Com uma vaga liberada na Haas, a expectativa do Brasil é de ter dois pilotos na F1 em 2027.
Por Renata Resende
Com a saída oficial de Esteban Ocon da Haas, os brasileiros foram à loucura nas redes sociais. Agora a expectativa é que a Fórmula 1 afirme a notícia mais aguardada do ano pelos brasileiros:
“Rafael Câmara assina com a Haas”
Enquanto se espera o anúncio oficial, vale relembrar a carreira do pernambucano no automobilismo, até a possível entrada na Fórmula 1.
De Pernambuco para o mundo
Campeão da Fórmula 3 em 2025. Imagem: Globo Esporte
Rafael Chaves Câmara, ou mais conhecido como Rafa Câmara, começou sua carreira antes mesmo dos dez anos.
Nascido em Pernambuco, o filho de Paula e Amaro Câmara, Rafael começou sua carreira competindo pela Copa Brasil de Kart. Mas o piloto não se contentou em ficar restrito no asfalto brasileiro, e foi para os EUA, participar do campeonato de kart SKUSA Master Series.
O campeonato europeu de kart, o WSK Champions Cup, foi o próximo passo, e foi nele que Rafael conseguiu seu primeiro título.
Participando de outros campeonatos pelo mundo como a Fórmula 4, foi em 2024 na FRECA (Campeonato de Fórmula Regional Europeia) que o brasileiro teve o melhor desempenho, vencendo o campeonato, e de quebra, chamando a atenção da Scuderia Ferrari.
Em 2025, Rafael disputou a Fórmula 3, pilotando pela Trident, e conquistou o campeonato logo no seu ano de estreia. O desempenho do pernambucano foi tão bom, que a FIA o elegeu como “Rookie do ano”.
Vale destacar também que Rafael disputa a F2 pela Invicta Racing, a mesma equipe em que Gabriel Bortoleto foi campeão, também na Fórmula 2.
A Invicta já confirmou uma de suas contratações para o próximo ano de F2, tendo como piloto confirmado, Freddie Slater, vice-campeão da F3. O piloto britânico, além de já subir de categoria, ainda se tornou o primeiro membro da Academia de jovens da Audi.
Vaga na F1 garantida?
Rafael Câmara nos testes em Portimão. Imagem: Globo Ge
Como membro da Academia de Pilotos Ferrari, Rafael Câmara já teve a oportunidade de participar de testes com carros antigos da Scuderia, além dos Treinos Livres na F1, mas ele também fez teste com carro de outra equipe.
Em Portimão, autódromo de Portugal, Câmara terminou à frente de Leonardo Fornaroli (atual campeão da F2) e Rio Hirakawa (piloto reserva da Haas). O resultado do brasileiro simplesmente superou a referência estabelecida por Oliver Bearman (piloto titular da Haas), embora a própria Haas não tenha divulgado os tempos oficiais.
A possível ida de Câmara para a equipe estadunidense, fez com que fortes rumores saíssem na mídia e no paddock da Fórmula 1. E a saída de Ocon da Haas – e, pelo menos temporariamente da F1 – só aumentou a expectativa de ter dois pilotos brasileiros na categoria de elite.
Por sua vez, Rafael Câmara já deixou claro que está pronto para subir de categoria, e ele tem pelo menos um apoiador para isso. Chefe da Invicta, James Robinson destacou que o brasileiro vem sendo veloz desde seu primeiro contato com o carro.
“A velocidade é simplesmente incrível”, afirmou Robinson, porém ele também ressaltou que Rafa precisa corrigir seus erros, como quando perdeu oportunidade de vencer em Montreal e em Mônaco.
Mas levando em conta que ele é um piloto ainda novo e em amadurecimento, Rafael mostra na pista que pode se aprimorar cada vez mais.
Próximos capítulos
Ainda não está confirmado o contrato da Haas com Rafael Câmara, mas dada a sequência das próximas cenas, é muito provável que eu precise voltar em breve para atualizar o post, escrevendo a seguinte frase:
“O anúncio foi feito, e em 2027 haverá dois pilotos brasileiros no grid da Fórmula 1: Gabriel Bortoleto e Rafael Câmara”.
Tendo como cenário de fundo a floresta Amazônica, o Brasil viveu um de seus mais importantes ciclos econômicos, o da Borracha.
Por Renata Resende
A extração do látex, matéria-prima da borracha, impactou profundamente a região Norte do país, povoando e transformando cidades que antes não tinham muita importância na economia nacional.
Porém, o impacto do látex não ficou restrito às fronteiras tupiniquins.
No mundo afora, a tecnologia e os meios de transporte avançavam cada vez mais. O automobilismo começava a ser desenvolvido, e o látex da Amazônia chegava aos circuitos de Grand Prix internacionais.
O começo da borracha brasileira
No início do século 19, a Europa começou a ver com outros olhos a floresta Amazônica, e percebeu que a borracha, já usada há muito tempo pelos indígenas que ali abitavam, seria uma matéria-prima fundamental para suas indústrias.
Produto obtido a partir da coagulação do látex, seiva da seringueira, a borracha tinha várias finalidades para as indústrias europeias. Mas não era fácil cultivar a seringueira em qualquer país.
Se a borracha fosse produzida em um país com clima muito quente, ela se tornava algo pegajoso. Se o local da plantação fosse frio então, esquece. De pegajosa, a borracha se tornaria fria, dura e inflexível.
Em 1839, Charles Goodyear – esse sobrenome lembra algo? – descobriu que, se misturasse enxofre com o látex em alta temperatura estabilizaria a borracha, tornando-a ideal para uso em qualquer lugar do mundo. Esse processo foi chamado de Vulcanização e é usado até hoje.
O feito de Goodyear foi impactante o suficiente para as indústrias usarem o produto, vindo do látex, para ainda mais utilidades.
A demanda pela borracha aumentou ainda mais, e adivinha onde tinha abundância dessa árvore, a Hevea Brasiliensis? Sim, no Brasil, mais especificamente nas entranhas da Amazônia.
Riqueza para exportadores, pobreza para seringueiros
Processo de defumação da borracha. Imagem: BBC
Antes mesmo que os estrangeiros reconhecem a fonte de riqueza que viria da seringueira, o látex já era bastante usado nas terras do norte do Brasil.
Tribos indígenas que viviam na Floresta Amazônica já usavam a seiva da árvore no seu cotidiano. Os “Cambebas ou Omáguas”, povo que vivia naquela região, extraiam látex o suficiente para confeccionar bolas, seringas, figuras de bichos, entre outras coisas.
Uma das principais cidades exportadoras do látex, Belém, capital do Pará, vinha tentando se recuperar do baque quando começou a alta demanda pela borracha.
Belém exportava grande quantidade de cacau, na época uma iguaria europeia, e passou por maus bocados com os movimentos políticos que aconteceram ali. A sua economia foi comprometida devido a um cenário de conflitos.
A guerra do Pará com a Guiana (1808-17) e a Cabanagem (1835-40) foram dois dos movimentos que agravaram a situação da capital paraense.
Mas ainda no século XIX, o jogo iria virar, já que chegaram notícias na Europa, que tinha bastante borracha dando sopa nas terras tupiniquins. Isso sem levar em conta que o Brasil tem um clima perfeito para a produção dessa matéria-prima.
A mão de obra que andava em falta na região, acabou voltando devido as possibilidades de melhora de vida. Nordestinos saíram do Sertão, para fugir da seca, e se embrenharam na Floresta Amazônica.
Era o momento de produção em larga escala, e como em outros ciclos econômicos no Brasil, houve exploração da mão de obra.
Os seringueiros, como são chamados os trabalhadores que retiram a seiva dessa árvore, trabalhavam por produção. Mas eles não só retiravam o látex, como também coagulava o líquido, transformando em bolas de borracha.
Quando a borracha estava pronta, era hora de procurar os seringalistas (donos dos seringais), e trocavam sua árdua produção em algum tipo de mercadoria ou créditos em seus barracões.
Essa circulação comercial, conhecida como Aviamento, era o que movia a economia amazônica.
O valor da borracha também eram estipulado de acordo com o peso e qualidade da mesma. A melhor borracha era a Pará fina, vinha a Entrefina, que nem era tão boa, mas também não era ruim. Já a de qualidade duvidosa, chamada de Cernambi, tinha junto com o látex, impurezas e resíduos.
Mais uma vez a economia era voltada para só um setor, e os seringueiros ficavam por conta de extrair a seiva da Seringueira. Se dedicando totalmente à extração do látex, esses trabalhadores não tinham tempo para roçar algum local ou criar gado.
Com relação ao consumo, os seringueiros tinham uma “vasta” opção para gastar o fruto de seu trabalho. Eles podiam aproveitar o mercado local ou se divertirem nas tabernas.
O porém era que esses locais eram dos seringalistas, que colocavam os preços no alto e faziam os seringueiros se endividarem, em suaves parcelas de exploração econômica.
Em um cenário desse não é surpresa que tenha surgido o mercado informal, criação dos regatões.
