Categoria: Circuito

  • Monza: tristeza, alegria e Sará perché ti amo.

    Monza: tristeza, alegria e Sará perché ti amo.

    Voltando da década de 60 até as lágrimas de alegria em 2026.

    Tifosi no Grande Prêmio da Itália. Imagem: F1 Site oficial.

    Por Renata Resende

    O circuito de Monza sempre trouxe fortes emoções para qualquer amante de corridas, e com Enzo Ferrari e os fãs da sua escuderia não seria diferente. Em 2026, a canção Sará perchè ti amo foi a trilha sonora da vitória do italiano Kimi Antonelli, mas em 1961, a trilha sonora foi o choque dos fãs diante da tragédia.

    Leia também: Monza: uma história de glórias e tragédias.

    Monza 61.

    Yates descreve em sua biografia sobre Enzo Ferrari como o ano de 1961 estava sendo maravilhoso para o Commendatore Italiano. A Scuderia tinha conquistado a vitória nas 24 Horas de Le Mans . Na Fórmula 1, a equipe pilotada por Wolfgang von Trips e Phil Hill, estava sendo a melhor no campeonato, com seus dois pilotos disputando o campeonato de pilotos.

    A definição do título ficou para a etapa de Monza, mas ninguém contava com o estrago que aconteceria naquela prova.

    Jim Clark conseguiu ser o líder da prova, pilotando uma Lotus 21, e era perseguido por von Trips. Foi a caminho da Parabólica que a cena se desenrolou. Trips, freou bruscamente e a Ferrari e a Lotus se tocaram. Pra quê? Von Trips perdeu o controle da sua Ferrari 156, foi em direção ao público e o piloto alemão foi lançado para fora do bólido.

    O choque foi instantâneo.

    O jornalista Antônio Teixeira Neto conta, no livro Monza 61, como foi a tragédia, e fala não só sobre o piloto como também sobre as vítimas da tragédia. Infelizmente, quinze dos espectadores do público morreram, e algumas dezenas mais saíram feridas desse acidente.

    Leia também: Resenha Monza 61, a maior das tragédias da Fórmula 1.

    Consequentemente com a morte de Wolfgang von Trips, o campeão dos pilotos foi Phil Hill. Ainda no seu livro, Yates fala que Clark foi usado como um bode expiatório, embora tenha sido absolvido no julgamento, e que a culpa tecnicamente era da diligência da prova, que deixou aqueles espectadores ficarem vulneráveis diante do perigo iminente da corrida.

    Empate… na bandeirada final ?

    Em 1971, o autódromo de Monza foi palco de mais um momento icônico na Fórmula 1.

    No dia 5 de setembro de 1971, a F1 já tinha seu campeão definido, com Jackie Stewart vencendo pela Tyrrell na antepenúltima etapa. Quando chegou na corrida de Monza, não tinha mais aquela pressão de ganhar pontos, afinal, o resultado já estava feito.

    A Lotus de Emerson Fittipaldi (ainda não era a Lotus 72D) estava causando burburinhos no paddock. Se inscrevendo com o nome de World Wide Racing, a Lotus tentava evitar que o inovador e turbinado modelo 56B, ou qualquer outro equipamento fosse confiscado (consequência do acidente fatal de Jochen Rindt, um ano antes, também em Monza).

    O carro que Fittipaldi pilotava era inovador e turbinado, mas isso não queria dizer que era bom o suficiente para lutar pelo pódio.

    O Grande Prêmio da Itália chegou a ter os dois pilotos da Ferrari abandonando e ser liderado por oito pilotos diferentes ao longo da prova.

    Na hora da bandeirada, cinco pilotos cruzaram a chegada no mesmo segundo, com apenas milésimos de diferença entre eles. O vencedor da corrida, Peter Gethin (BRM) foi seguido por Ronnie Petterson (March Ford).

    Francois Cevert (Tyrrell Ford), Mike Hailwood (Surtees Ford) e Howden Ganley (BRM) fecharam o “Top 5” dos mais rápidos da prova. O brasileiro Fittipaldi terminou em oitavo. Uma curiosidade foi que um dos que abandonaram, além das Ferraris, foi então piloto Helmut Marko (também pilotando uma BRM).

    Monza agora viveria mais momentos inesquecíveis, mas dessa vez sob a pilotagem de um alemão guiando uma Ferrari. Uma dica? Foi homenageado no GP desse ano.

    Schumi, O cara da Scuderia.

    A Ferrari esse ano quis fazer aquela homenagem para Michael Schumacher, digna de arrancar lágrimas até dos fãs mais durões da F1. Colocou Rubens Barrichello e Sebastian Vettel para pilotarem o modelo F2002.

    No caso de Barrichello, ele teve a oportunidade de pilotar de novo o carro, já que em 2002 ele era companheiro de equipe de Schumacher.

    Pode-se dizer que 2002 foi um dos melhores anos para a Scuderia italiana, Das 17 provas competidas, 15 foram a alegria dos Tifosi. A etapa de Monza, foi uma das 4 vencidas pelo brasileiro (podendo ser uma das 5 se não fosse a “arte” feita pela Ferrari na Áustria).

    Schumacher venceu 11 corridas e conquistou seu pentacampeonato. A Scuderia trouxe de volta a pintura de 2002, para fazer referencia ao carro dominante. Mas nem precisa comentar que a homenagem ao piloto alemão terminou aí né? A prova de 2026, se pudesse, seria apagada da memória dos fãs e da equipe.

    Batendo na Parabólica e causando uma bandeira vermelha, Charles Leclerc foi parar no centro médico e precisará passar por mais exames antes do Grande Prêmio da Espanha, já neste final de semana.

