Autor: renatamresende

  • Coreia, História em cinco Atos: Resistência Cultural.

    Coreia, História em cinco Atos: Resistência Cultural.

    Da anexação japonesa até a resistência coreana.

    Soldados da Resistência Coreana em 1907. Imagem: Aventuras na História.

    Por Renata Resende

    Era 22 de agosto de 1910, quando o Império Japonês anexou a Coreia como uma colônia e começou a colocar em prática seus planos de dominação, o que incluía o apagamento da identidade coreana. E ele dominaria a península por anos a fio… até que chegasse o final da Segunda Guerra Mundial em 1945. Mas antes de explorar um pouco sobre esses fatos, que tal continuar a saga pelo final do post anterior, hein?

    Leia também: Coreia, uma história em cinco atos: Antes da Divisão.

    Fazer com que a Coreia assinasse o Tratado de Ganghwa (em inglês), em 1876, foi só o pontapé inicial para a dominação japonesa na península. O que o Japão realmente queria era dominar a China, que era outra das superpotências asiáticas, e os dois países chegaram a entrar em guerra duas vezes, guerras essas conhecidas como Sino-Japonesa.

    A Primeira Guerra Sino-Japonesa aconteceu entre os anos de 1894 e 1895. Pode ter durado “pouco” tempo, mas foi o suficiente para mostrar a superioridade militar do Império Japonês em comparação com a China, que estava enfraquecida pelas Guerras do Ópio. Pode-se dizer que um dos motivos principais para essa guerra foi a disputa pela Coreia? Pode, mas não foi a única razão do conflito.

    O Japão crescia cada vez mais, então automaticamente precisava de mais mercado consumidor, recursos, e claro, a ambição de querer ser o império maioral. Assim, os japoneses viraram para os coreanos e praticamente disseram, “e aí, vamos modernizar por bem ou por mal?”.

    Enquanto dois países disputavam quem mandaria na Coreia, os coreanos viam sua situação piorar cada vez mais. Em 1894, aconteceu a Revolta Camponesa de Donghak (em inglês), e o governo coreano pediu ajuda aos chineses para acabar com a revolta. O Japão olhou para aquela cena indignado, falando que a China violou o Tratado de Tientsin (1885, dizia que os dois países só poderiam colocar tropas na Coreia se avisarem um ao outro primeiro). Isso foi a gota d’água para estourar a guerra.

    O conflito aconteceu no mar e na terra. Mas não foi no território japonês ou chinês que o sangue foi derramado, e sim no coreano. Nas águas, a marinha chinesa, inferior e antiga foi derrotada pela moderna em estratégica frota japonesa. Na terra, o exército chinês estava mal-acabado e parecia não ter lido a Arte da Guerra de Sun Tzu, porque apanhou para as tropas japonesas, que eram disciplinadas e organizadas.

    A brutalidade foi intensa dos dois lados, e o Japão ficou com a reputação manchada perante o mundo. A guerra terminou com a China assinando o Tratado de Shimonoseki, sendo obrigada a: aceitar a humilhação, reconhecer a independência da Coreia, ceder terras ao Japão e pagar uma indenização (que foi ótima para os investimentos japoneses, diga-se de passagem).

    Mas antes do Japão colocar as mãos oficialmente na Coreia, e transformar a península num centro de produção, o país se enfiou em outra guerra, dessa vez contra um europeu, a Rússia. Para quem quiser ler sobre a história russa, pode ver a série de posts quem tem aqui no blog sobre isso, clicando nos links abaixo:

    Leia também: Rússia: da influência Viking até o fim dos czares.

    Leia também: Rússia da século XX: Da foice e do martelo até Putin no poder.

    Leia também: Rússia: fora do asfalto e do gramado mundial.

    Depois de derrotar a China, o Japão achou que o caminho estava livre para colocar as mãos na obra, mas quando foi ver, deu de cara com a Rússia, que queria a mesma coisa coisa que ele. O Império Japonês olhou para os russos, olhou também para os aliados da Rússia, estreitou os olhos e pensou “tá, pera aí, deixa eu pensar direito”.

    Em 1902, o Japão firmou uma aliança com a Inglaterra, que tinha uma cláusula dizendo que em caso de guerra com um outro país, deveria ter auxílio entre eles (isso em caso de força maior). Depois de partir de para cima dos russos, os japoneses acabaram vencendo a Rússia enfraquecida, num conflito que durou 18 meses. Foi então assinado o Tratado de Portsmouth, mediado pelos EUA, com a Rússia cedendo o controle de territórios (Manchúria, Coreia e Port Arthur).

    Enquanto o Japão estava no seu auge, com um exército top de linha e táticas e armamentos adequados, a Rússia não estava dando conta nem dela, que dirá dar conta dos japoneses. E agora sim, chegou a hora tão esperada pelos japoneses e eles já podiam olhar para a Coreia, sorrindo e esfregando as mãos.

    A colonização japonesa.

    Mulheres de Conforto. Imagem: Forbes.

    Como dito anteriormente, antes de anexar a península coreana, o Império Japonês já estava atuando nas terras coreanas. A Imperatriz Myeongseong (명성황후) , principal oponente à influência japonesa, tinha sido assassinada (e sim, teve dedo japonês nessa morte). Seu marido, o Imperador Gojong (고종) mandou representantes para a Holanda, no Congresso da Haia, na tentativa de chamar a atenção do mundo para o que aconteceria na Coreia. Péssima decisão.

    O Japão retaliou com força. Gojong teve que abdicar do trono, o exército coreano foi dissolvido e a pouca autonomia que restava da Coreia foi para o espaço. Até no ensino o Império Japonês interferiu, proibindo o ensino da língua coreana e colocando a língua japonesa como aprendizagem obrigatória.

    Coreanos foram rebatizados, tendo que substituírem seus nomes coreanos por japoneses. O objetivo imperial era claro como água cristalina, apagar qualquer traço da identidade coreana da península.

    Claro, não foi só coisa ruim que o Japão fez na Coreia. Os japoneses desenvolveram uma rede de transportes, fundamentais para a melhoria da infraestrutura coreana. Os sistemas monetário e financeiro também foram reorganizados. Mas essas melhorias era para interesse próprio, pois a Coreia virou nada mais que um centro de produção para o Império Japonês.

    Vale destacar também a situação das coreanas, transformadas em “mulheres de conforto”. Essas mulheres, foram obrigadas a se tornarem escravas sexuais para o império, chegando a serem até enviadas para outros territórios japoneses.

    A vida de todo coreano foi afetada pela dominação japonesa, e muitos chegaram até perderem suas terras, pois não conseguiram registrá-las de acordo com a Lei de Levantamento Fundiária, imposta pelo império, sendo obrigados a venderem seus pedaços de terra a preço de banana.

    Dominada mas resistente.

    No dia primeiro de março de 1919, pouco tempo depois da morte de Gojong, parte dos coreanos foram se manifestar, lutando pela independência coreana na capital Seul. Conhecido como Movimento Primeiro de Março (em coreano), esses manifestantes leram a Declaração da Independência da Coreia. O império não reagiu nada bem com essa luta. Como se diz em Minas Gerais, “o trem foi feio”.

    Esses coreanos foram massacrados. Os que continuaram resistindo sofreram com censura à morte. Igrejas, escolas e prédios foram queimados, milhares de coreanos foram presos ou mortos. Mas a luta não foi em em vão, e um governo provisório foi criado (no exterior, afinal eles não foram doidos de ficarem na Coreia.).

    O Império Japonês até cedeu um pouco, mas estava chegando um outro período que nem se eles quisessem, poderiam deixar de usar seu centro de produção em massa. Logo começaria a Segunda Guerra Mundial.

    O fim de um império.

    Em 1939, começaria uma das guerras mais sangrentas da história mundial (e que com certeza vai aparecer muito aqui no blog). Mas o Império Japonês não entraria logo de início no conflito, afinal ele estaria guerreando de novo com a China, na chamada Segunda Guerra Sino-Japonesa.

    Os chineses já se preparavam para um possível conflito contra o Japão. Em dado momento as duas forças opostas existentes dentro da China se uniram com o único objetivo de enfrentarem seu inimigo histórico.

    Nacionalistas e Comunistas lutaram juntos, deixando de lado as ideologias diferentes, e mesmo se unindo, passaram por grandes dificuldades. Os japoneses já eram brutais em batalhas, agora imagina eles tendo a possibilidade de derrotar de novo, aqueles que os soldados japoneses acreditavam desde cedo que eram inferiores, menos valiosos que porcos.