Eles eram vendedores itinerantes, que se abasteciam em Belém, depois viajavam para os confins da região, trocando a borracha por itens como farinha de mandioca e roupas. (Xiu, não deixa os seringalistas saberem não tá, é pra trocar na surdina)
Prosperidade não dura para sempre
Corrida de Paris-Bordeaux-Paris. Imagem: Aventuras na História.
Com a chegada dos anos 1900, a tecnologia avançava cada vez mais, e o uso da borracha finalmente chegava nas provas de Grand Prix.
Na corrida Paris-Bordeaux, uma das primeiras da história automobilística, a borracha apareceu. O automóvel da Peugeot-Michelin foi o primeiro a usar rodas pneumáticas, ou o pneu ancestral do que vemos hoje nas ruas.
Com o surgimento de mais inovações, o comércio da borracha ia de vento em poupa, a região estava sendo cada vez mais povoada, a riqueza ficando cada vez mais concentrada.
Mas o século XX não começaria bem para a economia amazônica.
Como de praxe, o mundo entrou em mais algumas crises. O preço da borracha quase chegou no brejo. No Brasil, teve até crise dos bancos brasileiros.
Só que nada estava tão ruim que não pudesse piorar.
O Brasil não era o único país que tinha um clima propício para o cultivo da Seringueira, e os britânicos se atentaram para isso.
Agindo na surdina, a Inglaterra contrabandeou uma quantidade expressiva de sementes, levou para o Jardim Botânico, e quando as mudas estavam prontas para serem plantadas em larga escala, foram levadas para a Ásia. Um dos países que receberam a seringueira, foi a Malásia.
Na época, a Malásia era mais uma das colônias inglesas, e viu sua economia se transformar profundamente com a chegada da borracha.
Esse contrabando europeu foi quase uma pá de cal sobre a economia do norte brasileiro.
O Brasil, que antes produzia metade da borracha no mundo, não conseguiu competir com a produção asiática, que gerava mais lucro para as indústrias.
Veio a queda do primeiro ciclo da borracha, mas ainda não seria o fim da participação tupiniquim na economia da borracha. Perto da Segunda Guerra Mundial, o látex brasileiro voltaria a ter mais importância, mas essa história fica pra próxima.
A morte do piloto francês que fez a F1 se preocupar ainda mais com a segurança.
Por Renata Resende
Jules Bianchi, o piloto que era uma promessa da Ferrari, sofreu um acidente no Grande Prêmio do Japão, e foi para o hospital com estado grave.
A sua morte, nove meses depois do acidente, deixou um legado na segurança do carro da Fórmula 1, o Halo. O que ninguém imaginava é que esse legado acabaria salvando a vida de seu “afilhado” na F1: Charles Leclerc.
Mau presságio.
Jules Bianchi pilotando um Marussia. Imagem: Globo Esporte.
A semana que ia acontecer o Grande Prêmio do Japão em 2014, estava bem agitada no país nipônico. E no fim de semana não foi diferente.
A previsão era de que o tempo chuvoso não iria passar, e para completar, um supertufão estava chegando no Japão. Devido ao mau tempo, a FIA estava indecisa se adiantava o GP para sábado ou se adiantava o horário da prova no domingo.
Mas o veredito final da Federação foi manter o horário já programado.
As 15:00 foi dada a largada da corrida, mas devido a chuva, as primeiras voltas foram guiadas pelo Safety car. O temporal não dava trégua, e já na segunda volta, a prova foi paralisada.
Quando aconteceu a relargada, depois de 20 minutos de bandeira vermelha, o carro madrinha voltou para a pista, dessa vez só saindo na sétima volta.
Bianchi tinha largado em 19, mas aos poucos conseguia escalar o pelotão. Foi a partir a 41 volta que a situação ficou extremamente feia na pista. Felipe Massa já tinha avisado cinco vezes no rádio que a chuva piorava e que não dava para ver nada, mas foi Adrian Sutil que comprovou que estava difícil dirigir no asfalto encharcado.
Sutil aquaplanou na pista e acabou batendo na curva Dunlop. O impacto chamou o trator resgate para o circuito, e a direção de prova acionou só as bandeiras amarelas na prova. Adrian já tinha se levantado do carro e ainda estava perto da barreira de pneus quando viu a cena se desenrolar na sua frente.
A Tragédia.
Jules Bianchi, infelizmente, também perdeu o controle de seu carro e assim como Sutil, aquaplanou e bateu. A diferença é que a batida foi direto na traseira do trator que retirava o bólido da Sauber da pista.
De acordo com o site Racecar Engineering, uma das teorias é que pode ter acontecido uma falha no carro que talvez, mas talvez, pudesse ter impedido o impacto. A teoria é que Bianchi, ao tentar evitar o carro de resgate, botou o pé no freio, o que fez as rodas dianteiras travarem.
Mas enquanto Jules acionava o freio, o outro pé ainda estava no acelerador.
Os carros da Fórmula 1, em 2014, tinham um sistema chamado Failsafe, que é um algoritmo de software no computador de bordo. Basicamente a função desse sistema é sobrepor o acelerador e desligar o motor em situações como de Jule.
O problema é que o carro, que Bianchi pilotava, tinha um sistema incompatível com o Failsafe. Na prática, o Coordenador de Torque do bólido do piloto francês, impediu que o Failsafe agisse como programado. O motor não desligou, o que pode ter influenciado no impacto.
A outra teoria é que Jules talvez tenha se distraído e não conseguiu desviar a tempo. Ele até tentou desacelerar, tendo uma redução abrupta de velocidade, de acordo com o site português Observador, que teve como base o relatório acessado pelo Auto Motor und Sport.
Ainda segundo esse relatório secreto, Jules bateu a 126 km/h e sofreu impacto de 254 G, o que foi extremamente impactante para o piloto francês.
Situação agravante.
Velorio de Jules Bianchi. Imagem: Lance!
Quando o resgate chegou para Jules Bianchi, o piloto já estava inconsciente. A situação era tão grave, que do centro médico, ele precisou passar por uma cirurgia de emergência.
No autódromo de Suzuka, a prova finalmente foi encerrada, mesmo faltando onze voltas para a bandeirada. Lewis Hamilton, Nico Rosberg e Sebastian Vettel foram para o pódio, mas não tinha mais o menor clima para celebração.
No Hospital de Mie, o piloto da Marússia precisou ficar na Unidade de Tratamento Intensivo, pois foi diagnosticado com Lesão Axonal Difusa.
Quando o carro de Bianchi bateu no guindaste, ele entrou parcialmente debaixo da grua e o capacete do piloto bateu no veículo do resgate. Nessa pancada, junto com a desaceleração forte do carro, o cérebro de Bianchi pode ter rotacionado.
Nesse tipo de traumatismo cranioencefálico (em inglês), os axônios- prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão dos impulsos nervosos- podem ser danificados. Além disso, pode ter também um inchaço no cérebro e aumento da pressão intracraniana.
O paciente que passa por esse tipo de traumatismo pode ter perda de consciência, de seis a oito horas, e em casos ainda mais graves, pode entrar em coma.
Jules Bianchi tinha só 25 anos quando teve a carreira encerrada após passar nove meses em coma. O piloto que era considerado um talento em ascensão, morreu nove meses depois, e foi a última vítima do asfalto da Fórmula 1 até hoje (espero que não tenha mais vítimas).
O Legado.
Halo no carro da Ferrari. Imagem: Autosport.
Entre os efeitos da morte de Bianchi, teve um que causou desgosto a primeira vista. Foi introduzido na F1 o Halo, uma estrutura de titânio, que tem como função proteger o piloto que maiores danos em caso de acidente.
Assim como qualquer inovação, vieram as críticas dizendo que o Halo estragava a essência do carro da Fórmula 1. Os próprios pilotos estranharam, mas logo na temporada de estreia, teve piloto que provavelmente ajoelhou e agradeceu, a qualquer entidade que acreditasse, pela existência do Halo.
Coincidência ou não, o legado de Jules foi salvar logo seu “afilhado” no automobilismo, o monegasco Charles Leclerc (em inglês).
Em 2018, foi dada a largada do Grande Prêmio da Bélgica, e ainda no início da prova, aconteceu um incidente entre Nico Hulkenberg e Fernando Alonso. O carro do piloto espanhol, nesse acidente, acabou partindo para cima do novato Leclerc.
Um dos pneus atingiu bem na área do Halo, e se caso não tivesse essa estrutura, o impacto poderia ter sido contra a viseira do capacete de Leclerc.
Dois anos depois, no Grande Prêmio do Bahrein, o Halo agiu novamente, dessa vez impedindo que a barreira invadisse o cockpit de Romain Grosjean, o que pioraria muito mais o acidente, já que o carro pegou fogo.
Grojean, que tinha criticado a criação dessa estrutura, acabou sendo ajudado pela mesma. No mesmo ano, o piloto da Haas anunciou sua aposentadoria, já que o acidente impactou demais na sua vida.
Ligação que atravessa os mundos.
Charles Leclerc é Jules Bianchi. Imagem: Globo Esporte.
Mesmo tendo morrido anos antes da estreia de Leclerc nas pistas da Fórmula 1, Jules Bianchi continuou cuidando de seu mentorado no automobilismo.
