Por Renata Resende

Quando o Pan de muerto finalmente fica pronto, é chegada a hora de oferecê-lo ao seu ente querido. O altar está finalmente pronto junto com a decoração restante do ambiente. Quando a alma vier visitar seus amados, vai ver que cada detalhe foi cuidadosamente pensado para receber sua visita.

Leia também: Pan de Muerto: o pão que celebra a memória dos mortos.

Sendo uma das principais partes da tradição, a montagem e os elementos no altar podem variar por todo o México – ou nas regiões do país em que se comemora essa festividade. Neste post, será o momento de explorar e entender um pouco mais sobre o altar, parte importante dessa rica tradição mexicana.

Os andares e os níveis da vida

Assim como o pan de muerto pode variar de lugar para lugar, a montagem do altar também varia. Mas essa variação, porém, não depende só da região que é feita. Os variados altares encontrados pelo México mostram, além da homenagem à alma, a condição financeira, os pertences pessoais do falecido e também o alimento mais típico da região.

A tradição mexicana costuma trazer altares de dois, três e sete níveis.

O altar de dois níveis é o mais comum de se encontrar pelo país latino- americano. A sua composição é feita com uma mesa e o chão, representando o Céu e a Terra respectivamente. Geralmente quem opta por fazer esse modelo, tende a construir assim devido ao espaço limitado.

O de três níveis traz um símbolo a mais. Além do Céu e da Terra, a base do altar representa o que seria o submundo ou Purgatório no Catolicismo, dependendo da crença daquela casa.

Na construção do altar, as pessoas costumam usar uma mesa menor ou até uma caixa de papelão ou engradado de bebidas como nível superior. Um arco também pode ser incluído nesse modelo, para representar o Céu ou a passagem da alma entre a vida e a morte.

Na base do altar, encontra-se uma esteira ou petate (tapete tradicional, feito com fibras de palmeira). Nesse nível, a alma pode repousar durante sua visita. Areia, flores ou uma cruz feita de velas podem fazer parte da decoração.

O de sete andares é o mais complexo e carrega ainda mais significados. O conjunto de níveis representa os sete pecados capitais e a jornada que a alma precisa fazer para finalmente descansar em paz.

Começando pela base, o o sétimo andar ou o nível baixo costuma ser decorado com uma cruz feita com sementes, frutos, flores ou velas. Essa cruz é colocada para que o falecido possa expiar seus pecados.

Subindo um degrau, são encontradas fotos da pessoa que partiu da vida terrena. É uma das formas de mostrar que sua memória nunca será esquecida.

No quinto andar, pratos e frutas favoritas do falecido se tornam oferendas para a alma.

No quarto nível, o pan de muerto entra em cena. Ele é oferecido tanto para as almas visitantes quanto para as pessoas da comunidade que visitam o altar.

Chegando nos níveis superiores, no terceiro andar se pode encontrar o sal. Ele é colocado ali para representar o processo de purificação que as almas estão enfrentando no purgatório. A homenagem é especialmente dedicada às crianças falecidas.

No segundo nível, encontramos um paralelo com a cultura brasileira. Enquanto no Brasil os católicos tendem a “mandar” uma missa para as almas do purgatório, no México eles deixam o segundo mais alto dos sete especialmente dedicado à essas mesmas almas. O propósito deste andar é permitir que os falecidos finalmente tenham permissão para descansar. O copo de água encontrado nesse andar carrega o simbolismo da pureza.

No nível mais elevado, se encontra a imagem do santo ou santa a quem a família do falecido é devoto. Jesus e a Virgem Maria de Guadalupe são as imagens mais encontradas.

Mas os pertences pessoais do falecido ou os elementos em comum, como sal e água, não são os únicos a terem um significado em especial. Os itens usados na decoração do altar e do restante do ambiente também têm seus propósitos na tradição.