    O episódio mais marcante da Segunda Guerra Sino-Japonesa foi o Estupro de Naquim. Na batalha de aconteceu na cidade de Nanquim, milhares de chineses foram mortos, sendo eles soldados ou civis, e cerca de 20 mil mulheres foram violentadas, repetidamente, pelo exército japonês.

    Essa guerra contra a China, que tinha começado em 1937 só foi terminar em 1945, junto com o fim da Segunda Guerra Mundial, sendo uma derrota em dose dupla para o Japão.

    Durante sua estadia nas guerras, o império precisava mais que nunca de insumos para se manter. Forçando cada vez mais a produção na Coreia, os japoneses chegaram a enviar coreanos para fábricas, instalações e até para servir nas tropas japonesas. Os homens eram mandados para os campos de batalha, as mulheres eram enviadas para os acampamentos, obrigadas a servirem aos japoneses.

    A tentativa de apagar a cultura coreana foi ainda mais intensificada, o Hangul sendo proibido, o Xintoísmo sendo imposto. Mas os coreanos resistiram firmemente, até que chegou 1945 com a libertação do povo coreano.

    O Japão só foi entrar na Segunda Guerra Mundial em 1941, e fez questão de “chegar chegando” quando atacou Pearl Harbor, uma base estadunidense no pacífico, e claro que haveria retaliação, que por sinal surpreenderia o mundo inteiro.

    No dia 7 de maio 1945 (embora a rendição tenha entrado em vigor um dia depois), a Alemanha não aguentava mais e se rendeu aos Aliados, mas ainda não seria o fim da guerra. O Império Japonês estava com sua autoestima lá acima das nuvens, e com seu orgulho, se recusava a ceder, e fazia várias propagandas em seu território, dizendo que o povo japonês era invencível. O clima no país durante e após guerra é relatado por Takashi Morita, um sobrevivente da guerra, no seu livro A Última Mensagem de Hiroshima.

    Morita relata como foi sua vida até o evento fatídico de Hiroshima, como sobreviveu, a cena que viu e como esse momento afetou sua vida e de todos os sobreviventes. O evento em questão foi o lançamento da Little Boy, nome da bomba atômica lançada pelos EUA em Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945, para que o Japão se rendesse.

    O orgulho japonês era tão grande que eles se recusavam a abaixarem a guarda, e mesmo com a destruição de Hiroshima, causada pela bomba, o Japão se recusava à rendição. O Império achava que os EUA só tinham uma bomba atômica, que os estadunidenses já não tinham mais nenhuma carta na manga. Ledo engano.

    Em 9 de agosto de 1945, foi lançada mais uma bomba, a Fat Man, que faria outro estrago no Japão, dessa vez na cidade de Nagasaki. O estrago foi tanto, que o imperador Hirohito se rendeu no dia 15 e finalmente chegou o fim da Segunda Guerra Mundial, oficialmente em setembro.

    O Governo Provisório Coreano, aproveitando a fragilidade de seu dominador, ressurgiu e declarou guerra ao Império Japonês. se juntando aos Aliados, o Exército de Restauração Coreano lutaram na China, se opondo aos japoneses.

    Com tantos eventos marcantes acontecendo em 1945, talvez o mais importante para a Coreia, seria a sua libertação e independência. Mal imaginavam os coreanos o que ainda viria pela frente, mas isso fica para o próximo post.

  • Coreia: Uma história em cinco atos: Antes da Divisão.

    Coreia: Uma história em cinco atos: Antes da Divisão.

    Dos Três Reinos até o fim das dinastias.

    Guerreiros Goguryeo/ Imagem: History Maps.

    Por Renata Resende

    Berço de uma das culturas mais famosas da Ásia, a Coreia do Sul chegou até ser palco da Fórmula 1. Mas antes de ser o que conhecemos hoje, a Coreia do Sul passou por um longo processo histórico, que vem desde a pré-história, reinos, unificação e até a divisão da península. E é sobre a história coreana que vamos ver no post de hoje.

    Da Pré-história aos Reinados.

    Em milênios antes de Cristo, a península coreana já deixava vestígios da rica cultura que teria hoje. Com monumentos, tumbas e cerâmicas, os antepassados coreanos foram deixando sua marca, preparando o terreno para a vinda de descendentes.

    Quando começou a era dos reinados, ou como são conhecidos “Os Três Reinos”, eles disputavam entre si pelo controle da península, expandiam o território, e até faziam alianças com estrangeiros.

    A Coreia também teve forte influência da China, politica e culturalmente, principalmente quando o Reino Silla (신라) se aliou aos chineses para derrotar o Reino Goguryeo (고구려). Mas antes de ver os conflitos entre eles, nada melhor que ver um pouco mais sobre cada Reino coreano.

    Pintura da época Goguryeo. Imagem: Centro Cultural Coreano no Brasil.

    O Goguryeo foi o reino que o Budismo se destacou como religião oficial. Fundado por Jumong (주몽), teve seu ápice quando expandiu o território coreano, chegando até pegar um pedaço da atual Rússia. Embora tenha tido seus anos de prosperidade, tenha subjugado o Reino Silla e vencido na guerra Goguryeo-Sui, depois de um tempo essa dinastia foi enfraquecida.

    Outro desses reinos é o Balhae (발해) que, por sua vez, anexou algumas províncias e era importante na sua região, tanto politica quanto militarmente. Nos conflitos, chegou a bater de frente tanto com o Reino Gogureyo quanto com colônias chinesas próximas. Seu ápice foi quando conquistou boa parte da península centralizou o governo. Esse Reino era tão importante que chegou a disseminar o budismo pela Ásia oriental e levou sua cultura coreana até os japoneses.

    O Reino Silla se aliou aos chineses da dinastia Tang, e essa aliança foi fundamental para derrotar Goguryeo e Balhe (anos depois Silla iria entrar em conflito com os Tang também). Governando por 200 anos, Silla unificou a Coreia e tornou-se um Estado tributário da China.

    O declínio desse reino foi lento, com revoltas e instabilidade política, mas foi o suficiente para a formação de um novo reino, o chamado Reino Goryeo (em inglês).

    Nesse reino, se destacam alguns acontecimentos como o golpe militar que tirou a nobreza do poder e colocou no seu lugar, um regime militar que durou 60 anos. O budismo entrou em ascensão, com sua fé influenciando na literatura, na arte e na ciência. E claro, não dá para ficar de fora a invasão Mongol sobre a Coreia… sim, os mesmos que colocaram seus pés na Hungria. (Os Mongóis merecem um post a parte né?)

    Leia também: Hungria: uma viagem na história até Hungaroring.

    Foram décadas de lutas, e o Reino Goryeo acabou se aliando aos seus invasores, mas conseguindo manter a sua cultura.

    Em 1392, começou a última dinastia da história coreana. Com apoio chinês, mais especificamente Ming, o general Yi Songgye tomou o poder e deu início a dinastia Yi. A Coreia era fortemente influenciada tanto política pela cultura chinesa. Seul se tornaria sua nova capital e até a religião oficial foi trocada, quando o budismo foi proibido e o Confucionismo entrou no lugar.

    A Coreia se tornaria um centro do saber, com criações como a técnica de impressão por xilogravura. Mas o destaque mesmo fica com o alfabeto promulgado. O Hangul começaria oficialmente, mas eles não imaginavam quantos estrangeiros do século XXI estariam loucos para aprender o idioma coreano, influenciados principalmente pela música e doramas.

    No final do século XV, o cenário começaria a mudar. A administração começa a enfraquecer, e os japoneses tentam invadir a península, pois queriam chegar na China. Foram seis anos de lutas contra samurais e boa parte da Coreia é devastada. O Japão falha no seu objetivo, pois não conseguiram vencer os navios tartarugas coreanos. Mesmo saindo vitoriosa, a Coreia acabou seguindo o destino da China um tempo depois.

    No século XIX, a China não estava no seu melhor momento. Enfrentando rebeliões internas, dificuldades econômicas e até pressão do ocidente, os chineses mal conseguiam se proteger, imagina proteger outros Estados que estivem sob sua influência. Com China e Coreia enfraquecidas, chegou o momento que o Império Japonês queria para concretizar seu plano de dominar o mundo…(tá, os planos eram dominar pelo menos a Ásia).

    Se o Japão conseguisse a Coreia, ele conseguiria um ponto estratégico importante para se defender de futuras ameaças vindas do continente asiático. Pensando nisso, pressionou a Coreia para assinar o Tratado de Ganghwa, e assim a península foi obrigada abrir seu portos de comércio para o Japão e os japoneses receberem direitos extraterritoriais.

    Esse foi só o começo da derrocada temporária da Coreia, que se tornava por agora, um Estado independente… Esperem que vem ainda vem a parte 2.