Além disso, sua morte não foi em vão. Medidas de segurança foram tomadas, como uma melhoria no sistema de drenagem da pista e uma importante diretriz que fala que o início da prova tem que ser pelo menos 4 horas antes do pôr do sol ou do anoitecer.
Em 2024, a mãe de Jules, Christine Bianchi disse, ao site Stewarts Law (em inglês) que ainda é difícil lidar com a morte do piloto, mas que fazem o que podem para manter a associação criada em homenagem ao filho.
A família Bianchi ajuda na compra de itens para o departamento de lesões cerebrais do Hospital Archet de Nice.
Fontes e referências
COLLINS, Sam.Human error at the core of Jules Bianchi crash. Racecar Engineering, 4 dez. 2014. Análise técnica baseada no relatório da FIA, incluindo informações sobre o FailSafe, o sistema Brake-by-Wire e o Torque Coordinator. Racecar Engineering — Human error at the core of Jules Bianchi crash
MESFIN, Fassil B.; GUPTA, Nishant; HAYS SHAPSHAK, Angela; MARGETIS, Konstantinos.Diffuse Axonal Injury. StatPearls [Internet]. Treasure Island: StatPearls Publishing. Atualizado em 7 jul. 2025. National Center for Biotechnology Information (NCBI). NCBI Bookshelf — Diffuse Axonal Injury
STEWARTS.Jules Bianchi’s fatal crash: reflecting on his legacy and safety in motorsport ten years on. 7 out. 2024. Informações sobre o legado de Bianchi, mudanças de segurança na Fórmula 1 e o desenvolvimento do Halo. Stewarts — Jules Bianchi’s fatal crash
JULES BIANCHI OFFICIAL WEBSITE.Jules Bianchi, ten years on: in the eyes of Charles Leclerc, the memory of a driver and the legacy of F1 safety. Depoimentos e informações sobre a relação entre Jules Bianchi e Charles Leclerc. Jules Bianchi — Ten years on
Vinte e cinco depois do atentado, a influência do episódio ainda se mostra forte no mundo e da teledramaturgia brasileira.
Por Renata Resende
Na data de hoje se completa 25 anos de um dos maiores ataques terroristas, que já aconteceram na história mundial. A Organização Al-Qaeda, depois de planejar cada passo durante anos, finalmente colocou em prática sua intenção.
O Plantão.
Atentado do dia 11 de setembro de 2001. Imagem: Jovem Pan
Quatro aviões internacionais estadunidenses são sequestrados, e os extremistas que fizeram o sequestro conseguiram concluir três dos quatro objetivos. Dois dos aviões foram lançados contra as Torres Gêmeas em Nova York, um avião atingiu o Pentágono e o último, felizmente não chegou no destino planejado pelos extremistas, que muito se acreditava que seria a Casa Branca.
Sabe-se lá porque, criou-se uma memória coletiva que o plantão que foi ao ar na Rede Globo, interrompeu um episódio de Dragon Ball Z. No entanto, a emissora disse que esse Anime não estava passando quando o plantão começou.
O ataque aos EUA, alterou a programação da emissora global, e também quase fez com que a Globo desistisse da ideia de lançar a próxima novela das nove, chamada O Clone.
O ator, que deu vida ao personagem Said, Dalton Vigh contou em uma entrevista ao canal Splash, que a novela quase foi engavetada, pouco menos de um mês antes da sua estreia.
Sobre o atentado, Dalton revelou que “rolou uma preocupação na Globo se a novela iria ser exibida mesmo, porque se tratava de mundo islâmico”.
Porém a emissora seguiu com o plano, e no primeiro dia de outubro, o folhetim chegou para substituir Porto dos Milagres. Hoje em dia, a escolha de manter o projeto dessa novela, pode ser consideradas umas das mais acertadas pela Rede Globo.
“Somente por amor”.
A canção, de Marcus Viana, entrou na memória dos brasileiros, já que a cada vez que o casal injustiçado trocavam olhares, começava “somente por amor”.
O Clone conta a história de Jade (Giovanna Antonelli), uma moça mulçumana criada no Brasil, que precisou se mudar para o Marrocos, terra natal de sua família quando sua mãe morreu. Porém, o choque cultural seria o menor dos problemas que ela ainda enfrentaria na sua jornada.
Por acaso do destino, é no Marrocos que Jade conhece seu amor, Lucas. O problema é que Lucas (Murilo Benício) era brasileiro e estava apenas de passagem com sua família pelo Oriente. Mesmo os dois se apaixonando loucamente, a união foi proibida, já que o contexto religioso não permitia o casamento entre uma mulçumana e um ocidental não convertido.
Embora a novela tivesse várias tramas impactantes, a emissora de Roberto Marinho, teve receio de como o público receberia a história centrada no mundo do Oriente Médio. Olhando hoje em dia, dá para perceber que a preocupação foi em vão.
O Brasil descobrindo o mundo islâmico pela TV.
Glória Perez, a autora da novela O Clone, talvez não tivesse ideia do impacto que o folhetim teria no Brasil. Personagens como tio Ali, Dona Jura (Solange Couto), Nazira (Eliane Giardini ) e Albieri (Juca de Oliveira) chamaram a atenção na trama.
O tio Ali, vivido por (Stênio Garcia) foi um dos personagens mais carismáticos e, talvez, o que mais mostrou que o Islamismo é muito mais do que extremismo religioso. Ali muitas vezes discutia com Abdu (Sebastião Vasconcelos), sobre os ensinamentos do Alcorão, e por vezes, passava pano nos malfeitos de Jade.
A novela influenciou tanto que muitas mulheres quiseram aprender a dança do ventre, tanto encenada pelas personagens árabes. Nas bancas, algumas revistas ensinavam a fazer aquelas joias que ligavam uma pulseira até um anel no dedo.
O preconceito contra os islâmicos não foi erradicado no Brasil, mas pelo menos foi reduzido, afinal Glória Perez mostrou que o problema não é a religião em si, e sim os extremistas que usam a religião como desculpa pelos seus atos.
Opinião mulçumana.
Mariam Chimi, pode falar sobre como foi recepção da novela O Clone, para os islâmicos no Brasil. Segundo ela, no podcast Pode Dar Prado, o folhetim “foi, ao mesmo tempo, um desserviço e importante, porque naquela época todo mundo achava que o Islã, era tipo que os mulçumanos eram terroristas.”
A parte ruim, segundo ela, é que seu líder que fez parte da produção da novela disse que muitos, que antes eram preconceituosos, agora achavam que os mulçumanos eram dançarinos.
Maktub (مكتوب), estava escrito.
Jade e Lucas, personagens da novela O Clone. Imagem: CNN Brasil.
Os impactos do ataque são sentidos até hoje, e a memórias das vítimas, que morreram no dia 11 ou depois (consequência da intoxicação causada pela queda das torres) seguem sendo honradas.
Felizmente, a estreia da novela O Clone amenizou, pelo menos um pouco que nem todos mulçumanos seguem essa linha de raciocínio extremista.
Estadão.Cerimônias de 11 de Setembro: minuto de silêncio, discurso de Trump e presença de ex-presidentes dos EUA. Disponível em: Estadão. Acesso em: 11 set. 2026
Quando se fala em história da Itália, geralmente o que vem na mente é o grandioso império romano, as famosas figuras do Renascimento e até as Grandes Guerras contemporâneas em que os italianos participaram.
Porém, o que muitos não sabem, é que os italianos tem antepassados que vão além dos antigos romanos. E uma das presenças mais marcantes, na formação do futuro povo italiano, foi a Civilização Etrusca.
Povo originário.
Arte etrusca. Imagem: Roma Pra Você
Existia divergência sobre a origem dos Etruscos. Enquanto alguns historiadores acreditavam que esse povo era originário da Lídia (atual Turquia), outros pesquisadores partiam da ideia que os Etruscos sempre estiveram na península.
De acordo com o site World Story, estudos de DNA confirmaram que os etruscos são originários daquele território. Mais especificamente, as cidades etruscas ficavam pelo litoral da península e pela região da atual Toscana.
Os Etruscos foram uma das civilizações mais bem sucedidas do Mediterrâneo. Vivendo em cidades-estado, como os gregos antigos, eles não tinham uma fronteira limitada territorialmente, mas eram unidos pelo idioma e pela religião.
A sua prosperidade vinha das terras férteis, das ferramentas agrícolas e dos ricos recursos minerais. E não dá para deixar de fora o fato que os etruscos eram ótimos comerciantes.
Os etruscos tinham grande proximidade com os gregos (perdão, helenos). A influência, vinda da Grécia, podia ser vista desde o traje do exército até no idioma etrusco, mais especificamente no alfabeto.
A queda.
Assim como qualquer civilização da História Antiga, os Etruscos passaram por altos e baixos, mas no caso deles, a época de baixa foi seguida pelo “fim” desse povo.
Mais ou menos no século V antes de Cristo, os Etruscos construíram extensas fortificações com torres e portões, querendo proteger suas cidades de uma possível ameaça militar. E a ameaça veio… com força.