    Mas o futuro papai monegasco não proporcionou apenas lembranças ruins para os Tifosi.

    Fratelli d’Italia no pódio.

    Charles Leclerc e a torcida tifosi no GP da Itália de 2024. Imagem: F1 Site oficial.

    Embora o Grande Prêmio da Itália seja, talvez, o mais importante para a Scuderia italiana, a Ferrari tem enfrentado jejuns de vitórias em Monza na Fórmula 1.

    Em 2010, Fernando Alonso garantiu a viória para os Tifosi, mas demorou 9 anos para que o hino Fratelli d’Italia fosse tocado de novo no pódio. Em 2019, Charles Leclerc tinha sido contratado pela Ferrari e conseguiu sua segunda vitória no campeonato em Monza (a primeira tido sido na Bélgica).

    Leclerc infelizmente aprendeu como funciona o box da equipe de Maranello e já sabe que a Ferrari não tem tanta chance de vencer quanto deveria (espero que a terapia esteja em dia). Porém, de vez em quando acontece um milagre na garagem vermelha, e em 2024 aconteceu.

    O GP da Itália daquele ano começou com a pole position de Oscar Piastri (McLaren) e os pilotos da Ferrari não tinham conseguido nem a primeira fila do grid. Charles Leclerc e Carlos Sainz pelo menos chegaram com estilo, usando aqueles macacões pretos inspirados no carbono.

    Mas um milagre aconteceu.

    Na 39ª volta, Leclerc assumiu a liderança e não soltou mais. Levou a Ferrari para o lugar mais alto do pódio, e quebrou mais um jejum de cinco anos sem vitória da equipe italiana em Monza (Que dia meu povo, que dia).

    Esse dia foi marcado também na memória dos argentinos, com Franco Colapinto estreando na Fórmula 1, trazendo o país latino para a categoria depois de 23 anos. O piloto conquistou até os brasileiros, não só pelo sobrenome diferenciado, mas também pelo desempenho na pista.

    Franco não só quase pontuou, como também questionou a teoria sobre o desempenho da Williams. Afinal, o carro era uma carroça, ou o desempenho ruim era na verdade responsabilidade do piloto Logan Sargeant?

    Sará perché ti amo.

    Kimi Antonelli comemorando com Senna no pódio. Imagem: Gazzetta di Milano.

    Kimi Andrea Antonelli, um moleque hoje com 20 anos, foi muito subestimado e pressionado quando estreou na Fórmula 1 numa equipe de ponta, a Mercedes, quando na Fórmula 2 nem tinha aquela performance.

    Substituindo o heptacampeão Lewis Hamilton, que tinha anunciado sua ida para a Ferrari, Antonelli não era o rookie mais habilidoso do grupo de novatos na F1 em 2025. O destaque ficava mesmo era para Isack Hadjar (RBR) e Gabriel Bortoleto, brasileiro que estreou pela Sauber (futura Audi) e que foi considerado por Helmut Marko como um “piloto B”.

    Mas Kimi se adaptou, e virou quase uma reencarnação do Senna. seu ídolo. O garoto atualmente lidera o campeonato de pilotos, e praticamente empurrou George Bottas (ops, Russell) para a brita da Mercedes (entendedores entenderão).

    Como se não estivesse tendo um desempenho fora da curva, o italiano ainda quebrou mais um jejum de Monza, levando o prêmio para a Itália depois de 60 anos. Ele fez a torcida da Ferrari virar a casaca, e teve até ferrarista exibindo a bandeira italiana com o escrito “Kimi Antonelli”.

    Mas posso falar a verdade aqui? Foi bonito ver o Pierre Gasly (Alpine) largando na pole position e a torcida italiana cantando Sará perché ti amo, canção de Ricchi e Poveri.

    Monza, nós te amamos.

    Não importa o time para qual torça, não dá para perder o Grande Prêmio da Itália que acontece em Monza. A cada ano é uma cena inesquecível, e que prova que o autódromo de Monza sempre estará no coração da Fórmula 1.

  • Monza: uma história de glórias e tragédias.

    Monza: uma história de glórias e tragédias.

    Da construção do circuito à chegada da Fórmula 1: as histórias que transformaram Monza em um dos templos do automobilismo.

    Kimi Antonelli vence o Grande Prêmio da Itália. Imagem: F1 site oficial.

    Por Renata Resende

    E Monza faz história mais uma vez no Grande Prêmio da Itália. Depois de 60 anos sem nenhum italiano ganhando um GP de Fórmula 1 em casa, Kimi Antonelli (Mercedes) fez os tifosi (torcedores da Ferrari) virarem a casaca, pelo menos temporariamente. Charles Leclerc (Ferrari), por sua vez, fez alguns fãs chorarem, quando bateu e ainda foi parar na instalação médica (mas ele passa bem, obrigada pela preocupação).

    Mas não é a primeira vez que os amantes da Fórmula 1 ficam eletrizados assistindo o desenrolar das cenas neste circuito italiano. Foram vários os momentos impactantes que aconteceram em Monza, alguns trazendo felicidade, outros trazendo tragédia. E tudo começou lá atrás, depois que acabou a Primeira Guerra Mundial.

    Benvenuti à década de 1920.

    Em 1922, uma grande obra começou a ser construída nos arredores de Milão, e ela se tornou um dos circuitos mais antigos e icônicos do calendário da Fórmula. A ideia, que partiu do Automobile Club de Milano, tinha pelo menos dois objetivos diferentes: ser um circuito permanente de testes para as montadoras italianas, e também para receber um Grand Prix internacional para rivalizar com o disputado na França.

