a corrida, entre eles os brasileiros Maurício Gugelmin (Jordan Yamaha) e Roberto Moreno (Moda Judd). Perto do fim, metade do grid já estava fora da disputa. E foi justamente nas últimas voltas que o improvável aconteceu.

    Mansell precisou ir aos boxes após um problema com a fixação de uma das rodas, e a parada demorou mais do que o esperado. Senna assumiu a liderança e, mesmo com pneus já desgastados, conseguiu segurar a pressão do britânico até a bandeirada final. A defesa histórica do brasileiro entrou para a memória da Fórmula 1.

    A CASA É SUA, CHARLES

    No Grande Prêmio de Mônaco de 2024, a McLaren chamou atenção ao utilizar uma pintura especial em verde e amarelo em homenagem a Ayrton Senna, falecido há exatos 30 anos. A torcida brasileira tinha motivos para olhar com carinho para a equipe inglesa, mas outro personagem acabou roubando a cena no Principado.

    Charles Leclerc, pilotando pela Ferrari, carregava um histórico de frustrações correndo em casa. Desde sua chegada à Fórmula 1, algo sempre dava errado para o monegasco em Mônaco — fosse por erros estratégicos, problemas mecânicos ou até acidentes antes da largada.

    Mas, em 2024, a história foi diferente.

    Liderando de ponta a ponta, Leclerc finalmente conquistou sua primeira vitória em casa. E não foi apenas o resultado que emocionou o público. Nas voltas finais, a narração italiana relembrou toda a trajetória do piloto até aquele momento histórico, tornando a bandeirada ainda mais impactante. A frase “a casa é tua, Charles, a casa é tua” entrou para a história da Fórmula 1.