Roma ganhava cada vez mais força, e resolveu que a parte sul da península estava pequena demais. Os romanos olharam para as cidades etruscas, pensando em como conquistá-las.
Os Etruscos por sua vez, tiveram que lidar com Roma vindo do sul, e ao norte, estavam sendo invadidos por tribos celtas. Foram aproximadamente 200 anos de guerras intermitentes. Mesmo com Tratados de Paz, o povo etrusco não conseguiu segurar a derrocada por muito tempo.
Os romanos sempre foram resilientes, e quando perdiam, eles não abaixavam a cabeça, aprendiam com os erros e voltavam com tudo.
Aproximadamente 80 a.C., os etruscos caíram e foram romanizados. O idioma etrusco foi substituído pelo Latim, e qualquer aspecto de sua cultura foi quase esquecida. Quase.
Depois de 2.500 anos, tumbas decoradas e cheias de artefatos exóticos foram descobertas. E a cada descoberta, um pouquinho mais sobre os Etruscos é compreendido.
Marca etrusca.
Arte etrusca. Imagem: World History Encyclopedia
Os homens tinham o poder, mas pelo menos as mulheres eram mais livres, principalmente quando comparadas com as espartanas ou as romanas. Não podiam participar da vida política, mas pelo menos podiam herdar propriedades e eram mais independentes.
A religião era politeista, e o principal deus de seu panteão era Tin. Os etruscos se preocupavam tanto com seu futuro, que usavam entranhas dos animais, como o fígado, para tentar saber um pouco mais sobre o destino que estava por vir.
Templos erguidos aos deuses, se tornaram traço característico de sua arquitetura. Dos tijolos de barro, os etruscos foram evoluindo para o uso de pedras e colunas toscanas.
Assim como os egípcios, as tumbas dos membros da elite eram pintadas. Os temas dessas artes variavam entre dança, música, esportes e qualquer evento de maior importante para eles.
Foi do povo Etrusco, que os romanos pegaram a ideia de fazer procissões quando venciam alguma batalha. Palavras do idioma foram adicionadas ao Latim, e a língua etrusca chegou a influênciar idiomas do norte europeu.
Voltando da década de 60 até as lágrimas de alegria em 2026.
Tifosi no Grande Prêmio da Itália. Imagem: F1 Site oficial.
PorRenata Resende
O circuito de Monza sempre trouxe fortes emoções para qualquer amante de corridas, e com Enzo Ferrari e os fãs da sua escuderia não seria diferente. Em 2026, a canção Sará perchè ti amo foi a trilha sonora da vitória do italiano Kimi Antonelli, mas em 1961, a trilha sonora foi o choque dos fãs diante da tragédia.
Yates descreve em sua biografia sobre Enzo Ferrari como o ano de 1961 estava sendo maravilhoso para o Commendatore Italiano. A Scuderia tinha conquistado a vitória nas 24 Horas de Le Mans . Na Fórmula 1, a equipe pilotada por Wolfgang von Trips e Phil Hill, estava sendo a melhor no campeonato, com seus dois pilotos disputando o campeonato de pilotos.
A definição do título ficou para a etapa de Monza, mas ninguém contava com o estrago que aconteceria naquela prova.
Jim Clark conseguiu ser o líder da prova, pilotando uma Lotus 21, e era perseguido por von Trips. Foi a caminho da Parabólica que a cena se desenrolou. Trips, freou bruscamente e a Ferrari e a Lotus se tocaram. Pra quê? Von Trips perdeu o controle da sua Ferrari 156, foi em direção ao público e o piloto alemão foi lançado para fora do bólido.
O choque foi instantâneo.
O jornalista Antônio Teixeira Neto conta, no livro Monza 61, como foi a tragédia, e fala não só sobre o piloto como também sobre as vítimas da tragédia. Infelizmente, quinze dos espectadores do público morreram, e algumas dezenas mais saíram feridas desse acidente.
Consequentemente com a morte de Wolfgang von Trips, o campeão dos pilotos foi Phil Hill. Ainda no seu livro, Yates fala que Clark foi usado como um bode expiatório, embora tenha sido absolvido no julgamento, e que a culpa tecnicamente era da diligência da prova, que deixou aqueles espectadores ficarem vulneráveis diante do perigo iminente da corrida.
Empate… na bandeirada final ?
Em 1971, o autódromo de Monza foi palco de mais um momento icônico na Fórmula 1.
No dia 5 de setembro de 1971, a F1 já tinha seu campeão definido, com Jackie Stewart vencendo pela Tyrrell na antepenúltima etapa. Quando chegou na corrida de Monza, não tinha mais aquela pressão de ganhar pontos, afinal, o resultado já estava feito.
A Lotus de Emerson Fittipaldi (ainda não era a Lotus 72D) estava causando burburinhos no paddock. Se inscrevendo com o nome de World Wide Racing, a Lotus tentava evitar que o inovador e turbinado modelo 56B, ou qualquer outro equipamento fosse confiscado (consequência do acidente fatal de Jochen Rindt, um ano antes, também em Monza).
O carro que Fittipaldi pilotava era inovador e turbinado, mas isso não queria dizer que era bom o suficiente para lutar pelo pódio.
O Grande Prêmio da Itália chegou a ter os dois pilotos da Ferrari abandonando e ser liderado por oito pilotos diferentes ao longo da prova.
Na hora da bandeirada, cinco pilotos cruzaram a chegada no mesmo segundo, com apenas milésimos de diferença entre eles. O vencedor da corrida, Peter Gethin (BRM) foi seguido por Ronnie Petterson (March Ford).
Francois Cevert (Tyrrell Ford), Mike Hailwood (Surtees Ford) e Howden Ganley (BRM) fecharam o “Top 5” dos mais rápidos da prova. O brasileiro Fittipaldi terminou em oitavo. Uma curiosidade foi que um dos que abandonaram, além das Ferraris, foi então piloto Helmut Marko (também pilotando uma BRM).
Monza agora viveria mais momentos inesquecíveis, mas dessa vez sob a pilotagem de um alemão guiando uma Ferrari. Uma dica? Foi homenageado no GP desse ano.
Schumi, O cara da Scuderia.
A Ferrari esse ano quis fazer aquela homenagem para Michael Schumacher, digna de arrancar lágrimas até dos fãs mais durões da F1. Colocou Rubens Barrichello e Sebastian Vettel para pilotarem o modelo F2002.
No caso de Barrichello, ele teve a oportunidade de pilotar de novo o carro, já que em 2002 ele era companheiro de equipe de Schumacher.
Pode-se dizer que 2002 foi um dos melhores anos para a Scuderia italiana, Das 17 provas competidas, 15 foram a alegria dos Tifosi. A etapa de Monza, foi uma das 4 vencidas pelo brasileiro (podendo ser uma das 5 se não fosse a “arte” feita pela Ferrari na Áustria).
Schumacher venceu 11 corridas e conquistou seu pentacampeonato. A Scuderia trouxe de volta a pintura de 2002, para fazer referencia ao carro dominante. Mas nem precisa comentar que a homenagem ao piloto alemão terminou aí né? A prova de 2026, se pudesse, seria apagada da memória dos fãs e da equipe.
Batendo na Parabólica e causando uma bandeira vermelha, Charles Leclerc foi parar no centro médico e precisará passar por mais exames antes do Grande Prêmio da Espanha, já neste final de semana.
Mas o futuro papai monegasco não proporcionou apenas lembranças ruins para os Tifosi.
Fratelli d’Italia no pódio.
Charles Leclerc e a torcida tifosi no GP da Itália de 2024. Imagem: F1 Site oficial.
Embora o Grande Prêmio da Itália seja, talvez, o mais importante para a Scuderia italiana, a Ferrari tem enfrentado jejuns de vitórias em Monza na Fórmula 1.
Em 2010, Fernando Alonso garantiu a viória para os Tifosi, mas demorou 9 anos para que o hino Fratelli d’Italia fosse tocado de novo no pódio. Em 2019, Charles Leclerc tinha sido contratado pela Ferrari e conseguiu sua segunda vitória no campeonato em Monza (a primeira tido sido na Bélgica).
Leclerc infelizmente aprendeu como funciona o box da equipe de Maranello e já sabe que a Ferrari não tem tanta chance de vencer quanto deveria (espero que a terapia esteja em dia). Porém, de vez em quando acontece um milagre na garagem vermelha, e em 2024 aconteceu.
O GP da Itália daquele ano começou com a pole position de Oscar Piastri (McLaren) e os pilotos da Ferrari não tinham conseguido nem a primeira fila do grid. Charles Leclerc e Carlos Sainz pelo menos chegaram com estilo, usando aqueles macacões pretos inspirados no carbono.
Mas um milagre aconteceu.
Na 39ª volta, Leclerc assumiu a liderança e não soltou mais. Levou a Ferrari para o lugar mais alto do pódio, e quebrou mais um jejum de cinco anos sem vitória da equipe italiana em Monza (Que dia meu povo, que dia).
Esse dia foi marcado também na memória dos argentinos, com Franco Colapinto estreando na Fórmula 1, trazendo o país latino para a categoria depois de 23 anos. O piloto conquistou até os brasileiros, não só pelo sobrenome diferenciado, mas também pelo desempenho na pista.