Homenagem em cada detalhe

Quando a alma faz sua passagem para visitar seus entes queridos, ela segue um caminho até o lugar em que foi mais amada. Elas podem ser guiadas pela iluminação no caminho, pelos cheiros sentidos ou ainda pelas cores que as chamam.

Por exemplo, as velas têm um significado especial. A de cor branca é usada para iluminar o rumo das almas, enquanto a de cor roxa traz a representação do luto e conecta os vivos e os mortos. Para alguns indígenas, a quantidade de velas no altar vai indicar quantas almas visitarão aquela casa.

O copal também marca presença no ambiente. Parecida com o âmbar, essa resina vegetal de cor amarelada é queimada, tal qual um incenso, e o aroma atrai os falecidos ao encontro de suas famílias, ao mesmo tempo em que afasta os maus espíritos.

A terra ou as cinzas encontradas no altar servem para relembrar aos vivos e mortos a passagem bíblica que nos diz que somos pó e ao pó retornaremos (Gênesis 3:19).

As flores também ocupam um lugar especial na composição dos altares. Presente em todos os altares, a cempasúchil , ou calêndula, é tradicionalmente associada como flor cerimonial do dia dos mortos. A crença mexicana diz que o aroma e a cor vibrante dessa flor são também um guia para o espírito.

A Flor de veludo (Flor de Terciopelo) é frequentemente usada pois, com seu toque macio e aveludado, pode trazer conforto a aqueles que perderam seus entes amados.

Papel crepom picado com desenho de caveiras. Imagem: Amazon

O papel picado é outro dos itens indispensáveis do altar. Papéis crepom, nas cores amarela e roxa, são recortados em desenhos intrincados e colocados como guirlandas. Simbolizando a fragilidade da vida, a pureza e o luto, os mexicanos acreditam que os recortes nos papéis permitem a viagem das almas para visitar seus amados.

Além de adicionar mais cor à festividade, esse papel picado simboliza o vento. Segundo os mexicanos, quando o vento sopra sobre esses papéis, se cria um clima, uma expectativa no ambiente com a aproximação da data e da visita dos ancestrais.

Os animais também entram na decoração com o Xoloitzcuintle, o cão espiritual dos mexicanos. Mais conhecido como cão mexicano sem pelo, para algumas crenças ele ajuda a guiar a alma pelos nove níveis de Mictlán. Esse cão é reverenciado como símbolo, além de ser um emblema da cultura pré-hispânica.

Além de todos esses elementos citados que compõem a decoração do altar, ainda há outro que têm um grande simbolismo para o México: as caveiras.

No altar e nas ruas

Caveiras são símbolos tradicionais da data. Imagem: Mexican Made Meatless

As caveiras, ou calaveritas de azúcar, são feitas de açúcar e pasta de açúcar em moldes de barro, têm o nome da alma ou até do vivo a quem representa. Receber uma caveira de açúcar com seu nome gravado é, para os mexicanos, uma maneira de dizer que te ama (em inglês).

Mas fora dos altares, desenhos e maquiagens de caveiras e esqueletos são vistas ao longo da festividade.

Nas ruas, os mexicanos fazem várias versões dessas caveiras e algumas chegaram a receber outro nome, além de se tornarem um símbolo de cultura e nacionalismo mexicanos.

Essas vão ter mais destaque no próximo post, já que a história de Las Catrinas é boa demais para ficar em só um parágrafo. Até o próximo post!

Referências

  1. INSTITUTO NACIONAL DE LOS PUEBLOS INDÍGENAS (INPI). ¿Conoces el significado de los elementos de una ofrenda de Día de Muertos? Gobierno de México, 23 out. 2019. Disponível em: Gobierno de México — INPI. Acesso em: 31 out. 2026.

2. NAVARRO, Luisa. How to Build a Day of the Dead Altar and the Meaning Behind the Elements. Mexico In My Pocket, 23 out. 2024. Disponível em: Mexico In My Pocket. Acesso em: 31 out. 2026.

Uma resposta a “Día de los muertos: os significados por traz do altar de oferendas”

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