  • Rússia: fora do asfalto e do gramado mundial.

    Rússia: fora do asfalto e do gramado mundial.

    País que sediou a Fórmula 1 e a Copa do Mundo, a Rússia hoje se encontra suspensa dos principais eventos esportivos mundiais.

    Grande Prêmio da Rússia. Imagem: F1.

    Por Renata Resende

    Durante oito temporadas, a Rússia fez parte do calendário da Fórmula 1, sediando em Sochi, mas o circuito ali presente não agradava tanto o público. A ideia era mudar a sede do GP, levando para o circuito de Igora Drive, em São Petersburgo em 2023, mas os planos foram cancelados um ano antes da transferência, quando começou a guerra.

    O ato de invadir Ucrânia desagradou o mundo, e uma das decisões contra a Rússia foi excluir o país, temporariamente, de eventos esportivos mundiais, como a Fórmula 1 e a Copa do Mundo.

    Início de um sonho, na prática nem tanto.

    Levar a F1 para a Rússia era uma ambição de Bernie Ecclestone, o então dono da categoria. Na verdade, seu desejo era levar o campeonato para a Rússia e para Nova York, e ele conseguiu apoio de Vladimir Putin para esse feito.

    Leia também: A Rússia do século XX: Da foice e do martelo até Putin no poder.

    Usando o parque olímpico, onde recebeu as Olimpíadas de Inverno de 2014, como cenário de construção, Hermann Tilke arquitetou o traçado do circuito.  Mas desde quando estreou no calendário, Sochi nunca tinha se tornado um dos GPs mais esperados pelos fãs.

    O circuito com curvas de 90 graus, não dava chance para muitas ultrapassagens, e o fato de só a Mercedes ter ganhado em todas as provas desde o primeiro GP russo, era só mais um ponto que desagradou do público. Era a chance de Putin levar o evento para sua cidade natal.

    Autódromo de Igora Drive, em São Petersburgo. Imagem: Ge Globo.

    Nascido em São Petersburgo, uma das cidades mais famosas da Rússia, o presidente tinha interesse em mudar a etapa de circuito e o governo russo fez uma pressão para que a etapa da F1 saísse de Sochi e fosse para São Petersburgo. Já em 2021, o anúncio foi feito e a partir de 2023, o GP da Rússia aconteceria em Igora Drive… até a guerra começar em 2022.

    Dias após a invasão russa sobre seu país vizinho, a FIA lançou um comunicado (em inglês), dizendo que a Rússia não iria sediar esportes automotivos por tempo indeterminado, incluindo a Fórmula 1. Decisão essa, apoiada por alguns pilotos da categoria de elite.

    Sebastian Vettel, que na época pilotava pela Aston Martin, já tinha afirmado que, havendo ou não o Grande Prêmio de Sochi, ele não iri participar da prova, se firmando contra a ação russa. A decisão também foi seguida pela McLaren.

    A equipe papaya tinha tido uma prova ruim na etapa russa de 2022 no país. Lando Norris estava liderando a corrida, mas por uma decisão ruim, de continuar com os pneus slick mesmo sob a chuva torrencial, Norris acabou derrapando na prova e entregando a liderança para Lewis Hamilton.

    Nessa mesma etapa, Hamilton conquistou sua centésima vitória na categoria, pela Mercedes. Vale lembrar que a equipe alemã tinha vencido todos os Grandes Prêmios da Rússia desde a estreia do país no calendário em 2014.

    Na época, a promotora do GP russo, Rosgonki, se pronunciou (em inglês), pedindo aos fãs que tinham comprado o ingresso não fazerem o reembolso ainda pois ainda havia esperança da corrida acontecer normalmente.

    Além da corrida ser cancelada, a Haas, equipe estadunidense também se posicionou na questão. Tirando as cores da bandeira russa do seu carro ainda na pré-temporada, quando rescindiu o contrato com a Uralkali (patrocinadora da equipe), e também encerrou o contrato com o piloto russo, Nikita Mazepin.

    Mas não seria só o asfalto que fecharia as portas para os russos. Nos gramados, a Rússia deixaria de ser bem vinda.

    Cartão vermelho para os russos.

    Seleção Russa em campo. Imagem: Band.

    Em 2022 também foi o ano de mais uma Copa do Mundo, e a Rússia enfrentaria um rival histórico nas eliminatórias da Copa, a Polônia.

    Os poloneses estavam indignados com seus rivais e decidiram não se dar o trabalho de lidar com eles no gramado mundial. A Seleção Polonesa se recusou a jogar com a russa nas repescagens (em inglês), mas conseguiu uma vaga direta para a final das eliminatórias, onde enfrentaria a Suécia.

    A Rússia, por outro lado, foi suspensa pela FIFA, indo do céu ao inferno, já que enquanto quatro anos antes sediava o maior evento mundial do futebol, agora estava sendo eliminada antes mesmo de participar da Copa.

    Em conjunto com a FIFA, a UEFA (Union of European Football Associations) também decidiu barrar a participação de times russos de  competições europeias, como na Champions League.

    Virando pesadelo.

    A ideia que a Rússia tinha em mente era ampliar sua participação no esporte mundial, mas seus planos foram por água abaixo em poucos anos, quando perdeu a chance de participar deles. Mas quem sabe num futuro próximo o país volte com tudo no cenário esportivo mundial, não é mesmo?

  • A Rússia do século XX: Da foice e do martelo até Putin no poder.

    A Rússia do século XX: Da foice e do martelo até Putin no poder.

    Passando pela queda da Dinastia Romanov e pelo Bloco Soviético, a história russa passou por revoluções, ideologias e transformações que ajudaram a moldar o mundo atual.

    O Domingo Sangrento. Imagem: DW.com

    Por Renata Resende

    Chega o século XX, e o mundo passa por transformações que deixariam pessoas, dos séculos anteriores, de queixo caído. E na Rússia não foi diferente. O país de maioria eslava passaria por mudanças que deixariam os varegues chocados. Um fim de czarado, revoluções estourando, territórios explorados que passavam até do limite do céu, e uma ideologia que interferiria do mundo inteiro. Mal sabia o czar Nicolau II o que ainda viria pela frente.

    Leia também: Rússia: da influência viking até o fim dos czares.

    O império cai.

    Czar Nicolau II. Imagem: O Globo.

    Quando Nicolau II assumiu o poder, decidiu fazer um luxuoso banquete para festejar sua coroação, mas essa ostentação não poderia ter vindo em um momento pior. Fora do palácio, os camponeses passavam fome, greves eram instauradas, a situação do país decaia cada vez mais. Poucos anos depois aconteceu uma manifestação, que começou pacífica, se tornou cena de um dos piores episódios da história russa, conhecido com o Domingo Sangrento (em inglês).

    Liderada pelo padre Georgy Gapon, o povo russo iniciou uma manifestação pacífica, desejando entregar ao czar mudanças que iriam melhorar a qualidade de vida deles. Sem violência, os russos carregavam itens religiosos e retratos de Nicolau, junto com as petições. Porém, ao chegarem no Palácio de Inverno, o sonho virou um pesadelo. O czar não se encontrava no palácio, e a força armada massacrou os manifestantes.

    A crise piorou, não importava a classe social, muitos já não queriam mais aquele governo desastroso. Revoltas estudantis, greves e alguns cidadãos até partiam para o terrorismo. A situação ficou tão feia, que aconteceram motins até dentro da força militar, apoiando a luta, conhecida como a Revolução de 1905 (em inglês).

    Sob coação, o czar fez promessas ao povo. Criou uma assembleia, a Duma, e disse que nenhuma lei entraria em vigor sem a aprovação da Duma. Mas o que ele realmente queria era seguir outros planos.

    Assim que a poeira baixou, Nicolau foi a fundo para recuperar seus poderes de autocrata. Aproveitando o momento, ele financiou a União do Povo Russo, uma organização de extrema direita, que disseminava até o antissemitismo no meio do povo.

    Guerra no mundo, revolução na Rússia.

    Quando a Primeira Guerra Mundial começou, a Rússia entrou no conflito não porque tinha sido atacada diretamente por alguma das potências centrais, mas sim dizendo apoiar sua aliada, a Sérvia. O czar decidiu fazer do limão uma limonada e usar o conflito para fortalecer o Estado, inflando o povo com um ideal nacionalista. Só não equipou o exército russo direito para as trincheiras.

    Com armamento e vestimentas defasadas, os russos foram para o campo de batalha, sofrendo mais do que outros soldados, que tinham um equipamento melhor. Para piorar (se é que dava), Nicolau achou que seria uma boa ideia ir pessoalmente assumir o comando militar, e deixar um buraco na administração do país. Além disso, a czarina Alexandra ficou sob mais influência de Rasputin, um curandeiro famoso que conquistou a confiança da família Romanov por ter ajudado o herdeiro do czar.