Franco não só quase pontuou, como também questionou a teoria sobre o desempenho da Williams. Afinal, o carro era uma carroça, ou o desempenho ruim era na verdade responsabilidade do piloto Logan Sargeant?
Sará perché ti amo.
Kimi Antonelli comemorando com Senna no pódio. Imagem: Gazzetta di Milano.
Kimi Andrea Antonelli, um moleque hoje com 20 anos, foi muito subestimado e pressionado quando estreou na Fórmula 1 numa equipe de ponta, a Mercedes, quando na Fórmula 2 nem tinha aquela performance.
Substituindo o heptacampeão Lewis Hamilton, que tinha anunciado sua ida para a Ferrari, Antonelli não era o rookie mais habilidoso do grupo de novatos na F1 em 2025. O destaque ficava mesmo era para Isack Hadjar (RBR) e Gabriel Bortoleto, brasileiro que estreou pela Sauber (futura Audi) e que foi considerado por Helmut Marko como um “piloto B”.
Mas Kimi se adaptou, e virou quase uma reencarnação do Senna. seu ídolo. O garoto atualmente lidera o campeonato de pilotos, e praticamente empurrou George Bottas (ops, Russell) para a brita da Mercedes (entendedores entenderão).
Como se não estivesse tendo um desempenho fora da curva, o italiano ainda quebrou mais um jejum de Monza, levando o prêmio para a Itália depois de 60 anos. Ele fez a torcida da Ferrari virar a casaca, e teve até ferrarista exibindo a bandeira italiana com o escrito “Kimi Antonelli”.
Mas posso falar a verdade aqui? Foi bonito ver o Pierre Gasly (Alpine) largando na pole position e a torcida italiana cantando Sará perché ti amo, canção de Ricchi e Poveri.
Monza, nós te amamos.
Não importa o time para qual torça, não dá para perder o Grande Prêmio da Itália que acontece em Monza. A cada ano é uma cena inesquecível, e que prova que o autódromo de Monza sempre estará no coração da Fórmula 1.
Da construção do circuito à chegada da Fórmula 1: as histórias que transformaram Monza em um dos templos do automobilismo.
Kimi Antonelli vence o Grande Prêmio da Itália. Imagem: F1 site oficial.
Por Renata Resende
E Monza faz história mais uma vez no Grande Prêmio da Itália. Depois de 60 anos sem nenhum italiano ganhando um GP de Fórmula 1 em casa, Kimi Antonelli (Mercedes) fez os tifosi (torcedores da Ferrari) virarem a casaca, pelo menos temporariamente. Charles Leclerc (Ferrari), por sua vez, fez alguns fãs chorarem, quando bateu e ainda foi parar na instalação médica (mas ele passa bem, obrigada pela preocupação).
Mas não é a primeira vez que os amantes da Fórmula 1 ficam eletrizados assistindo o desenrolar das cenas neste circuito italiano. Foram vários os momentos impactantes que aconteceram em Monza, alguns trazendo felicidade, outros trazendo tragédia. E tudo começou lá atrás, depois que acabou a Primeira Guerra Mundial.
Benvenuti à década de 1920.
Em 1922, uma grande obra começou a ser construída nos arredores de Milão, e ela se tornou um dos circuitos mais antigos e icônicos do calendário da Fórmula. A ideia, que partiu do Automobile Club de Milano, tinha pelo menos dois objetivos diferentes: ser um circuito permanente de testes para as montadoras italianas, e também para receber um Grand Prix internacional para rivalizar com o disputado na França.
Na sua biografia sobre Enzo Ferrari (Ferrari: O homem por trás das máquinas) Brock Yates cita a construção da autódromo, e como ele faria parte da história do Commendatore italiano. Segundo Yates, Ferrari viu de perto a construção, enquanto ainda era piloto, porém curiosamente nunca chegou a protagonizar um momento bombástico pilotando naquele circuito. Mas Ferrari e Monza sempre estariam ligados um ao outro.
O traçado original do circuito, que foi inaugurado no dia 3 de setembro de 1922, tinha quase 10 km de extensão. Seis anos após sua inauguração, foi preciso alterar o desenho devido à primeira das tragédias que abalaram Monza.
O primeiro grande abalo.
Há exatos 98 anos, no dia 9 de setembro de 1928, Emilio Materassi participaria de sua última corrida da vida. O piloto italiano tinha uma carreira já consolidada no automobilismo, e inclusive era dono da Scuderia Materassi, equipe que comprou da Talbot-Darracq. No Grand Prix da Itália de 1928, Materassi pilotava sua Talbot 700, e já começou a prova enfrentando problemas e precisando ir para o box duas vezes.
Na décima sétima volta, Materassi perdeu o controle de seu carro quando tentou ultrapassar a Bulgatti de Giulio Foresti. O resultado foi uma tragédia, que envolveu mais pessoas além do piloto. Na tentativa de desviar o carro, Materassi saiu da pista, saltou sobre uma vala de proteção e atingiu o público. Dezenas de pessoas morreram praticamente na hora, e mais algumas se feriram, com uma chegando a morrer no dia seguinte e outra indo a óbito nove dias depois.
Emilio Materassi tinha apenas 34 anos, quando deixou a esposa e duas filhas. Na sua sepultura, foi erguida uma estátua de bronze, obra do escultor Mario Ferretti. Com relação às outras vítimas do acidente, no site Motorsport Memorial tem uma lista dando nome a cada uma delas (link em inglês).
Embora o acidente não tenha sido na parte oval do autódromo, esse trecho foi fechado na tentativa de reduzir as altas velocidades na reta principal. Em 1930, Vincenzo Florio, idealizador da corrida Targa Florio, teve uma ideia de alteração para o circuito. Usando a infraestrutura já existente, foi adicionada uma chicane e só a inclinação sul da pista era utilizada (em inglês).
No dia 6 de setembro de 1931, aconteceu o quarto Grand Prix de Monza, e mais uma vez outro acidente aconteceu. Philippe Étancelin, pilotando um Alfa Romeo, tentou ultrapassar Giovanni Minozzi, mas perdeu o controle do carro, saiu da pista e também acertou alguns fãs (assistiam a corrida num local proibido). Ao contrário das vítimas, entre elas duas mortas, Étancelin saiu apenas levemente lesionado, mas devastado e inocentando Minozzi de qualquer culpa.
Em 1933, o circuito original mostrou mais uma vez o quão perigoso era, praticamente pedindo para ser alterado de novo.
O Dia Negro de Monza.
Era 10 de outubro de 1933, o Grande Prêmio de Monza trouxe mais uma memória perturbadora para o automobilismo. A sequência de acontecimentos que se prosseguiu foi tão intensa para Enzo Ferrari, que Yates fez questão de falar sobre esse GP em seu livro.
A prova, que seria realizada em três baterias, aconteceu na parte oval da pista. Um dia antes, alguns pilotos, entre eles os dois mais icônicos da época, Tazio Nuvolari e Luigi Fagioli, desistiram de participar da competição. O dia frio, ameaçando chover, parecia avisar sobre a tragédia que aconteceria.
Ainda na primeira bateria, o piloto Felice de Trossi abandonou a corrida, pois seu carro (Duesenberg Special) deu um problema no motor, e ao que parece, deixou uma poça de óleo na pista, bem no meio da curva sul. Guy Moll, que terminou em segundo lugar, exigiu que alguma providência fosse tomada sobre esse óleo. Antes que a segunda bateria começasse, a mancha de óleo foi limpa com vassouras e teve um revestimento de areia. Mas não foi o suficiente para evitar os próximos momentos.
Então começou a segunda parte da prova. Giuseppe Campari pilotava um Scuderia P3, e competia lado a lado contra Baconin Borzacchini (Maserati), e desapareceram da vista dos espectadores, e junto com eles, também não haviam notícias de Nando Barbieri e o conde Castelbarco. Como esses pilotos não voltavam, surgiu um boato que talvez eles tivessem se acidentado. Infelizmente, o boato se concretizou.
Campari e Borzacchini tinham tocado as rodas dos carros e sido lançados para a cerca de arame do campo interno. Borzacchini se feriu gravemente e morreu horas depois, enquanto Campari faleceu na hora. Os outros dois pilotos também considerados desaparecidos voltaram praticamente ilesos.
Segundo Yates, as mortes de Giuseppe Campari e Baconin Borzacchini abalaram o senhor Ferrari, que considerava os dois pilotos como companheiros. A partir daquele momento, Enzo Ferrari fecharia seu coração para os pilotos, com apenas um ou outro piloto atravessando a barreira do Commendatore.
Prenúncio de Guerra.
Após essas tragédias acontecerem, era hora de dar um jeito naquele autódromo. A pista era rápida demais para o seu próprio bem. O engenheiro Aldo di Rionzo foi o responsável pelas alterações, e demoliu a parte oval do autódromo. A Curva de Lesmo foi alterada e o pedido da Pirelli por um trecho de testes foi aceito. Instalações para os fãs também foram feitas, como a arquibancada para 2000 pessoas e um restaurante no térreo.