    Na sua biografia sobre Enzo Ferrari (Ferrari: O homem por trás das máquinas) Brock Yates cita a construção da autódromo, e como ele faria parte da história do Commendatore italiano. Segundo Yates, Ferrari viu de perto a construção, enquanto ainda era piloto, porém curiosamente nunca chegou a protagonizar um momento bombástico pilotando naquele circuito. Mas Ferrari e Monza sempre estariam ligados um ao outro.

    O traçado original do circuito, que foi inaugurado no dia 3 de setembro de 1922, tinha quase 10 km de extensão. Seis anos após sua inauguração, foi preciso alterar o desenho devido à primeira das tragédias que abalaram Monza.

    O primeiro grande abalo.

    Há exatos 98 anos, no dia 9 de setembro de 1928, Emilio Materassi participaria de sua última corrida da vida. O piloto italiano tinha uma carreira já consolidada no automobilismo, e inclusive era dono da Scuderia Materassi, equipe que comprou da Talbot-Darracq. No Grand Prix da Itália de 1928, Materassi pilotava sua Talbot 700, e já começou a prova enfrentando problemas e precisando ir para o box duas vezes.

    Na décima sétima volta, Materassi perdeu o controle de seu carro quando tentou ultrapassar a Bulgatti de Giulio Foresti. O resultado foi uma tragédia, que envolveu mais pessoas além do piloto. Na tentativa de desviar o carro, Materassi saiu da pista, saltou sobre uma vala de proteção e atingiu o público. Dezenas de pessoas morreram praticamente na hora, e mais algumas se feriram, com uma chegando a morrer no dia seguinte e outra indo a óbito nove dias depois.

    Emilio Materassi tinha apenas 34 anos, quando deixou a esposa e duas filhas. Na sua sepultura, foi erguida uma estátua de bronze, obra do escultor Mario Ferretti. Com relação às outras vítimas do acidente, no site Motorsport Memorial tem uma lista dando nome a cada uma delas (link em inglês).

    Embora o acidente não tenha sido na parte oval do autódromo, esse trecho foi fechado na tentativa de reduzir as altas velocidades na reta principal. Em 1930, Vincenzo Florio, idealizador da corrida Targa Florio, teve uma ideia de alteração para o circuito. Usando a infraestrutura já existente, foi adicionada uma chicane e só a inclinação sul da pista era utilizada (em inglês).

    No dia 6 de setembro de 1931, aconteceu o quarto Grand Prix de Monza, e mais uma vez outro acidente aconteceu. Philippe Étancelin, pilotando um Alfa Romeo, tentou ultrapassar Giovanni Minozzi, mas perdeu o controle do carro, saiu da pista e também acertou alguns fãs (assistiam a corrida num local proibido). Ao contrário das vítimas, entre elas duas mortas, Étancelin saiu apenas levemente lesionado, mas devastado e inocentando Minozzi de qualquer culpa.

    Em 1933, o circuito original mostrou mais uma vez o quão perigoso era, praticamente pedindo para ser alterado de novo.

    O Dia Negro de Monza.

    Era 10 de outubro de 1933, o Grande Prêmio de Monza trouxe mais uma memória perturbadora para o automobilismo. A sequência de acontecimentos que se prosseguiu foi tão intensa para Enzo Ferrari, que Yates fez questão de falar sobre esse GP em seu livro.

    A prova, que seria realizada em três baterias, aconteceu na parte oval da pista. Um dia antes, alguns pilotos, entre eles os dois mais icônicos da época, Tazio Nuvolari e Luigi Fagioli, desistiram de participar da competição. O dia frio, ameaçando chover, parecia avisar sobre a tragédia que aconteceria.

    Ainda na primeira bateria, o piloto Felice de Trossi abandonou a corrida, pois seu carro (Duesenberg Special) deu um problema no motor, e ao que parece, deixou uma poça de óleo na pista, bem no meio da curva sul. Guy Moll, que terminou em segundo lugar, exigiu que alguma providência fosse tomada sobre esse óleo. Antes que a segunda bateria começasse, a mancha de óleo foi limpa com vassouras e teve um revestimento de areia. Mas não foi o suficiente para evitar os próximos momentos.

    Então começou a segunda parte da prova. Giuseppe Campari pilotava um Scuderia P3, e competia lado a lado contra Baconin Borzacchini (Maserati), e desapareceram da vista dos espectadores, e junto com eles, também não haviam notícias de Nando Barbieri e o conde Castelbarco. Como esses pilotos não voltavam, surgiu um boato que talvez eles tivessem se acidentado. Infelizmente, o boato se concretizou.

    Campari e Borzacchini tinham tocado as rodas dos carros e sido lançados para a cerca de arame do campo interno. Borzacchini se feriu gravemente e morreu horas depois, enquanto Campari faleceu na hora. Os outros dois pilotos também considerados desaparecidos voltaram praticamente ilesos.

    Segundo Yates, as mortes de Giuseppe Campari e Baconin Borzacchini abalaram o senhor Ferrari, que considerava os dois pilotos como companheiros. A partir daquele momento, Enzo Ferrari fecharia seu coração para os pilotos, com apenas um ou outro piloto atravessando a barreira do Commendatore.

    Prenúncio de Guerra.

    Após essas tragédias acontecerem, era hora de dar um jeito naquele autódromo. A pista era rápida demais para o seu próprio bem. O engenheiro Aldo di Rionzo foi o responsável pelas alterações, e demoliu a parte oval do autódromo. A Curva de Lesmo foi alterada e o pedido da Pirelli por um trecho de testes foi aceito. Instalações para os fãs também foram feitas, como a arquibancada para 2000 pessoas e um restaurante no térreo.