    Enquanto na guerra, soldados russos faziam o que podiam para lutar, no restante do território russo a crise piorava cada vez mais. A inflação subia e a população mal conseguia comprar o pão para sobreviver. Aconteceu então a Revolução de 1917, com greves e protestos em Petrogrado e grupos, como um de mulheres russas e até força militar aderiu, derrubando o poder aristocrático do czar.

    Nicolau não teve outra opção a não ser renunciar seu posto, e foi detido junto com sua família. Um governo provisório começa, mas a Rússia ainda não sai da guerra. A Alemanha, vendo toda a situação russa, decide colocar mais lenha na fogueira e facilita a volta de Vladimir Lenin para a Rússia, querendo que a instabilidade no país aumentasse e ele saísse do seu caminho.

    Agora sim os russos sairiam da guerra e, algum tempo depois, começaria uma mudança de sistema no país, começando uma União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

    O martelo e a foice.

    A bandeira do partido comunista sendo exibida. Imagem: CNN

    Inspirados pela ideologia de Karl Marx, Lenin e seus apoiadores começariam um novo regime no território multiétnico. Uma nova política econômica (NEP) (em inglês) tinha entrado em vigor antes da formação do bloco soviético e a Rússia estava conseguindo se recuperar economicamente. Mas ainda tinha problemas para resolver naquelas terras.

    A elite que apoiava o czarado não estava feliz com a situação e decidiu revidar, ou pelo menos tentar. Se o exército comunista seria conhecido como Exército Vermelho, os aristocratas, junto qualquer um que fosse antibolchevique (ou anticomunista), viriam com o Exército Branco.

    Junto com os nomes das armadas, começam também dois terrores, o Terror Branco e o Terror Vermelho, os nomes seguindo a lógica dos guerrilheiros. E quem levaria a pior continuaria a ser a população.

    Quando Lenin morre, o Partido Comunista chega a ser dividido, pois Josef Stalin e Leon Trotsky tinham ideias diferentes entre si, e só participavam do mesmo partido por causa de Lenin, chegando a se tornarem adversários políticos. Mas Stalin foi consolidando seu poder, e começaria com o governo que estudiosos chamam de “Stalinista”.

    De volta aos conflitos mundiais.

    Em 1939 começa o conflito mundial mais sangrento da história (até hoje), conhecido como a Segunda Guerra Mundial. Agora como URSS, o país entra como um importante fator para a derrota da Alemanha Nazista. Mas Stalin não começou na guerra como um inimigo declarado de Hitler.

    Antes de invadir a Polônia, a Alemanha e a URSS entram com um Tratado de Não Agressão, mas com uma entrelinha que só foi ser divulgada ao mundo anos depois. Com o Pacto Molotov-Ribbentrop, eles tinham a ideia era dividir o território polonês, mas não invadindo juntos o território pra não dar bandeira para o mundo.

    Hitler então invade a Polônia, e um tempo depois Stalin toma a outra parte do que era território de um país independente.

    Mais tarde, após ver sua tentativa de invasão a  Grã-Bretanha fracassar, já que os britânicos eram superiores do meio aéreo, o comandante alemão voltou seus olhos para a URSS e decidiu tentar tomar o território soviético. Assim como aconteceu com Napoleão, o Reich alemão também perdeu (os detalhes do acontecimento ficam para outra hora).

    A Segunda Grande Guerra acaba e a Europa fica em frangalhos. Os EUA e a URSS começam a ajudar a reconstruir o continente europeu, ao mesmo tempo que começam uma queda de braço para ver quem é mais forte. E começa a Guerra Fria.

    A URSS tenta espalhar o modelo comunista o tanto quanto pode, enquanto bate de frente com o sistema capitalista estadunidense. Enquanto essa guerra ideológica acontece, grandes avanços vão acontecendo principalmente na tecnologia e nos armamentos de batalha, mas os dois países nunca entraram definitivamente em guerra entre si.

    A URSS avançou, mas chegou uma hora que não deu conta de manter mais seu poder, e o governo soviético foi se desfazendo. Com o passar do tempo, nem abrindo sua economia para o mundo ou cedendo para o fim da censura, através de políticas como a Perestroika e da Glasnost, o território soviético conseguiu se manter por muito tempo.

    Quando o Pacto de Varsóvia é desfeito, em 1991, vários países são formados, e outros Estados, como a Hungria, voltam ter autonomia sobre si.

    Leia também: Hungaring: quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

    Fim de uma era.

    Em 1989 aconteceu uma das cenas mais memoráveis da história mundial. Sob um discurso confuso do dirigente da Alemanha Oriental, Günter Schabowski, o povo alemão, dividido entre oriental e ocidental, vai para as ruas de Berlim. O Muro que dividia a capital alemã deixaria de existir, e os alemães finalmente se reuniriam em uma só nação.

    Famílias e amigos, separados contra a vontade por uma guerra de ideologias entre dois países poderosos, finalmente iriam se encontrar, se abraçar, matar a saudade uns dos outros. Mais uma pá de cimento sobre o bloco socialista.

    Dois anos depois a URSS acabaria oficialmente, e vários novos países seriam formados. Voltando a ser Rússia, o país poderia estar fraco, mas não deixaria de ser a influência que tanto teve.

    Após o fim do bloco, aconteceu a primeira eleição, para eleger o presidente, de toda a história russa. Comandando a federação na transição entre socialismo e capitalismo, Boris Yelstin renuncia oito anos após sua eleição. Vladimir Putin foi o segundo presidente a ser eleito, chegando a ser reeleito em 2004, 2012, 2018 e 2024, quando provavelmente ficará no poder até 2030.

    Decisões geram consequências.

    Haas rescinde o contrato com Nikita Mazepin após a invasão da Ucrânia. Imagem: Team- BHP

    Dando um pulo no tempo, em 2022 a Rússia, sob o comando de Vladimir Putin, decide partir para cima da Ucrânia, sob algumas justificativas, como tentar desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia, entre outros motivos. Os ucranianos, por sua vez, não abaixam a cabeça e enfrentam com tudo de podem.

    Grande parte do mundo ficou indignado com uma situação dessas. E os russos não ficaram ilesos. A guerra dura até hoje (2026), e a Rússia sofreu várias sanções, principalmente econômicas.

    E uma das consequências dessa atitude foi a eliminação do país de dois dos principais eventos mundiais esportivos, a Copa do Mundo e a Fórmula 1.

    Na Copa do Mundo de 2022, alguns países chegaram a se recusar a jogar contra a Seleção russa nas eliminatórias. A Polônia foi um desses. Com rivalidade histórica, os poloneses se recusaram a disputar nas vagas de repescagem, e a FIFA deu uma vaga direta a Seleção Polonesa na final da repescagem.

    Na Fórmula 1, não só o Circuito de Sochi foi tirado do calendário, como a carreira de Nikita Mazepin também afetada. O russo pilotava pela Haas na época do começo da guerra, e teve o contrato rescidido.

    Mesmo depois de anos da queda dos Romanov, a Rússia nunca deixou ser um país importante no cenário mundial. Entrando e saindo de conflitos, a história mundial e a geopolítica estão sendo sempre influenciada pelos russos.

  • Rússia: da influência Viking até o fim dos czares.

    Rússia: da influência Viking até o fim dos czares.

    Viajando pela história da Rússia, da chegada dos varegues até o declínio da Dinastia Romanov.

    Por Renata Resende

    Catedral de Aleksandr Niévski (Novoiarmorotchni), Níjni Nôvgorod. Imagem: Janela para a Rússia.

    Considerado um dos países mais imponentes do mundo, a Rússia tem um histórico marcante no esporte mundial, seja no asfalto da Fórmula 1 ou nos gramados da Copa do Mundo. Atualmente, devido a algumas decisões controvérsias tomadas pelo governo russo, como invadir a Ucrânia, o país foi excluído desses eventos internacionais. Mas antes de chegar no momento de sua eliminação no esporte mundial, vale lembrar como a Rússia chegou nesse ponto atual.

    Migrações, o povo eslavo e o futuro Império.

    Rurique, o lendário fundador da Rus de Kiev. Imagem: Russia Beyond BR.

    Séculos antes de Cristo, vários povos já migravam de um lado para o outro, deixavam vestígios e suas tribos por vezes se enfrentavam em vários territórios do mundo, e na Rússia não foi diferente. Tribos guerreiras como Ávaros, Protobúlgaros, Cazares (origem turca) e os Hunos (que quase acabaram com a raça do império romano) foram passando por aquelas terras, até que os eslavos chegassem e formassem a base da população russa moderna.