Quando estava chegando a hora de ver se as melhorias feitas dariam realmente certo, as corridas precisaram ser paralisadas … e a Segunda Guerra Mundial bateu na porta.
A cidade de Monza foi ocupada em 1943, pelos alemães, e o circuito também foi afetado. O que antes era um autódromo, agora se tornou um depósito de arquivos e até mesmo dos animais retirados do zoológico de Milão. Quando a guerra acabou, o circuito de Monza precisaria passar por mais uma reforma se quisesse voltar a receber corridas.
O asfalto da pista foi danificado pelo desfile de blindados dos Aliados. Mas dessa vez a reforma foi rápida, durando apenas dois meses e o autódromo voltou a ter a carinha de pista de corrida. Construído sobre concreto armado e com uma nova curva parabólica. Mais melhorias foram feitas, agora sendo construídas duas grandes torres com placares luminosos, mostrando cada posição da corrida ao longo da pista.
Senhoras e senhores, bem-vindosà Fórmula 1.
Grande Prêmio da Fórmula 1 em 1950. Imagem BBC.
Era 1950 quando aconteceu a primeira temporada do campeonato oficial da Fórmula 1, e claro que o circuito de Monza sediaria uma das sete etapas da categoria.
No dia 3 de setembro, era a última prova da temporada e a briga do título estava entre Nino Farina e Juan Manuel Fangio. A lenda argentina, Fangio, até conseguiu a pole position, mas logo na largada foi ultrapassado por Farina. Vencendo em casa, Nino conquistou o campeonato com apenas três pontos de diferença para Fangio, fazendo a festa da torcida italiana.
Desde 1950, Monza vem recebendo a Fórmula 1, sendo um dos circuitos mais antigos do calendário a estar presentes desde o início do campeonato. Infelizmente, onze anos após seu início, a F1 veria uma das piores tragédias de sua história acontecendo em Monza. Mas essa história fica para o próximo post, te aguardo lá.
Atualmente a Fórmula 1 não tem mais no calendário o Grande Prêmio da Coreia do Sul, mas os ídolos coreanos marcam presença no asfalto, não pilotando, mas fazendo parte da trilha sonora da velocidade.
Lewis Hamilton e Rosé no box da Ferrari, no Grande Prêmio de Miami/ Imagem: F1 Instagram.
Por Renata Resende
O ano era 2012 e um dos videoclipes mais acessados, no YouTube, vinha da Coreia do Sul. O sucesso do Psy, com a música Gangnam Style, seria só uma amostra do que viria a ser o K-pop no mundo, chegando até ao paddock da Fórmula 1.
Voltando na história…
O que hoje se tornou uma das indústrias mais importantes na Coreia do Sul, o K-Pop é fruto de uma tentativa de resgate de nacionalidade num país destroçado.
Quando o Império Japonês invadiu a Coreia (em inglês), os japoneses deram o máximo de si para acabarem com qualquer vestígio de identidade coreana.
Embora os japoneses tenham feito algum avanço naquelas terras, como na construção de uma malha ferroviária, os coreanos foram reprimidos e só se veriam livres quando a Segunda Guerra Mundial acabasse. Mas a felicidade coreana nao viria tão fácil.
Momento da Guerra da Coreia./ Imagem: BBC.
A queda dos japoneses foi sentida também na Coreia, e para piorar, o país ainda se veria divido entre as maiores potências vindas com a Guerra Fria. O território coreano, em acordo com os EUA e a URSS, foi governado e divido no paralelo 38. Não demorou muito tempo para que houvesse tentativa de reunificação, mas como o post sobre a Guerra da Coreia mostrou, o estrago feito foi sentido pela península inteira.
Agora além dos japoneses, os coreanos seriam influenciados também pelos ritmos musicais vindos junto com os soldados estadunidenses.
Na tentativa de se distrairem naquele cenário de guerra, soldados estadunidenses teriam como atração, cantores coreanos interpretando músicas que viam das terras americanas. Trazendo elementos do jazz, hip hop e outros estilos musicais dos EUA, os sons dos dois países foram se misturando o que viria a ser o K-Pop.
Batidas misturadas e coreografias inesquecíveis.
Kim Sisters se apresentando./ Imagem: Vanity Fair.
Ainda nos bailes frequentados pelos soldados ocidentais, surgiria um dos primeiros grupos musicais sul-coreanos. Formado pelas duas irmãs e a prima, Kim Sook-ja, Kim Ai-ja e Lee Min-ja, o conjunto The Kim Sisters (em inglês) fizeram um sucesso estrondoso, chegando entrar nas paradas da Billboard.
Os jovens, da parte sul da península, viriam a gostar de um tipo de música mais animada, dançante e moderna, o que foi um desagrado para o governo ditador da década de 70.
Certas músicas com letras que desagradavam o Estado chegaram a serem censuradas. Mas a repressão não deu certo e esse novo estilo musical que surgia veio para ficar.
Outro grupo musical que foi uma forte influência na cultura coreana foi o grupo Seo Taiji and Boys. Com uma proposta diferenciada, eles trouxeram uma apresentação guiada com uma coreografia complexa e sincronizada. O estilo de roupa, mais despojado também influenciou o guarda-roupa dos jovens, e alguém viu o potencial comercial disso e resolveu investir pesado nessa música.
Grupo coreano Seo Taiji and Boys./ Imagem: Spotify.
Lee Soo-man percebeu o potencial que viria do K-Pop e criou a SM Entertinment, uma das empresas mais forte nessa indústria coreana. Investindo em um grupo de 5 coreanos, o H.O.T, Lee começou toda essa história de indústria de produzir ídolos coreanos, que ficariam treinando por anos e sendo preparados para o sucesso mundial.
Dos palcos sul-coreanos para trilha sonora da F1.
Uma das artistas mais famosas da Coreia do Sul, Rosé entrou para a trilha sonora do filme F1, estrelado por Brad Pitt e Damson Idris, com a música Messy. Além de entrar no álbum oficial, a cantora já vinha marcando presença no paddock e até na narração brasileira ela era citada.
Rosé, nasceu na Nova Zelândia mas foi na Coreia do Sul que começou sua trajetória musical. A cantora estreou pelo Blackpink, conjunto musical formado também por Lisa, Jisoo e Jennie.
Além de Rosé, outros artistas coreanos também marcam presença no paddock da Fórmula 1, como Lisa, outra das integrantes do Blackpink, e o grupo Enhypen foi convidado pela Red Bull Racing a estar no Grande Prêmio de Singapura em 2025. Mas mencionar K-Pop na Fórmula 1, não se pode esquecer a abertura icônica do Grande Prêmio da Coreia do Sul em 2012.
Perfeição fabricada.
Assim como na Fórmula 1, a indústria do K-Pop constrói uma imagem perfeita para seus artistas, pressionando-os a terem a conduta ideal em qualquer área de suas vidas. O programa de treinamento para os futuros ídolos sul-coreanos chega a ser tão intenso, que acontecem notícias de abuso.
Os jovens que entram para esse meio, trabalham por horas em coreografias e passam por procedimentos estéticos para ficar no mais perfeito padrão possível.
Além da pressão para continuarem sendo perfeitos, mesmo com a fama já conquistada, esses artistas têm a vida pessoal afetada, sendo controlados até na vida amorosa, já que o ideal é não se envolverem com outras pessoas.
Quem sabe um dia.
O circuito sul-coreano não é o mais famoso ou mais agraciado pelos fãs da F1, mas quem sabe um dia ele volte a ser palco da categoria de elite do automobilismo. Mas uma coisa é certa, a Coreia do Sul pode não sediar mais um GP de Fórmula 1, mas isso não quer dizer que ela fique de fora de seu paddock.
Uma mesma península dividida por diferentes ideologias.
Bandeiras das Coreias, do Norte à esquerda e do Sul à direita. Imagem: CNN Brasil.
Por Renata Resende
Depois que a trégua entre as duas Coreias foi firmada, ambas passaram por altos e baixos até se tornarem o que são hoje. Enquanto a Coreia do Norte se destaca no mundo geopolítico atual pela sua reclusão e seu programa nuclear, a Coreia do Sul se transformou numa grande exportadora cultural e passou a influenciar o mundo inteiro, principalmente com a indústria do K-pop e de doramas.
Cada Coreia com um rumo diferente, mas com uma semelhança entre si: a vontade das famílias de se unirem de novo.
Coreia do Norte, a potência nuclear em ascensão.
Kim Jong-il em uma indústria de munições. Imagem: O GLOBO
Tendo uma vida melhor que os sul-coreanos, pelo menos por algum tempo, Kim Il-sung impôs ao país o Juche, uma ideologia que defendia que o país deveria ser autossuficiente, um tipo de socialismo, mas adaptado ao estilo coreano.
O Estado assumiu o controle de todas as empresas privadas, ergueu monumentos cultuando o líder, passou a controlar da comunicação até as viagens para o exterior. E um novo sistema, o Songbun, foi introduzido à sociedade, muito parecido com as Castas indianas.