    Quando estava chegando a hora de ver se as melhorias feitas dariam realmente certo, as corridas precisaram ser paralisadas … e a Segunda Guerra Mundial bateu na porta.

    A cidade de Monza foi ocupada em 1943, pelos alemães, e o circuito também foi afetado. O que antes era um autódromo, agora se tornou um depósito de arquivos e até mesmo dos animais retirados do zoológico de Milão. Quando a guerra acabou, o circuito de Monza precisaria passar por mais uma reforma se quisesse voltar a receber corridas.

    O asfalto da pista foi danificado pelo desfile de blindados dos Aliados. Mas dessa vez a reforma foi rápida, durando apenas dois meses e o autódromo voltou a ter a carinha de pista de corrida. Construído sobre concreto armado e com uma nova curva parabólica. Mais melhorias foram feitas, agora sendo construídas duas grandes torres com placares luminosos, mostrando cada posição da corrida ao longo da pista.

    Senhoras e senhores, bem-vindos à Fórmula 1.

    Grande Prêmio da Fórmula 1 em 1950. Imagem BBC.

    Era 1950 quando aconteceu a primeira temporada do campeonato oficial da Fórmula 1, e claro que o circuito de Monza sediaria uma das sete etapas da categoria.

    No dia 3 de setembro, era a última prova da temporada e a briga do título estava entre Nino Farina e Juan Manuel Fangio. A lenda argentina, Fangio, até conseguiu a pole position, mas logo na largada foi ultrapassado por Farina. Vencendo em casa, Nino conquistou o campeonato com apenas três pontos de diferença para Fangio, fazendo a festa da torcida italiana.

    Desde 1950, Monza vem recebendo a Fórmula 1, sendo um dos circuitos mais antigos do calendário a estar presentes desde o início do campeonato. Infelizmente, onze anos após seu início, a F1 veria uma das piores tragédias de sua história acontecendo em Monza. Mas essa história fica para o próximo post, te aguardo lá.

  • Hungaroring: Quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

    Hungaroring: Quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

    A chegada da Fórmula 1 na Hungria socialista se tornou não só um marco para a história da categoria, como também do país.

    Por Renata Resende

    Hungaroring. Imagem:Band

    Num período de guerra, principalmente ideológica, como foi na Guerra Fria, ter a ideia de trazer um esporte característico do Ocidente capitalista para um país socialista, parece improvável não? Até um pouco absurda. Mas a Hungria não deixou que isso a impedisse de criar um circuito e levar a Fórmula 1 para as terras húngaras (em inglês).

    A história do país é marcante, como foi falada no post anterior, com vários altos e baixos ao longo dos tempos. Em 1986, a Hungria não queria viver mais sob o regime Comunista, e lutava pelo direito de eleger seus representantes. Num ano que já não estava sendo dos melhores, pela sua eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo, o país resolveu inovar, trazendo um esporte diferente (até da ideologia que governava na época), fazendo mais um ato de colocar o pé pra fora do bloco soviético.

    Entrando para a história.

    Senna e Piquet duelando na pista. Imagem: Globo Esporte.

    Então no dia 10 de agosto de 86, acontece o primeiro Grande Prêmio da Hungria, o grid de largada foi a felicidade brasileira. Ayrton Senna (Lotus Renault) consegue a melhor volta e pega a Pole Position. Em seguida vem Nelson Piquet, pilotando sua Williams Honda.

    Já durante a corrida, Senna até tentou segurar o compatriota, mas Piquet o ultrapassou com maestria. Depois de tentar ultrapassar Senna e levar um x na pista do mesmo, Piquet tenta de novo, com o carro quase escorregando no asfalto, mas se mantem na liderança. Inclusive, a primeira curva do circuito foi nomeada Piquet (em inglês), pois o pai de Kelly Piquet ganhou os dois primeiros Grandes Prêmios e também ultrapassou Senna nessa curva.

    Além dessa cena, outros momentos marcaram o circuito como Fernando Alonso se tornando o piloto mais jovem a vencer uma corrida (até 2008), Vettel vencendo e dedicando sua vitória (junto com a Ferrari) à Jules Bianchi, ou até um momento mais engraçado como Lando Norris quebrando um troféu quem nem era dele no pódio.

    Primeiras Vitórias.

    Esteban Ocon no primeiro lugar do pódio. Imagem: Folha UOL

    Hungaroring é especialmente memorável para dois pilotos, um que ainda corre na Fórmula 1, já que foram suas primeiras vitórias na categoria. Em 2006, Jenson Button (Honda) começaria a prova largando em 12º lugar, mas a corrida caiu nas mãos dele. Com abandonos durante a prova, safety car na pista, e resiliência, Button conquistou sua primeira vitória, na sua sétima temporada na categoria. 15 anos depois aconteceria mais uma vitória improvável em meio a uma corrida caótica.

    Esteban Ocon, que na época corria pela Alpine, largou em oitavo lugar no grid, conseguiu sobreviver no caos provocado por Valtteri Bottas, piloto da Mercedes em 2021. Depois de vários abandonos, causados por outros pilotos além de Bottas, aconteceu uma relargada inusitada, com só Lewis Hamilton, pilotando uma Mercedes, já que os outros pilotos tinham ido para o pit stop.