    Vindos do leste, os eslavos começaram a se movimentar, partindo de Kiev e Polócia para outras partes daquelas terras. E é em Kiev que começa oficialmente as histórias da Rússia, Ucrânia e Belarus, e hoje é a atual capital da Ucrânia.

    De acordo com a Crônica Primária (em inglês), livro que conta a história da Rússia de Kiev, ou Rus de Kiev, um povo conhecido como Varegues (vindos do mar Báltico), sob a liderança de Rurique e seus sucessores, conquistaram Kiev, fundou a Rus de Kiev e expandiram seu território, subjugando povos que viviam a leste de Kiev. Chegando a destruir o Império Cazar enviaram expedições militares sobre a Pérsia e o Império Bizantino. Então começaria o que seria conhecido como a “Era de Ouro de Kiev”.

    A partir daí, eles assimilaram o Cristianismo Ortodoxo (vindo dos bizantinos) e criaram o primeiro código legal escrito, o Russkaia Pravda. Mas a felicidade não durou muito, e tribos turcas nômades logo chegariam e fariam que os eslavos procurassem terras mais seguras para viver. Logo chegaria também os chamados “Tempos difíceis” nas terras russas, com invasões, fome e peste devastando o território.

    A Dinastia de Ruríque caiu em decadência, o domínio de Kiev entra e declínio, e mais povos vão invadindo a antiga Rússia. Mongóis chegaram, espalhando o terror, e junto com seus súditos turcos, invadiram a Rus de Kiev e pilharam os principados russos. Começou então o Canato da Horda Dourada, chegando a ficar no comando por mais de dois séculos. Mas além de Rus de Kiev, outro lugar também entrou para história da fundação da Rússia, a Novogárdia.

    A Novogárdia, ou Novgorod, foi uma das poucas cidades a serem poupadas do massacre dos mongóis. Os novogárdios( que tinha uma grande influência viking) liderados por Alexandre Nevski, repeliram guerreiros que tentavam invadir suas terras, na Batalha de Neva (contra o suecos) e na Batalha do Lago do Pelpus (contra os germânicos). A cidade só foi perder sua autonomia e ser anexada na Rus, quando derrotada para Moscou, ou Moscóvia.

    Moscóvia era o estado mais poderoso da Rus de Kiev, e ali iniciou o Grão-Ducado de Moscou, tendo como primeiro Grão-Duque, Ivã III, que se livrou do Canato da Horda Dourada. Além de recuperar o poder sobre o território russo, ainda foi expandindo o território. A Moscóvia reivindicou a sucessão sobre o caído Império Bizantino. Ivã chegou a se casar com Sofia Paléologa, sobrinha do último imperador bizantino, e tornou a águia bicéfala como seu brasão.

    Foi o neto de Ivã III, que teve o título de primeira Czar (“César”) da história russa. Entre os feitos de Ivã IV estão, estabelecer um novo código de leis, criar o primeiro órgão representativo na Rússia feudal e quase dobrar o território durante seu czarado. Um tempo depois, já numa má fase, e conquistando o título de “O Terrível”, Ivã enfrentou uma coalização entre poloneses, lituanos e suecos, com o objetivo de conseguir acesso ao mar Báltico e ao comércio marítimo. A derrota foi iminente.

    Além da Guerra da Livônia, os otomanos, junto com crimeanos, invadem e queimam partes de Moscou, mas os russos conseguem vencer. A Dinastia Ruríquida termina, quando morrem os filhos de Ivã, e junto com a fome que assola a Rússia, começa uma guerra civil. Partes do território russo é tomado pela comunidade Polaco-Lituana. A situação só começa a melhorar quando voluntários russos expulsam os poloneses e a Dinastia Romanov sobe ao comando.

    Entre os nomes mais famosos dos Romanov, se destaca Pedro, O Grande. O governante transformou a Rússia numa potência mundial reconhecida. Derrotou os suecos, fundou São Petersburgo e trouxe influências da Europa Ocidental para o Estado russo. Seu neto, também chamado Pedro, se casou com Catarina, e levou uma rasteira da própria esposa. Mas Catarina também fez seu nome na história russa.

    Coroação da Imperatriz Catarina II. Imagem: National Geographic Portugal.

    Além de continuar o trabalho de Pedro I, Catarina (em inglês) investiu afundo no território, criando cidades, expandindo o comércio e desenvolvendo a comunicação. Mas nem só de louros foi o governo dela. Mesmo sendo amiga de Voltaire e adepta às ideias iluministas, a imperatriz agiu diferente na prática, chegando a piorar a vida dos camponeses. Outro feito de Catarina foi participar da Partilha da Polônia, apagando o Estado temporariamente do mapa, dividindo seu território entre Rússia, Prússia e Áustria.

    Após a morte da imperatriz, seu filho Paulo assumiu o poder, mas foi Alexandre que se destacou no comando do império russo. Neto favorito de Catarina, era o czar quando Napoleão decidiu atacar a Rússia. O exército francês chegou a tomar Moscou, mas além do frio e da fome, a estratégia de recuo russo, a destruição de recursos e a logística ruim, o fez recuar. Napoleão Bonaparte, que vinha conquistando territórios para seu Império, sofreu essa derrota que não só acabou com sua carreira militar como também o humilhou.

    Ao longo do século 19 mais eventos foram acontecendo pela Rússia, com destaque para o governo do czar Nicolau I. Dentro das possibilidades da época, e sem bater de frente com os elitistas, Nicolau melhorou a qualidade de vida dos servos russos. Foram criados escolas e institutos a fim de especializar o comércio, a engenharia e a silvicultura. Surgiram também as ferrovias pelo país, mas o sistema ferroviário não ficou adequado o suficiente.

    Outro destaque fica para a guerra da Crimeia, na qual os russos enfrentaram uma coalizão entre britânicos, franceses e turcos. A Rússia sofreu severas perdas nessas batalhas e se retirou oficialmente da guerra, quando Alexandre II assume o czarado, após a morte de seu pai Nicolau I. O czar Alexandre II também ficou conhecido como “O Libertador” pois enfrentou a nobreza, libertou os servos e cedeu empréstimos para que eles pudessem comprar terras. Agora os camponeses eram livres, mas presos na dívida do empréstimo.

    Quando Alexandre II foi assassinado por revolucionários, seu filho assume como czar Alexandre III. Esse governante por sua vez era conhecido como um pacificador, não se envolvendo em guerras. Foi ele que quis disseminar a língua russa por todo o território. Após sua morte, seu herdeiro assume, e ele seria o último czar da história russa. Nicolau II, com uma coroação já impactando negativamente no país, e com um governo que causaria mudanças radicais em toda Rússia, mas isso é história pro próximo post. Até lá!

    Leia também: Hungria: uma viagem na história até Hungaroring.

  • Hungria: dos gramados da Copa do Mundo até o asfalto na Fórmula 1.

    Hungria: dos gramados da Copa do Mundo até o asfalto na Fórmula 1.

    Antes de sediar a Fórmula 1, a Hungria já fazia história no esporte mundial, proporcionando momentos incríveis para o mundo do futebol.

    Por Renata Resende

    Alemanha Ocidental e Hungria. Imagem: GE.Globo

    Destaque na história da Copa do Mundo por seus feitos impressionantes, a Seleção Húngara tem passado por altos e baixos, não conseguindo se classificar no torneio internacional desde 1986. Coincidência ou não, no mesmo ano em que deixava temporariamente a Copa do Mundo, sendo eliminada ainda na fase de grupos, estrearia em outro evento esportivo mundial, a Fórmula 1.

    O começo húngaro no gramado mundial.

    Em 1930 aconteceu a primeira das muitas edições da Copa do Mundo, com sede no Uruguai. E foi ali, nas terras uruguaias que o primeiro campeão foi consagrado. Com apenas 13 seleções disputando, a final foi entre dois vizinhos sul-americanos. Argentina e Uruguai se enfrentaram, com a seleção uruguaia fazendo a festa nas próprias terras. Mas a Hungria só entraria para a competição na sua segunda edição.

    Quatro anos após a primeira edição, a Hungria estreou num duelo contra o Egito, ganhando de 4 a 2 e conseguiu se classificar para as quartas, quando enfrentaria a outra metade do seu antigo império, a Áustria. Ali nas terras italianas, a Áustria levou a melhor, mas perdeu na semifinal para a dona da casa. Na própria capital, a Itália conquistaria a primeira de suas quatro estrelas da camisa.

    É Magyares na final!

    Seleção de Ouro da Hungria. Imagem: Imortais do Futebol.