De acordo com a ativista e acadêmica Yeonmi Park, para a BBC, “Songbun é o sistema no qual o seu valor é medido pelos méritos ou falhas de seus ancestrais e parentes”. Na prática, os descendentes de quem lutou pela pátria norte coreana, contra o inimigo, são pertencentes a classe superior, a Haeksim, e são os mais fiéis ao líder Kim. Claro, eles se beneficiam do bom e do melhor na capital Pyongyang. Tem também a classe inferior da sociedade, os Choktae.
Os Choktae, ou hostis, são descendentes de proprietários de terras, comerciantes, cristãos e até de quem lutou “contra a Coreia”. Como o sangue deles é “impuro”, quanto mais longe ficarem da liderança, melhor. Como vivem em locais mais periféricos, não tem a mesma qualidade de vida que os “puros” que vivem na capital.
Entre as classes sociais, existe uma que é considerada intermediária, a Dongyo. Com mais oportunidades que os Choktae, essa classe consegue viver pelo menos ao redor da capital, mas carrega sobre si o olhar desconfiado do Estado.
A partir da década de 70, a situação norte-coreana começava aos poucos a se transformar. A prosperidade se estagnou, afinal a Coreia do Norte não tinha uma economia diversificada e era muito dependente dos soviéticos. Imagina o que aconteceu com o país quando acabou a URSS, seu maior apoiador econômico? Sim, deu pane no sistema.
Na década de 90 os norte-coreanos viveram sua pior fase. A fome se instaurou, doenças se alastraram e a população foi perecendo. Em 1994, o líder morreu e deixou seu filho Kim Jong-il para controlar o país em decadência. O Estado lutava para controlar sua população esfomeada (em inglês), que buscava sobreviver acima de tudo, e alguns norte-coreanos se arriscavam, no mercado ilegal ou se refugiando em outros países como na China. Mas com o tempo a situação iria melhorar.
Recebendo apoio econômico da Coreia do Sul (com limitações) e da China, o país começou aos poucos se recuperar, até 2009 chegar e mais um baque vir. O Estado resolveu acabar com a riqueza privada, o que atrapalhou a economia de novo, fazendo que os norte-coreanos que desconfiavam do regime, agora ficassem descrentes de vez.
Em 2011, assumiu o atual líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un. E é sob o comando dele que aconteceu a “transformação milagrosa” na economia. Mas dessa transformação, os norte-coreanos teriam que enfrentar uma das piores crises mundiais que já aconteceram… a Covid-19.
A pandemia fez ainda mais estrago no norte da península, junto com as sanções impostas pelo exterior a fim de parar o desenvolvimento nuclear do país. O cenário ficou tão grave que Kim Jong-un se pronunciou na TV, se mostrando abatido com a situação da Coreia do Norte. Mas agora a esperança voltaria para a parte norte da península.
Quando a Rússia entrou em guerra com a Ucrânia, o líder norte-coreano aproveitou o momento, e continuou a desenvolver seu programa nuclear, e também começou a fornecer armamento e mão de obra para os russos. Os norte-coreanos foram obrigados a irem para a Rússia? Talvez, depende do ponto de vista, porque existem boatos de coerção.
Enquanto a Coreia do Norte se aproveita da guerra russo-ucraniana para movimentar setores de produção (principalmente militar), nas fábricas que estavam com pó e teia de aranha, na parte sul da península, a economia se movimenta de outra forma.
Coreia do Sul, exportadora da perfeição.
Seul, Capital da Coreia do Sul. Imagem: Vogue- Globo.
Até chegar a esse sucesso que faz no mundo inteiro, a Coreia do Sul também passou por perrengues desde o fim da Guerra da Coreia. Começando seu governo na base da ditadura, o primeiro presidente sul-coreano Syngman Rhee teve uma grande preocupação (além de lidar com os comunistas): levantar um país destroçado pela guerra.
Até a década de 60, a Coreia do Sul recebia grande auxílio financeiro vindo de fora para reestabelecer a situação sul-coreana, mas eles não podiam ficar dependendo de ajuda para sempre. Então Rhee tomou uma atitude fundamental para a parte sul da península se tornar o que é hoje.
Com uma política protecionista, e uma estratégia de substituição de importações, o presidente começou a mexer na economia do país. Mas Rhee não aguentou a pressão da população e renunciou, dando lugar para um governo parlamentarista, sob a liderança de Chang Myon. Após um ano de governo, Myon levou um golpe militar, cujo líder era o general Park Chung Hee.
O general Park teve outra de ideia para desenvolver a economia sul-coreana e fez uma série de planos quinquenais, cada plano com um objetivo. O primeiro deles deu mais que o resultado esperado, com um aumento de exportações e indústrias com mão de obras intensivas. Além do setor da economia, o general se envolveu na Guerra do Vietnã, querendo reforçar laços com os EUA e recebendo empréstimo dos estadunidenses.
Junto com o empréstimo norte-americano, o governo sul-coreano também recebeu empréstimos e subsídios do Japão, formalizando a acordo entre os dois países. Era hora de começar o Segundo Plano Quinquenal, dessa vez focando na modernização da infraestrutura de suas indústrias. Partindo para o Terceiro Plano, o Estado priorizou o investimento nas indústrias voltadas para a exportação.
Foram sete planos quinquenais no total, cada um deles voltado para um tipo de investimento, sendo que o quarto foi o único que não atingiu a meta estipulada, mesmo que o governo tenha investido bastante em tecnologia e mão de obra qualificada. Mas tem explicação para isso, e parte do fracasso aconteceu por causa da segunda crise do petróleo, e a Coreia do Sul dependia demais dessa fonte energética.
Para piorar a situação, o general foi assassinado, e o próximo presidente que assumiu o comando, Choi Kyu-ha instaurou lei marcial (com a ajuda de Choi Kyu-ha), fazendo com que o país voltasse para a ditadura. Mas os planos quinquenais continuaram, fazendo com que a inflação caísse. Depois de 16 anos, voltaram as eleições democráticas, e Roh Tae-woo foi eleito.
A ciência e a tecnologia avançaram, o governo deu mais assistências para pequenas e médias empresas, barreiras e restrições não tarifárias foram removidas e em 1992, o último plano foi formulado. O objetivo principal do Sétimo Plano Quinquenal era promover uma economia mais eficiente, mas o plano foi trocado pelo novo presidente eleito, Kim Young-sam (sim, nesse momento a península coreana era comandada por Kims).
Agora o foco se voltava para desenvolver ainda mais a tecnologia. Pelo menos até uma nova crise chegar, e ela chegaria em 1997.
As taxas de câmbio ficaram instáveis e investidores tiraram seus dólares da região asiática. Empresas coreanas, como a Kia Motors, iam entrar em processo de falência se o governo não tivesse intervindo. Através do Acordo contra falência, o governo obrigou os bancos a fazerem empréstimos extras, piorando ainda mais a economia sul-coreana. Mas ainda não era o fim da Coreia do Sul e ela ia ressurgir.
Querendo amenizar o efeito da crise, a Coreia do Sul fez um acordo com o Fundo Monetário Internacional, conseguindo empréstimo em troca de reformas estruturais, o que incluía os Chaebols e qualquer outra instituição responsável pela crise. Agora guarda esse nome, Chaebols, porque esses caras foram fundamentais para a Coreia do Sul.
Imagina comigo, um grupo familiar que é muito rico e é dono de empresas em vários setores econômicos de um país. Então, essa é a definição dos Chaebols. E esses grupos não ficam só na Coreia do Sul não, e eu tenho quase certeza que tem algum produto desses investidores na sua casa. Duvida? Você tá lendo esse post por onde? Pelo celular, computador… Samsung, LG? Agora quando sair na rua, repara se não tem um Hyundai HB20 passando por aí. Essas marcas que citei são só alguns exemplos dos Chaebols sul-coreanas famosas.
Esses grupos só foram perder tanto poder no país quando teve a crise de 1997, quando muitas empresas faliram e acabaram desaparecendo do mapa, mesmo com o apoio do governo. Os Chabols que passaram pela crise influenciam fortemente o país até hoje.
Para se recuperar e diversificar um pouco, a Coreia do Sul investiu em indústrias que gerariam exportação, com mais valor agregado. Adivinha um exemplo desse tipo de indústria? K-pop e dorama. E é aí que começa a influência cultural sul-coreana no mundo. Um exemplo de cultura que foi e ainda é muito exportada é o K-pop, que vai entrar em todas as áreas, inclusive no paddock da Fórmula 1.
Mas aí você já sabe né? Isso é história para o próximo post, então, até lá!
Fronteira paralelo 38 durante a Guerra da Coreia. Imagem: BBC
Por Renata Resende
Finalmente, depois de longos anos de dominação e sofrimento causados pelos japoneses, os coreanos finalmente estariam livres para voltarem a viver sua identidade milenar, tomar conta do próprio país sem que uma potência estrangeira desse opinião no que não era de sua conta. A Coreia voltaria a ser uma nação unida, com um longo caminho de restauração pela frente e viveria em paz, como num conto de fada… a ilusão é uma coisa linda né?