    Quando Hamilton foi para o box, Ocon assumiu a liderança. O piloto francês deu a vida para segurar Sebastian Vettel (Aston Martin), e contou também com a ajuda de seu colega de equipe, Fernando Alonso, que também segurava Hamilton. O resultado foi a felicidade grande para o francês nesse dia.

    Brasileiros no circuito.

    Além de Senna e Piquet, outros pilotos brasileiros correram no circuito húngaro, como Rubens Barrichello, Felipe Massa, Mauricio Gugelmin, Roberto Moreno, Christian Fittipaldi, Pedro Diniz, Ricardo Rosset, Tarso Marques, Ricardo Zonta, Enrique Bernoldi, Luciano Burti, Cristiano da Matta, Antonio Pizzonia, Nelsinho Piquet, Bruno Senna, Lucas di Grassi, Felipe Nars e Gabriel Bortoleto, atual representante brasileiro no grid da Fórmula 1.

    O risco perfeito.

    Com quase quarenta nos de história na Fórmula 1, a Hungria, que tinha mais uma atitude de se abrir para o mundo, se tornou palco de uma tradição no automobilismo de elite. Criar o circuito Hungaroring foi mais um ato arriscado na época, mas que hoje é motivo de orgulho para o país.

  • Resenha Monza 61, a maior tragédia da Fórmula 1

    Escritor detalha uma das piores tragédias da Fórmula 1

    Por Renata Resende

    Monza 61, livro do autor Américo Teixeira Junior/ Imagem: Amazon

    No dia 10 de setembro de 1961, o Autódromo de Monza estava lotado para o Grande Prêmio da Itália. A apaixonada torcida italiana vibrava com a iminente dupla conquista da Ferrari (Mundial de Pilotos e no de Construtores), mas um violentíssimo acidente, ainda na segunda volta, matou o líder do campeonato e principal favorito ao título, o alemão Wolfgang von Trips, e mais 16 pessoas. Esse trágico acidente é o tema do livro MONZA’61: A MAIOR TRAGÉDIA DA FÓRMULA 1, escrito pelo jornalista Américo Teixeira Junior, que relata não apenas o fato, mas também os acontecimentos que o antecederam, o perfil de cada uma das vítimas fatais e os caminhos da investigação por autoridades italianas.

    Escrito por Américo Teixeira Júnior, o livro retrata sobre um dos episódios mais trágicos da história da Fórmula 1. Um acidente que aconteceu no Grande Prêmio de Monza em 1961, e que não só deu fim a vida de um piloto, como também atingiu parte do público que estava eufórico vendo a corrida.

    Após descrever com detalhes o Circuito italiano de mesmo nome do livro, o autor segue descrevendo o acidente, colocando entre suas palavras, testemunhos de quem presenciou a tragédia. Américo também fala sobre as vítimas fatais, além do piloto da Ferrari, contando um pouco sobre quem elas eram e o porque estavam lá.

    Momento da tragédia em Monza/ Foto: GE Globo

    Começando pelo piloto, Wolfgang von Trips foi um alemão, filho único de um casal de Barões, que não queriam que o piloto seguisse essa carreira arriscada no automobilismo. Mas von Trips bateu o pé, seguiu seu caminho e se tornou uma importante figura para a Alemanha fragilizada pós-Segunda Guerra Mundial. Só depois de 14 anos da sua morte é que algum piloto alemão conseguiu subir no pódio.

    Logo após relembrar a trajetória de Wolfgang von Trips, Américo fala um pouco sobre um dos mais importantes circuitos da história da Fórmula 1: o Autodromo Nazionale di Monza. Esse circuito tem um enorme impacto para a Fórmula 1 e principalmente para os italianos. Não é surpresa que haja tanta festa lá quando a Ferrari ganha a corrida.

    O livro também não deixa de mencionar sobre a responsabilidade de Jim Clark, piloto da Lotus, envolvido no acidente. Os efeitos, dessa tragédia, também foram mencionados como uma das bases para a melhoria da segurança na Fórmula 1.

    A escrita do autor é fluída, deixando a leitura envolvente e rápida, e o livro também é curto. Para quem gosta desse mundo de Fórmula 1, quer se aprofundar mais e não tem muito tempo livre, esse livro se torna uma excelente escolha. Ele pode ser encontrado gratuitamente para quem tem assinatura no Kindle Unlimited.

  • SPA Francorchamps, um dos circuitos mais amados da Fórmula 1

    Circuito belga faz parte de momentos importantes na Fórmula 1.

    Por Renata Resende

    Circuito de Spa Francorchamps/ Imagem: F1 site oficial

    Tudo começou antes da 2ª Guerra Mundial, quando em 1921, Jules de Their e Henri Laglois Van Ophen decidiram se juntar para idealizar um circuito que seria um dos favoritos dos amantes de Fórmula 1. E a idealização saiu do papel, iniciando com um circuito não permanente, feito de estradas públicas e que faziam a pista ter, apenas, 15 km de extensão.

    Mas o circuito foi sendo alterado com o passar dos anos, e em 1983, ele foi reduzido para metade de seu comprimento. Na sua configuração atual, Spa Francorchamps ainda tem suas curvas rápidas, e com o clima instável que cerca o ambiente, pode ser que em uma área da pista esteja chovendo enquanto outra parte permaneça seca.

    Atualmente seu asfalto conta com quase 7 km de extensão e 20 curvas. O recorde de volta mais rápida é do britânicoLewis Hamilton, pela Mercedes em 2024. Já o recorde de vitórias é do alemão Michael Schumacher, com 6 vitórias para sua conta.