    Na terceira edição da Copa do Mundo, a Hungria teria um de seus melhores resultados. Seu primeiro duelo seria contra a Indonésia, em que venceu e os húngaros fizeram a festa, já se preparando para a próxima fase, quando enfrentariam a Suíça.

    Passando pelos suíços, que não fizeram nenhum gol, a Hungria iria enfrentar a Suécia na semifinal. Pela primeira vez na sua história, eles chegaram à final do torneio, mas perderam o título para a Itália. Em 1954, a Hungria voltaria a enfrentar uma final, dessa vez com sua Seleção de Ouro.

    Ídolo do futebol húngaro, Ferenc Puskás liderava o time pelos gramados suíços. Batendo recordes nas goleadas contra a Coreia do Sul (9 a 0) e contra a Alemanha Ocidental (8 a 3), a Hungria foi apontada como uma das favoritas para ganhar a Copa de 54. Passando fase por fase, os “Magiares Mágicos” eliminaram, respectivamente, o Brasil e o Uruguai, antes de partirem para mais uma final.

    Com um gol de Puskás e outro de Czibor, a Hungria começou vencendo os alemães ocidentais, dando a impressão que a taça seria deles. Mas os alemães não abaixaram a cabeça. Morlok começou a dar esperança para a Seleção da Alemanha Ocidental, e Rahn empatou e virou o jogo. O jogo terminou com o placar Hungria 2 x 3 Alemanha Ocidental, entrando para a história como o “Milagre de Berna”. Infelizmente para os húngaros, esse foi o último melhor resultado para eles nas Copas do Mundo.

    A derrocada dos Magyares.

    Em 1958, a Hungria tentou retornar com tudo para a Copa do Mundo, mas foi eliminada ainda na fase de grupos, empatando apenas em um jogo contra o País de Gales, e sendo derrotada nos outros jogos do grupo.

    Em 1962, chegou nas quartas de final, mas perdeu para a antiga Tchecoslováquia. Quatro anos depois, os húngaros seriam eliminados de novo na mesma fase, mas dessa vez perdendo para a União Soviética. Depois disso, a Hungria só participaria de mais três edições das Copas, em 1978, 1982 e 1986, sendo eliminada na fase de grupos. Após 1986, a Seleção Húngara não conseguiu mais se classificar para o torneio mundial (até 2026).

    O futebol húngaro e a Revolução de 1956.

    Na década de 50, os húngaros se encontravam insatisfeitos com o atual regime comunista no país, e decidiram começar uma revolução. Infelizmente o resultado foi ruim para o país, já que a União Soviética massacrou a revolta. Foi nesse conflito que alguns jogadores, da Seleção de Ouro húngara, decidiram sair do país e continuar a jogar futebol em outros países, como o próprio Puskás, que migrou para a Espanha, chegando a jogar pelo Real Madrid e pela Seleção Espanhola.

    Puskás chegou a ser motivo de vergonha para os húngaros por causa dessa saída, sendo considerado um traidor, mas hoje ele é considerado o ídolo do país, assim como Pelé para o Brasil e Maradona para a Argentina. A contribuição dele para o futebol nacional e internacional foi tão grande, que tem estádio com seu nome na Hungria e a FIFA criou o Prêmio Puskás, para eleger o gol mais bonito do ano.

    Torcedores polêmicos.

    A torcida húngara, principalmente a “Carpathian Brigade”, esteve envolvido em polêmicas como racismo e homofobia, contra jogadores de outras seleções, como os ingleses. Na disputa entre Hungria e Inglaterra, alguns torcedores húngaros foram acusados de proferir insultos de cunho racial contra os jogadores Jude Bellingham e Marcus Rashford.

    Além dos casos de racismo, alguns desses torcedores foram também ligados a atos de homofobia, quando levaram uma bandeira no estádio escrito anti-LGBTQ, durante jogos da Seleção, como na imagem abaixo:

    Torcedores húngaros praticando homofobia. Imagem: GE.Globo.

    A Hungria chegou a ser punida pela UEFA (União das Federações Europeias de Futebol), tendo que disputar três jogos em casa com os portões fechados, mais uma multa de 100 mil euros e teria que exibir uma faixa escrita #EqualGame, junto com o logotipo da UEFA.

    Dos gramados ao asfalto.

    Mesmo não conseguindo se qualificar a anos na Copa do Mundo, a Hungria deixou sua marca no esporte, seja pela lendária Seleção de Ouro, seja na forma como o futebol é jogado até hoje. Enquanto não continua sua história nos gramados do principal torneio mundial, os húngaros permanecem no esporte internacional, deixando sua marca também no asfalto da Fórmula 1, mantendo sua tradição nos grandes eventos esportivos.

    Leia também: Hungaroring: Quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

  • Hungaroring: Quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

    Hungaroring: Quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

    A chegada da Fórmula 1 na Hungria socialista se tornou não só um marco para a história da categoria, como também do país.

    Por Renata Resende

    Hungaroring. Imagem:Band

    Num período de guerra, principalmente ideológica, como foi na Guerra Fria, ter a ideia de trazer um esporte característico do Ocidente capitalista para um país socialista, parece improvável não? Até um pouco absurda. Mas a Hungria não deixou que isso a impedisse de criar um circuito e levar a Fórmula 1 para as terras húngaras (em inglês).

    A história do país é marcante, como foi falada no post anterior, com vários altos e baixos ao longo dos tempos. Em 1986, a Hungria não queria viver mais sob o regime Comunista, e lutava pelo direito de eleger seus representantes. Num ano que já não estava sendo dos melhores, pela sua eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo, o país resolveu inovar, trazendo um esporte diferente (até da ideologia que governava na época), fazendo mais um ato de colocar o pé pra fora do bloco soviético.

    Entrando para a história.

    Senna e Piquet duelando na pista. Imagem: Globo Esporte.

    Então no dia 10 de agosto de 86, acontece o primeiro Grande Prêmio da Hungria, o grid de largada foi a felicidade brasileira. Ayrton Senna (Lotus Renault) consegue a melhor volta e pega a Pole Position. Em seguida vem Nelson Piquet, pilotando sua Williams Honda.

    Já durante a corrida, Senna até tentou segurar o compatriota, mas Piquet o ultrapassou com maestria. Depois de tentar ultrapassar Senna e levar um x na pista do mesmo, Piquet tenta de novo, com o carro quase escorregando no asfalto, mas se mantem na liderança. Inclusive, a primeira curva do circuito foi nomeada Piquet (em inglês), pois o pai de Kelly Piquet ganhou os dois primeiros Grandes Prêmios e também ultrapassou Senna nessa curva.

    Além dessa cena, outros momentos marcaram o circuito como Fernando Alonso se tornando o piloto mais jovem a vencer uma corrida (até 2008), Vettel vencendo e dedicando sua vitória (junto com a Ferrari) à Jules Bianchi, ou até um momento mais engraçado como Lando Norris quebrando um troféu quem nem era dele no pódio.

    Primeiras Vitórias.

    Esteban Ocon no primeiro lugar do pódio. Imagem: Folha UOL

    Hungaroring é especialmente memorável para dois pilotos, um que ainda corre na Fórmula 1, já que foram suas primeiras vitórias na categoria. Em 2006, Jenson Button (Honda) começaria a prova largando em 12º lugar, mas a corrida caiu nas mãos dele. Com abandonos durante a prova, safety car na pista, e resiliência, Button conquistou sua primeira vitória, na sua sétima temporada na categoria. 15 anos depois aconteceria mais uma vitória improvável em meio a uma corrida caótica.

    Esteban Ocon, que na época corria pela Alpine, largou em oitavo lugar no grid, conseguiu sobreviver no caos provocado por Valtteri Bottas, piloto da Mercedes em 2021. Depois de vários abandonos, causados por outros pilotos além de Bottas, aconteceu uma relargada inusitada, com só Lewis Hamilton, pilotando uma Mercedes, já que os outros pilotos tinham ido para o pit stop.

    Quando Hamilton foi para o box, Ocon assumiu a liderança. O piloto francês deu a vida para segurar Sebastian Vettel (Aston Martin), e contou também com a ajuda de seu colega de equipe, Fernando Alonso, que também segurava Hamilton. O resultado foi a felicidade grande para o francês nesse dia.

    Brasileiros no circuito.

    Além de Senna e Piquet, outros pilotos brasileiros correram no circuito húngaro, como Rubens Barrichello, Felipe Massa, Mauricio Gugelmin, Roberto Moreno, Christian Fittipaldi, Pedro Diniz, Ricardo Rosset, Tarso Marques, Ricardo Zonta, Enrique Bernoldi, Luciano Burti, Cristiano da Matta, Antonio Pizzonia, Nelsinho Piquet, Bruno Senna, Lucas di Grassi, Felipe Nars e Gabriel Bortoleto, atual representante brasileiro no grid da Fórmula 1.