A ideia era tornar a Coreia independente, e em 1945 aconteceu mais uma conferência em Ialta, com o objetivo de assegurar o fim da Segunda Guerra Mundial e repartir territórios em os Aliados, e acabou ficando acertado que a península iria entrar na zona de influência soviética, é claro, se a URSS ajudasse a derrotar o Japão (como se os russos precisassem de mais motivos para derrotar os japoneses).
Então o exército vermelho foi para a Coreia, ocupando boa parte no norte, e parou, ali no paralelo 38, para aguardar a chegada dos norte americanos. Os EUA estavam ressabiados, desconfiados das intenções soviéticas e mandou tropas para a parte sul coreana.
O medo estadunidense era que a URSS quisesse ocupar território mais do que estava acordado entre eles. O Stalin até poderia pensar em pegar mais terras coreanas, mas o russo estava com atenção voltada para o Leste Europeu destruído pós Segunda Guerra Mundial.
Mais uma conferência aconteceu, a de Potsdam, e no meio das pautas, os Aliados acabaram dividindo a península. Os coreanos ficaram indignados, porque depois de vários anos de sofrimento, ia chegar gente de fora, de novo, para decidir coisas e sequer pedir a opinião deles. “Uai, como assim?! Vocês querem mandar no nosso território, dividir e ainda colocar uma parte comunista e a outra capitalista?! Que absurdo é esse?!”, essa foi mais ou menos a linha de pensamento deles (o mineirês é só para dar uma charme a mais).
No ano seguinte a situação coreana não estava das melhores. Greves, revoltas, a situação civil piorava cada vez mais. Mesmo tendo negociações, a situação não se resolveu e os EUA mostraram o cenário para a ONU. E a organização deu sua ideia para tentar resolver a situação: realizar eleições para eleger uma Assembleia Nacional Coreana. Aí foi a vez da URSS ficar indignada. Bateu de frente com a ONU e disse que na sua área não ia ter eleição não e que quem decidia a situação coreana eram o signatários do Acordo do Cairo. Mas tiveram eleições, dos dois lados da Coreia, embora cada uma com seus termos.
Paralelo 38: dividindo terra e política.
A península coreana se tornou oficialmente dois Estados, com dois governos diferentes em 1948. No Norte, se formou a República Popular Democrática da Coreia (só reconhecida pela URSS e satélites),sob o comando do comunista Kim Il-sung, e no Sul se formou a República da Coreia, com Syngman Rhee sendo o presidente.
O governo sul-coreano era anticomunista, então qualquer um que partilhasse desse ideal soviético podia ir embora, por bem ou por mal. Rhee era um cara muito próximo dos ideais estadunidenses e também muito linha dura com quem não tinha a mesma opinião.
Coreanos se rebelando não seria o único problema para Rhee.
Em 1949, a maioria das tropas estadunidenses voltaram para casa, já que os EUA e a Coreia do Sul não acreditavam que a ameaça comunista fosse mais que guerrilhas. E alguém se enganou.
Cruzando a fronteira.
O fato de qual das Coreias ter cruzado o paralelo 38 primeiro é discutido entre autores. Uns acreditam que foram os sul-coreanos que fizeram arte primeiro, enquanto outros acreditam que a atitude veio do Norte. Retalhando ou não, Kim Il-sung ordenou que o exército comunista ocupasse o sul da península. Os sul-coreanos não estavam preparados para o estrago que estava por vir.
Tecnicamente a Guerra da Coreia pode ser dividida em três partes: ataque, contra-ataque e impasse. Na primeira fase foi quando as tropas norte coreanas cruzaram a linha do paralelo 38. O ataque surpresa fez com que quase toda a península coreana ficasse sob o poder de Kim Il-sung. O líder comunista tinha chegado até pedir apoio a Stalin, mas o soviético disse que poderia ajudar na logística, mas não entraria na guerra diretamente.
Com a maior parte do território sob domínio de Kim, a ONU quis dar sua resposta, e assim começaria a segunda parte do conflito: o contra-ataque.
Desembarque capitalista.
A verdade é que os EUA estavam preocupados com o avanço comunista na península e até onde a influência soviética chegaria, mais especificamente se chegaria no Japão. A ideia de Stalin chegando no Japão, de qualquer forma que seja, arrepiava os pelos na nuca dos norte americanos, afinal poderia atrapalhar sua posição no Pacífico.
A ONU também condenava a invasão, e no dia 25 de junho de 1950, foi assinado a Resolução 82, exigindo que os norte coreanos saíssem da parte sul. Como a URSS disse que não ia interferir na guerra coreana, os outros países da ONU assinaram a Resolução 83, que recomendou uma ajuda militar a fim de acabar com o conflito.
Os EUA então mandam, para a península, uma força expedicionária sob o comando do General MacArthur. Sofrendo com ataques e bombardeios, as tropas da Coreia do Norte tiveram que recuar. Entre as batalhas mais famosas, está a de Incheon, que foi um estrago e tanto para os comunistas. A capital Seul agora voltou para o controle da Coreia do Sul.
O general MacArthur, depois de seus grandes feitos, ficou com a autoestima muito alta, e depois de mandar os comunistas de volta para o norte, e foi autorizado a intervir na Coreia do Norte. A China entrou na história, dizendo que ia entrar na guerra se os estadunidenses cruzassem o paralelo 38. Até então só estava ajudando a Coreia do Norte, mas sem declarar guerra, sabe? Mas a ONU fingiu que não escutou e colou os pés no norte.
Lembra que eu disse que a autoestima do general norte americano estava muito alta? Então, ele achou que a guerra estava praticamente ganha e mandou mensagem para Truman, dando a ideia de já que estavam ali, podiam dar uma ida na China para acabar com os inimigos de uma vez só. O presidente dos EUA não aprovou, e o general fingiu que não escutou (na verdade ele não podia ignorar a ordem do presidente, mas ficou contrariado).
Ni-hao (olá em mandarim) para todos.
Enquanto as tropas norte americanas chegavam, a China estava só olhando e desgostando cada vez mais da aproximação ocidental na sua fronteira. Agora sim os chineses entrariam para valer na guerra, e eles estavam ótimos para agirem na surdina. As forças da ONU tentavam atacar os soldados chineses, mas quem disse que conseguiam eles? O exército da China só marchava durante a noite e a camuflagem era top de linha. Não eram os mesmos que bateram de frente com o Japão não.
A URSS apoiava a Coreia do Norte, mas ao mesmo tempo estava evitando entrar em combate direto. Começou mandando mensagem para a China, pedindo o envio de reforço para combater as forças de ONU, e agora eles mesmos entrariam no conflito (não oficialmente, claro). Teve uma série de baixas para todos os lados, mas os chineses conseguiram mandar os EUA e companhia de volta para o outro lado do paralelo.
Começou então a última parte da guerra, o impasse. Ataca de cá. ataca de lá e nada de algum lado avançar. A URSS mandou mais ajuda, os chineses continuaram com problema logístico, e o general MacArthur foi dispensado. Esse comandante já estava achando que tinha mais poder de decisão que o presidente dos EUA, e estava ameaçando destruir a China, caso ela não se rendesse. Até assunto de arma nuclear foi parar nesse papo.
O Truman já era mais pessimista (ou realista?) e estava pendendo mais para um acordo de paz. Mais dois generais passaram pelo comando, sendo eles Ridgway e James Van Fleet. A China tenta atacar, é repelida, tenta de novo e seus planos não dão certo.
Em julho de 1951 começaram as negociações para o armistício, mas a situação ainda continuava feia na guerra. Mas as baixas não “só” entre soldados batalhando nas trincheiras ou sendo bombardeados. A situação humanitárias nas Coreias piorava cada vez mais. Em 1953, os comunistas tentaram um último ataque às forças aliadas, que mais uma vez falhou. Era chegada a hora de acabar com isso.
Trégua sim… paz definitiva não.
Fronteira no paralelo 38 após a Guerra da Coreia. Imagem: BBC
Foram três anos de guerra, com um saldo de três milhões de mortos. No dia 27 de julho de 1953, finalmente foi assinado o armistício entre as duas Coreias. A Guerra da Coreia terminou sem vencedores, com um cessar-fogo imediato. Surgiu então a Zona Desmilitarizada, que vai por toda a fronteira, e que deve ter largura de dois quilômetros para cada lado.
Depois do fim da guerra, os países envolvidos puderam receber de volta os corpos dos combatentes que morreram em solo adversário, na chamada “Operação Glória”. As Coreias até hoje não convivem na santa paz, mas avanços na convivência foram feitos ao longo dos anos.
Foi organizada, em 1953, a Comissão de Supervisão da Neutralidade das Nações, composta pela Suíça, Suécia, Tchecoslováquia e Polônia, que ficam com o cargo de monitorar a zona desmilitarizada e evitar mais conflitos.
Ainda hoje, existem famílias separadas, assim como na Alemanha da Guerra Fria, mas que aos poucos vão retomando contatos, junto com as tentativas de reaproximação entre as Coreias.
Os dois Estados dividindo a península coreana teriam rumos diferentes a partir do fim da Guerra da Coreia, e um deles entraria para a história da Fórmula 1, mas essa história fica para o próximo post, então até lá.