    Na história da Fórmula 1

    A Bélgica recebeu a Fórmula 1 bem no primeiro ano de estreia da categoria, e logo de cara, seu circuito Spa Francorchamps chamou a atenção das pessoas envolvidas nesse mundo das corridas. Mesmo considerado longo, com seu 15 km de comprimento, o circuito era rápido e exigia dos pilotos uma pilotagem rigorosa. 

    Com mudanças foram sendo feitas, surgiu entre elas, uma das curvas mais famosas e perigosas de todos os circuitos da Fórmula 1, a Eau Rouge. O nome dessa curva, leva duas das palavras que, para quem está começando a estudar francês, fazem parte de um vocabulário bem iniciante. Eau vem de água e Rouge vem da cor vermelha, e a curva tem realmente a ver com água vermelha. Isso porque, próximo a pista, tem um rio cheio de óxido de ferro nas pedras de seu leito, o que faz a água ter um tom avermelhado.

    É nessa curva que alguns pilotos chegaram a se acidentar, e infelizmente nem todos saíram vivos desses acidentes. E um dos que perderam a vida na Eau Rouge, foi Stefan Bellof.

    Embora o alemão não estivesse correndo numa corrida de Fórmula 1 e sim num Mundial de Carros-esporte no dia, Bellof era esperado para ser o primeiro campeão alemão de F1. Com apenas 27 anos, o piloto tentou pegar a liderança da corrida quando bateu de frente com o muro e morreu. 

    Pierre Gasly homenageando Anthoine Hubert/ Foto: Globo Esporte

    Anthoine Hubert, infelizmente, foi a vítima mais recente da Eau Rouge. Em 2019, o piloto francês que provavelmente faria parte da Fórmula 1, se envolveu em uma batida com Juan Manuel Correa (ATUALIZAR O ESTADO DELE), enquanto disputava uma etapa da Fórmula 2. Correa conseguiu se salvar, com um processo de recuperação foi longo, e voltou para as pistas.

    Pierre Gasly era amigo de Anthoine e frequentemente homenageia o piloto que corria pela F2.

    Brasil no circuito

    Gabriel Bortoleto e Nico Hulkenberg/ Foto: F1 site oficial

    Foram vários os pilotos brasileiros a correrem em Spa Francorchamps, mas só Ayrton Senna fez o hino brasileiro a tocar no pódio. Senna venceu por 4 anos consecutivos correndo pela McLaren naquele circuito, e no seu último pódio lá, teve companhia de Nelson Piquet (Benetton Ford).

    Além de Senna e Piquet, outros pilotos representaram o Brasil, mas não com performances melhores que Ayrton e Nelson. Alguns exemplos são, Raul Boesel (Ligier) que correu junto com Piquet com 1983, e Mauricio Gugelmin correu de 1988 até 1992, representando a March, a Leyton e a Jordan.

    Roberto Moreno também correu em Spa Francorchamps em 1991, sendo companheiro de equipe de Piquet, na Benetton, e ficando em 4º lugar. Não podia faltar também o sobrenome Fittipaldi, e foi Christian que representou sua família no circuito, correndo pela Minardi.

    Rubens Barrichello fez sua primeira participação em Spa em 1993, correndo pela Jordan e sua última corrida lá foi em 2011, com uma Williams. Pedro Diniz, Tarso Marques, Ricardo Zonta, Enrique Bernoldi, Antonio Pizzonia, Nelson Piquet Jr, Bruno Senna, Felipe Nars e Felipe Massa também fazem parte dessa lista de pilotos brasileiros.

    O último piloto a correr em Spa Francorchamps foi Gabriel Bortoleto, ainda pela Sauber no ano passado. E foi no Grande Prêmio da Bélgica que o brasileiro teve uma de suas melhores performances no ano. Bortoleto se classificou em décimo lugar para a largada e finalizou em nono, conseguindo pontuar na prova.

  • Autódromo de Ímola, fora do calendário, mas sempre na F1

    Por Renata Resende

    Autódromo Internacional Enzo e Dino Ferrari/ Imagem: Motorsport

    Grande Prêmio de San Marino ou Grande Prêmio da Emilia Romagna, não importa quais os nomes oficiais, mas os fãs de Fórmula 1 vão sempre chamar, essa etapa da F1, de Ímola. Esse GP acontece na Itália, no Autódromo Enzo e Dino Ferrari e é nessa pista que aconteceram momentos marcantes, bons e ruins, que ficam nas memórias dos fãs de Fórmula 1.

    Autódromo Enzo e Dino Ferrari/ Imagem: F1 site oficial

    O autódromo, que leva o nome dos Ferrari, foi construído lá na década de 1950, e no começo seu nome era Circuit de Santano. Após anos levando o nome do rio que delimitava o circuito, foi decidido que seu nome passaria para Circuit d`Imola, o que também fazia sentido por ser próximo da cidade italiana de mesmo nome, Ímola.

    Na década de 1970 vários trabalhos foram realizados, e o circuito mudou novamente seu nome. A partir de então ele passaria a ser chamado de Autódromo Dino Ferrari, em homenagem ao único filho do casal Ferrari. O autódromo seria renomeado de novo após a morte de Enzo Ferrari, sendo então chamado de Autódromo Enzo e Dino Ferrari. Agora, com o autódromo pronto, ele poderia receber a categoria de elite do automobilismo, a Fórmula 1.

    O primeiro GP de F1 aconteceu em 1980, algo que também aconteceu porque o Monza estava sob reformas. O autódromo ganhou o coração dos amantes da F1, mas em 1981 ele não poderia sediar mais o GP da Itália, devido a uma regra da categoria que não permitia que dois Grandes Prêmios poderiam ser realizados no mesmo país.