    O risco perfeito.

    Com quase quarenta nos de história na Fórmula 1, a Hungria, que tinha mais uma atitude de se abrir para o mundo, se tornou palco de uma tradição no automobilismo de elite. Criar o circuito Hungaroring foi mais um ato arriscado na época, mas que hoje é motivo de orgulho para o país.

  • Hungria: uma viagem na história até Hungaroring.

    Da Antiguidade Clássica até a chegada da F1, conheça a história húngara marcada por batalhas, revoluções e recordes, no asfalto e no gramado mundial.

    Nelson Piquet pilotando no GP em 1986. Imagem: Estadão.

    Por Renata Resende

    Com uma história carregada de momentos marcantes, a Hungria recebe a Fórmula 1 no circuito Hungaroring, para o que promete ser mais uma disputa emocionante no asfalto húngaro. Mas o país proporciona cenas memoráveis na história da F1, mas também no gramado da Copa do Mundo e nos grandes acontecimentos da história mundial.

    Tempos antigos.

    Hungria nos tempos antigos. Imagem: Europa

    A origem húngara remonta ainda na época da Antiguidade Clássica quando Roma expandia seu império para o mundo afora. Com povos antigos migrando de um lado para o outro, os Hunos decidiram se firmar nas terras que um dia seriam a atual Hungria. Com a queda de Roma mais ondas imigratórias aconteceram, nas quais povos como germanos, eslavos e outros também foram passando por ali, até a chegada dos Magiares, que continuariam a história húngara.

    De acordo com a tradição, os Magiares chegaram por volta do século IX, e sob a liderança de Árpad, firmaram um futuro reino e queriam muito se aproximar da Europa Cristã. Foi rei Estevão I, ou como conhecido, rei Santo Estevão que realmente fundou o reino húngaro, chegando a receber do próprio papa da Igreja, a coroa de seu reinado. Mas a tranquilidade não durou muito, e logo começaria a primeira das devastações para o povo húngaro.

    Em 1242, os Mongóis chegaram devastando e fizeram um estrago na população e nas terras húngaras. Após a Batalha de Moji (link em inglês), desastrosa para o povo magiar, e a morte do comandante mongol, o rei Béla IV, retornou para o reino com o objetivo de construir castelos fortificados, que se tornariam importantes nas batalhas contra os Otomanos.

    Se reconstruindo, o reino Húngaro foi se fortificando cada vez mais, repelindo os Otomanos e tornando a Hungria um forte centro cultural na Europa. Mas os Otomanos não desistiram da ambição de tomar as terras húngaras e acabaram com a independência dos magiares em 1526, na Batalha de Mohács, massacrando o exército magiar. O reino húngaro então passaria pela sua primeira divisão territorial, na qual só 1 terço ficaria independente. Mas essa parte ainda não ficaria sob o comando dos magiares, e sim dos Habsburgos.

    Esse povo, que foi uma Dinastia extremamente importante na Europa (mas que é história para outro momento), queria retomar o terço húngaro que estava sob controle Otomano e faz com que o atual povo turco recuasse, mas não tornou a Hungria totalmente independente de novo. Mesmo com essa vitória, a nobreza húngara não ficou totalmente feliz, já que não tinha qualquer autonomia no território, sendo parte do Império Austríaco que comandava outro dos terços do território original.

    O povo húngaro, ao invés de baixar a cabeça, lutou por algum controle, começando a Revolução de 1848. A luta foi o suficiente para fazer pressão sobre o Império Austríaco, que decretou as “Leis de Abril”, dando autonomia ao Reino Húngaro, e também garantindo direitos civis aos húngaros como controle sobre impostos locais.

    Um tempo depois essas concessões foram retiradas e depois, até de uma guerra civil e, da Revolução ter sido reprimida, o Império Austríacos decidiu tomar algumas medidas para evitar que a Hungria se tornasse independente. Reconhecendo o Reino Húngaro como um Estado autônomo, o Império se tornou então Império Austro-Húngaro. E assim o território ficaria até estourarem a grandes Guerras Mundiais.

    O mundo em guerra.

    República Húngara. Imagem: BBC

    Em 1914, ocorreria o que seria a gota d’água para a Primeira Guerra Mundial, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, seria assassinado na Sérvia, e esse acontecimento geraria uma série de invasões, formando então a primeira das grandes guerras.

    O Reino Húngaro, por ser parte minoritária do controle imperial, sofria com a marginalização de populações que pertenciam a outras etnias. Para completar o sofrimento húngaro, após o fim da Primeira Guerra, o Império Austro-Húngaro, que fazia parte do grupo das Potências Centrais (junto com a Alemanha e Itália), foi desmantelado, e a parte Húngara foi fatiada, no Tratado de Trianon, tendo grande perda de população e território.

    Embora a Hungria tenha se tornado uma República independente, a situação do país não melhorava. Sob influência soviética, a nação tentou uma experiência comunista, mas o regime acabou entrando em colapso. Para piorar, começa o período conhecido como “Terror Branco”. Na tentativa de acabar com o regime comunista, aconteceu uma contrarrevolução que matou milhares de húngaros, metade deles sendo judeus.

    Ainda sobre o Tratado de Trianon, a Hungria não queria aceitar a perda que teve, mas não tinha sequer forças para lutar contra o tratado. Sua população, que vivia nas terras que não eram mais húngaras, sofriam com a discriminação, tendo consequências até os dias atuais, já que os que moram na atual Eslováquia, são proibidos de falar o idioma húngaro. Mas nem só de tristeza vivia o povo húngaro nesse período entre guerras.

    Nos anos trinta, quando o mundo tentava lidar com a Grande Depressão causada pela quebra da bolsa de Nova York em 1929, um evento mundial aconteceria que uniria várias nações, com o intuito de torcer pela sua Seleção disputando a Copa do Mundo. A Hungria não conseguiu participar da edição inaugural, (1930), mas quatro anos depois ela estaria lá, para trazer alegria ao seu povo.

    A Seleção Húngara passou pelas oitavas de final, tirando o Egito do caminho, mas a por coincidência do destino, se encontrou com a Áustria nas quartas de final. Perdendo de 2 a 1 para a antiga companheira de território, os húngaros voltaram para a casa, sentindo que seria apenas o começo de sua história nas Copas do Mundo. E provavelmente felizes, por terem sido vingados, já que a Itália eliminou Áustria na semifinal.

    Voltando para a disputa mundial em 1938, eles ficaram com seu melhor resultado nas Copas, levando a vice-liderança. Após a Copa de 38, o mundo teria outro palco de eventos, mas dessa vez não seria uma competição saudável, já que em 39, começaria a Segunda Guerra Mundial.

    Devastação e reconstrução.

    Quase na década de 40, surge um líder que usou seu carisma para convencer a frágil Hungria, que a crise existente em seu território era falta de homogeneidade de uma raça superior. Hitler, um político austríaco que quase tinha morrido na Primeira Guerra, usou sua lábia para tomar o poder na destruída Alemanha, dizendo ter a solução ideal para um recomeço germânico glorioso. E ele foi um dos poucos que estendeu a mão para também destruída Hungria.

    “Vamos Hungria, se alie com nossa luta e conquistaremos seus territórios perdidos.” E a Hungria realmente retomou suas terras, mas assim como Ícaro, os húngaros voaram perto demais do sol. Com uma autoestima elevada, um sonho e escutando os conselhos do “melhor amigo”, a Hungria declara guerra a União Soviética. O resto é história…

    Depois de várias derrotas e soldados perdidos, a Hungria tentou um acordo com o grupo dos Aliados, e isso caiu nos ouvidos do líder nazista. O alemão não quis deixar barato e invadiu o território húngaro, e depois de várias batalhas, os nazistas são derrotados.

    Bons recordes em Guerra Fria.

    Húngaros na Copa do Mundo de 1954. Imagem: GE Globo.

    A Segunda Grande Guerra acabou, mas os estragos ainda demorariam para acabar. A Hungria tentava se recuperar nesse novo mundo polarizado, e entrou para o lado socialista da força, se juntando a União Soviética. Em 1956, o trauma da guerra parecia ter esfriado nas mentes húngaras, e os populares decidiram se levantar contra o regime que comandava o país.

    A Revolução de 1956 começou com uma manifestação popular, que se encontrava infeliz a situação do país. O ministro da Defesa não discordava do povo, e deu ainda mais força. Até aconteceu uma trégua, mas no final a União Soviética invadiu e massacrou a revolta.

    Depois de alguns anos, já quase na década de 90, a Hungria queria dissolver o Pacto de Varsóvia, sendo um dos primeiros países soviéticos a querer acabar com esse regime. A atitude húngara acabou se tornando um dos motivos para o fim na União Soviética e junto o fim da Guerra Fria, começando assim um novo marco para o mundo inteiro.

    Mas a Hungria não foi só o primeiro país a querer sair do bloco socialista, como foi também o primeiro a trazer um outro evento esportivo mundial para seu território. Evento esse muito… capitalista em sua essência. No ano de 1986, a Fórmula 1 chega nas terras húngaras e começando com chave de ouro, já que teve uma dobradinha brasileira no pódio, com Nelson Piquet (Williams) em 1º e Ayrton Senna (Lotus) em 2º, e com a companhia de Nigel Mansell (Williams) fechando o pódio.

    No mesmo ano que sediava pela 1ª vez a F1, era também o último que competia na Copa do Mundo. Mesmo não conseguindo se classificar de novo para a Copa do Mundo, a Hungria entrou para o livro de Recordes pelas suas goleadas no evento (meus pêsames aos times que enfrentaram os húngaros).

    Voltando a história do país, os húngaros tiveram suas primeiras eleições livres em 1990, com os socialistas sendo esculachados na votação. Quatro anos depois foi registrada uma queda na qualidade e vida húngara, e os socialistas se aproveitaram disso para voltarem ao poder, mas o país não voltou a ser aquele modelo socialista ferrenho de antes.

    Atualmente a Hungria faz parte tanto da OTAN (Organização do Tratado Atlântico do Norte) quanto da UE (União Europeia), sendo um dos países da UE que não tem o Euro como moeda nacional e com a língua Húngara (ou Magiar) reconhecida oficialmente pela organização.

    Idioma . Fórmula 1 . Copa do Mundo.

    A Hungria ainda tem muita história pra contar, com seu idioma diferenciado, seus momentos marcantes na F1 e as goleadas na Copa do Mundo, mas elas ficam para os próximos posts. Te espero por aqui!

    Referências e leituras recomendadas:

    Esta matéria tem como base de construção fontes confiáveis como BBC (perfil da Hungria), VatticanNews, Brittanica (em Inglês), VEJA, Brasil Escola, FIFA, F1 (site oficial) e outra fontes linkadas ao longo do texto.

  • Senna, Leclerc e as raras vezes em que Mônaco foi inesquecível

    Do duelo histórico de 1992 à vitória mais emocional de 2024.

    Ayrton Senna pilotando em Mônaco/ Imagem: Wikipédia

    Por Renata Resende

    Conhecido por muitas vezes proporcionar corridas monótonas, o Grande Prêmio de Mônaco às vezes surpreende os fãs do automobilismo e entrega cenas inesquecíveis.

    O GP de Mônaco de 1992 é um exemplo disso. A prova, que parecia praticamente vencida por Nigel Mansell, ganhou uma reviravolta dramática nas voltas finais. Décadas depois, em 2024, outra corrida no Principado voltou a emocionar o público — desta vez, arrancando lágrimas dos torcedores.

    SENNA VENCE NA FORÇA DO BRAÇO

    Em 1992, a Williams vivia sua era de supremacia na Fórmula 1. Com o melhor carro do grid, a equipe contava com Nigel Mansell e Riccardo Patrese. Em Mônaco, Mansell conquistou a pole position, seguido pelo companheiro de equipe. Ayrton Senna, da McLaren, largava em terceiro, mas tomou a posição de Patrese logo na largada. Ainda assim, o brasileiro sabia que alcançar a liderança seria uma missão difícil.

    Com o decorrer da prova, vários carros abandonaram a corrida, entre eles os brasileiros Maurício Gugelmin (Jordan Yamaha) e Roberto Moreno (Moda Judd). Perto do fim, metade do grid já estava fora da disputa. E foi justamente nas últimas voltas que o improvável aconteceu.

    Mansell precisou ir aos boxes após um problema com a fixação de uma das rodas, e a parada demorou mais do que o esperado. Senna assumiu a liderança e, mesmo com pneus já desgastados, conseguiu segurar a pressão do britânico até a bandeirada final. A defesa histórica do brasileiro entrou para a memória da Fórmula 1.

    A CASA É SUA, CHARLES

    No Grande Prêmio de Mônaco de 2024, a McLaren chamou atenção ao utilizar uma pintura especial em verde e amarelo em homenagem a Ayrton Senna, falecido há exatos 30 anos. A torcida brasileira tinha motivos para olhar com carinho para a equipe inglesa, mas outro personagem acabou roubando a cena no Principado.

    Charles Leclerc, pilotando pela Ferrari, carregava um histórico de frustrações correndo em casa. Desde sua chegada à Fórmula 1, algo sempre dava errado para o monegasco em Mônaco — fosse por erros estratégicos, problemas mecânicos ou até acidentes antes da largada.

    Mas, em 2024, a história foi diferente.

    Liderando de ponta a ponta, Leclerc finalmente conquistou sua primeira vitória em casa. E não foi apenas o resultado que emocionou o público. Nas voltas finais, a narração italiana relembrou toda a trajetória do piloto até aquele momento histórico, tornando a bandeirada ainda mais impactante. A frase “a casa é tua, Charles, a casa é tua” entrou para a história da Fórmula 1.

  • O dia em que Ayrton Senna encontrou a Fórmula 1

    Em 1983, um jovem brasileiro impressionava Frank Williams e dava início a uma trajetória histórica.

    Ayrton Senna pilotando o carro da Williams em 1983/ Imagem: Ayrton Senna

    Por Renata Resende

    Era 19 de julho de 1983, quando Ayrton Senna, que viria a ser uma lenda do automobilismo nacional e internacional, dava seu primeiro passo no mundo da Fórmula 1. Na época, ainda conhecido como Ayrton da Silva, ele vinha chamando atenção no automobilismo europeu, se destacando cada vez na Fórmula 3 Britânica. E foi a Williams, uma equipe tradicional da Inglaterra que decidiu dar a oportunidade para o piloto guiar um carro da Fórmula 1.

    Impressionado com o desempenho do brasileiro nas categorias de base, Frank Williams decidiu chamar Ayrton para ver como ele se sairia num carro da categoria de elite, dando ao brasileiro a chance de pilotar o FW08 — carro utilizado por Keke Rosberg na temporada da F1 de 1983.

    A equipe Williams-Cosworth já estava completa, —o suiço Rosberg, mas que representava a Finlândia e o irlandês Derek Daly formavam a dupla de pilotos — mas o próprio Frank queria observar pessoalmente o desempenho piloto brasileiro. E o dirigente britânico não se decepcionou.

    Durante a reportagem da gravação do teste, Reginaldo Leme pode acompanhar Ayrton dando seu primeiro passo na F1, e trouxe as impressões do piloto. Após 10 voltas aconteceu a primeira parada no box, e Ayrton revelou para Leme que tinha se acostumado com o carro até a terceira volta.

    — O negócio é sentar e pegando as reações do carro o mais rápido possível, se arriscar de fazer besteira. — afirmou Ayrton durante o treino.

    Ali na pista britânica Donington Park, Frank Williams também se mostrou surpreso, confessando para Reginaldo Leme, dizendo que ter visto um piloto se acostumar tão rapidamente a um carro que era diferente dos das categoria de base.

    Pilotando um Fórmula 1, com uma potência bem maior que um Fórmula 3, Ayrton fez 83 voltas sem cometer um único erro, e quase não parou nas quase 6 horas de pilotagem na pista britânica.

    TEMPORADA MARCANTE DA F3 BRITÂNICA

    Ainda em 1983, Ayrton continuou disputando na F3 britânica, e lutou até a última etapa fazendo algumas façanhas ao longo da temporada. Vencendo as nove primeiras corridas do campeonato, ele só não conquistou o título com maior tranquilidade por conta de problemas mecânicos ao longo do ano.

    Na última corrida da temporada, Ayrton da Silva disputou o título com Martin Brundle, na etapa de Thruxton, e o brasileiro fez um dos feitos mais memoráveis de sua carreira, quando teve a ideia de usar fita adesiva para fechar a saída de ar do radiador no carro que pilotava, para ajudar a melhorar a eficiência aerodinâmica do monoposto. Anos depois, essa cena seria recriada na série “Senna”, lançada pela Netflix.

    Anos depois daquele primeiro teste em Donington Park, o destino reservaria um desfecho trágico: seria justamente pela Williams, equipe que lhe abriu as portas da Fórmula 1, que Ayrton Senna disputaria sua última corrida.