    Porém investidores burlaram essa regra. Como? Colocando o nome do GP com nome de outro país, um pequeno e encostado na Itália, chamado de San Marino. E deu certo. Sob o nome de GP de San Marino, o autódromo foi sediando corridas até 2006. Em 2020, as corridas de Fórmula 1 voltaria para Ímola, mas antes de partir para essa época atual, vale relembrar alguns momentos históricos.

    Traçado feroz da pista

    Acidente de Ayrton Senna/ Imagem: Aventuras na História

    O que tinha de emocionante no autódromo, tinha de perigoso. O traçado original tinha quase 5 km de asfalto e 20 curvas. Já em 1981, foram acontecendo mudanças como a introdução de uma chicane ali na Acque Minerali. Mas a pista era perigosa, e vários acidentes foram acontecendo até 1994, e só depois do pior ter acontecido que o autódromo foi fazer mudanças visando a segurança dos pilotos.

    Até 1994, a segurança da pista era questionada. Na sua primeira curva, a temida Tamburello, os pilotos corriam à quase 300 km/h e qualquer erro podia ser fatal. Naquela curva, vários pilotos se acidentaram, como aconteceu com o brasileiro Nelson Piquet (Williams). Em 1987, Piquet bateu com força e dali foi direto para o atendimento médico. O pai de Kelly Piquet sofreu traumatismo craniano, lesões no tórax, no tornozelo e perda de memória.

    Gerhard Berger, amigo próximo de Senna, foi outro piloto a se acidentar na Tamburello. Na batida, a Ferrari de Berger ainda pegou fogo, mas o austríaco só saiu com fissuras nos ossos. Em 1991, Michele Alboreto (Footwork) também bateu na mesma curva. No ano seguinte foi a vez de Riccardo Patrese (Williams) se ferir na Tamburello. Os próximos acidentes foram acontecer em 1994, e que infelizmente marcou o mundo, principalmente os brasileiros e austríacos.

    Depois das mortes violentas, de Ratzenberger e Senna, o traçado foi ainda mais alterado. A fim de fazer com que os pilotos virassem mais lentamente, foram acrescentadas variantes nas curvas da Tamburello e da Villeneuve. A Variante Bassa, onde o Rubens Barrichello (Jordan) se acidentou, também em 1994, deixou de existir. O local se transformou em uma chicane e teve suas zebras diminuídas.

    Grande Prêmio da Emilia Romagna

    O autódromo saiu do calendário da F1, acontecendo em 2006 o último Grande Prêmio de San Marino. Anos depois ele voltaria, mas com nome de GP diferente. Em 2020 aconteceu a pandemia que todos se lembram. O Coronavírus também atingiu a Fórmula 1, que teve que fazer ajustes no seu calendário.

    Num desses ajustes, acabaram trazendo o GP de Ímola de volta, como um tampão. Mas San Marino dessa vez não quis se envolver, e acabou retirando sua representação da F1. Como aquela regra de não poder ter dois Grandes Prêmios no mesmo país caiu por terra, eles decidiram então chamar a etapa de Grande Prêmio da Emilia Romagna, já que o autódromo fica na região da Emilia Romagna.

    O contrato ficou estabelecido então que Ímola sediaria o GP até 2025. Até a data dessa publicação, não se tem previsão de quando a Fórmula 1 voltará para o autódromo, mas numa carta aberta foi divulgada, pela direção da cidade de Ímola, sobre o fim do contrato com a categoria e deixa a entender que eles ainda tem esperança que a F1 volte para o autódromo.

  • 1957, o ano que a Fórmula 1 foi para Pescara

    Por Renata Resende

    Várias cidades e circuitos fazem parte da história da Fórmula 1, mas só uma cidade se destaca por ter o circuito mais longo já usado na categoria, o Circuito de Pescara. Com apenas 25,8 km de comprimento, o circuito de estrada, hoje desativado, recebe o mesmo nome da cidade onde acontece a largada e a bandeirada de chegada. Mas este circuito traz curiosidades interessantes, que faz com Pescara fique sempre marcada na história da F1.

    O Circuito de Pescara, Itália

    Circuito de Pescara/ Imagem: Globo Esporte

    Situada na Costa Adriática da Itália, Pescara é uma cidade cheia de praias ao longo da sua costa, e atrações para vários bolsos. Mas a cidade italiana não entrou no calendário da Fórmula 1 na temporada de 1957, por sua beleza, e sim como um Grande Prêmio reserva.

    O circuito tinha como configuração temporária quase o formato de um triângulo e passava por três cidades diferentes, o tornando um circuito de estrada. A largada acontecia em Pescara, passava por Cappelle sul Tavolo, Montesilvano e volta para Pescara para a linha de chegada. Com duas retas intermináveis, só os melhores pilotos tinham chance de vencer a corrida naquela estrada.

    Antes mesmo da Fórmula 1 chegar lá, acontecia a Coppa Acerbo, e na primeira corrida que aconteceu no circuito de Pescara, em 1924, quem levou a vitória para casa foi ninguém mesmo que Enzo Ferrari, pilotando uma Alfa Romeo. E foi também o Commendatore que se recusou a colocar seus carros para competirem no único Grande Prêmio de Pescara na Fórmula 1.

    Foram duas as teorias do porque Enzo Ferrari tomou essa decisão. Uma era que Ferrari estava protestando, indo contra as corridas de estrada porque ele tinha perdido o piloto Alfonso di Portago, na famosa corrida Mille Miglia. Essa prova que aconteceu em 1957 é retratada no filme Ferrari, lançado em 2023, e o di Portago é representado pelo ator brasileiro Gabriel Leone, que também interpretou Ayrton Senna na série da Netflix.

    A outra teoria é que Ferrari estava com medo de colocar seus pilotos no GP de Pescara, e eles acabarem se machucando durante a corrida, ou até acontecendo algum acidente fatal. E ele tinha motivo para isso. O circuito era bem perigoso e foi o primeiro a receber uma chicane artificial para quebrar a velocidade dos pilotos no trecho próximo ao Mar Adriático.

    O Grande Prêmio de Pescara, Fórmula 1, 1957

    Juan Manoel Fangio, Pescara, 1957/ Foto: Goodwood

    Mesmo Ferrari não querendo colocar seus pilotos e carros na prova, ele acabou cedendo um carro para o insistente Luigi Musso. O GP contou com 16 pilotos, com Juan Manoel Fangio na pole position. Musso que tanto quis competir com o carro da Ferrari, por conta própria foi um dos nove pilotos a não concluírem a prova por causa do problema de fuga de óleo do carro, que deixou rastro na pista.

    Fangio, que perdeu a pole para Stirling Moss, estragou uma das rodas de sua Maserati, dando uma folga para o britânico Moss. O incidente mais perigoso da prova foi quando Horace Gould, numa outra Maserati, atropelou um mecânico. Sobre o estado do mecânico, não foi encontrada nenhuma informação.

    Quando terminou a prova, Stirling Moss (Vanwall), Fangio (Maserati) e Harry Schell (Maserati) subiram ao pódio em primeiro, segundo e terceiro lugar respectivamente. A Maserati contou com dez dos dezesseis carros presentes na pista. As outras equipes a se inscreverem no Grande Prêmio (em inglês) foram a Vanwall, Cooper Climax e Luigi Mossi com uma Ferrari.

    Fim do Circuito de Pescara

    A última prova aconteceu em 1961, sendo uma corrida de Endurance. Devido a falta de segurança, tanto para os pilotos quanto para o público, o circuito foi desativado.

  • História do Circuito de Zandvoort na Fórmula 1

    Por Renata Resende

    Circuito de Zandvoort/ Foto: F1

    A semana é de Grande Prêmio no Brasil, mas se tem outro circuito que consegue trazer emoção perto do nível de Interlagos, é Zandvoort. Com Max Verstappen, piloto da Red Bull Racing, como representante, e também com cenas marcantes, o Grande Prêmio da Holanda chega a ser um dos mais esperados pelos amantes de Fórmula 1.

    O circuito que hoje conta com quase 4 km de extensão e 14 curvas, tem capacidade para receber em torno de 105 mil pessoas, com boa parte delas, se não a maioria, torcendo para a vitória de Max Verstappen (RBR).

    História do Circuito de Zandvoort

    Importante país no continente europeu, a Holanda, ou Países Baixos, tem uma grande história no mundo das corridas de automobilismo. Na década de 30 aconteceu a primeira corrida de carros da história holandesa, quando dia 3 de junho de 1939, entusiastas criaram o que seria o primeiro Grande Prêmio da Holanda (site em inglês). O sucesso foi tanto que decidiram criar um circuito permanente, para receber os próximos GPs, já que o primeiro aconteceu nas ruas da cidade de Zandvoort.

    Mas esse circuito permanente só seria criado após a 2ª Guerra Mundial. Na década de 40, com o terreno para a construção já escolhido, localizado entre dunas, se começa a construção do circuito em Zandvoort. Um dos projetistas do circuito foi o arquiteto Hans Hugenholtz, que tem esse e outros autódromos da Fórmula 1 no seu currículo de projetos.

    Embora o circuito de Zandvoort tenha sido inaugurado em 1948, a Fórmula 1 só foi ser recebida em 1952, num Grande Prêmio vencido por Alberto Ascari, pilotando uma Ferrari, e tendo dois brasileiros na disputa. Chico Landi (Maserati) terminou em nono lugar, enquanto o outro piloto brasileiro na pista, Gino Bianco (Maserati) não conseguiu terminar a corrida.

    Circuito em 1952/ Foto: Circuit Zandvoort

    Com 4,252 km de asfalto, o circuito original tinha 19 curvas e se manteve nessa configuração até 1989. No dia 24 de agosto de 1985, a Fórmula 1 realizou o último Grande Prêmio da Holanda antes da longa pausa que teria da categoria em Zandvoort. A pole da corrida foi conquistada por Nelson Piquet, que se tornou a última pole position da Brabham na Fórmula 1.

    Já no resultado final do GP, o pódio foi formado por Niki Lauda (McLaren) em primeiro fazendo uma dobradinha com Alan Prost (McLaren), e Ayrton Senna colocando a Lotus em terceiro lugar. Senna e Piquet foram os últimos pilotos brasileiros a competirem antes da volta da F1 para a Holanda.

    Brasil no Grande Prêmio da Holanda

    Bortoleto em Zandvoort/ Foto: F1 Mania

    O circuito de Zandvoort recebeu vários pilotos brasileiros além dos nomes já citados. A lista completa conta com os nomes de: Hermano da Silva Ramos, Carlos Pace, Wilson Fittipaldi, Emerson Fittipaldi, Alex Ribeiro, Raul Boesel, Chico Serra e Gabriel Bortoleto. Correndo em Zandvoort em 2025, Bortoleto não conseguiu seu melhor desempenho quando comparado a outras etapas da Fórmula 1, mas se manteve até o final da prova, largando de 15º e finalizando em 13º.

    E aí, alguma lembrança marcante envolvendo este circuito? Comenta ai em baixo: