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  • A Rússia do século XX: Da foice e do martelo até Putin no poder.

    A Rússia do século XX: Da foice e do martelo até Putin no poder.

    Passando pela queda da Dinastia Romanov e pelo Bloco Soviético, a história russa passou por revoluções, ideologias e transformações que ajudaram a moldar o mundo atual.

    O Domingo Sangrento. Imagem: DW.com

    Por Renata Resende

    Chega o século XX, e o mundo passa por transformações que deixariam pessoas, dos séculos anteriores, de queixo caído. E na Rússia não foi diferente. O país de maioria eslava passaria por mudanças que deixariam os varegues chocados. Um fim de czarado, revoluções estourando, territórios explorados que passavam até do limite do céu, e uma ideologia que interferiria do mundo inteiro. Mal sabia o czar Nicolau II o que ainda viria pela frente.

    Leia também: Rússia: da influência viking até o fim dos czares.

    O império cai.

    Czar Nicolau II. Imagem: O Globo.

    Quando Nicolau II assumiu o poder, decidiu fazer um luxuoso banquete para festejar sua coroação, mas essa ostentação não poderia ter vindo em um momento pior. Fora do palácio, os camponeses passavam fome, greves eram instauradas, a situação do país decaia cada vez mais. Poucos anos depois aconteceu uma manifestação, que começou pacífica, se tornou cena de um dos piores episódios da história russa, conhecido com o Domingo Sangrento (em inglês).

    Liderada pelo padre Georgy Gapon, o povo russo iniciou uma manifestação pacífica, desejando entregar ao czar mudanças que iriam melhorar a qualidade de vida deles. Sem violência, os russos carregavam itens religiosos e retratos de Nicolau, junto com as petições. Porém, ao chegarem no Palácio de Inverno, o sonho virou um pesadelo. O czar não se encontrava no palácio, e a força armada massacrou os manifestantes.

    A crise piorou, não importava a classe social, muitos já não queriam mais aquele governo desastroso. Revoltas estudantis, greves e alguns cidadãos até partiam para o terrorismo. A situação ficou tão feia, que aconteceram motins até dentro da força militar, apoiando a luta, conhecida como a Revolução de 1905 (em inglês).

    Sob coação, o czar fez promessas ao povo. Criou uma assembleia, a Duma, e disse que nenhuma lei entraria em vigor sem a aprovação da Duma. Mas o que ele realmente queria era seguir outros planos.

    Assim que a poeira baixou, Nicolau foi a fundo para recuperar seus poderes de autocrata. Aproveitando o momento, ele financiou a União do Povo Russo, uma organização de extrema direita, que disseminava até o antissemitismo no meio do povo.

    Guerra no mundo, revolução na Rússia.

    Quando a Primeira Guerra Mundial começou, a Rússia entrou no conflito não porque tinha sido atacada diretamente por alguma das potências centrais, mas sim dizendo apoiar sua aliada, a Sérvia. O czar decidiu fazer do limão uma limonada e usar o conflito para fortalecer o Estado, inflando o povo com um ideal nacionalista. Só não equipou o exército russo direito para as trincheiras.

    Com armamento e vestimentas defasadas, os russos foram para o campo de batalha, sofrendo mais do que outros soldados, que tinham um equipamento melhor. Para piorar (se é que dava), Nicolau achou que seria uma boa ideia ir pessoalmente assumir o comando militar, e deixar um buraco na administração do país. Além disso, a czarina Alexandra ficou sob mais influência de Rasputin, um curandeiro famoso que conquistou a confiança da família Romanov por ter ajudado o herdeiro do czar.

    Enquanto na guerra, soldados russos faziam o que podiam para lutar, no restante do território russo a crise piorava cada vez mais. A inflação subia e a população mal conseguia comprar o pão para sobreviver. Aconteceu então a Revolução de 1917, com greves e protestos em Petrogrado e grupos, como um de mulheres russas e até força militar aderiu, derrubando o poder aristocrático do czar.

    Nicolau não teve outra opção a não ser renunciar seu posto, e foi detido junto com sua família. Um governo provisório começa, mas a Rússia ainda não sai da guerra. A Alemanha, vendo toda a situação russa, decide colocar mais lenha na fogueira e facilita a volta de Vladimir Lenin para a Rússia, querendo que a instabilidade no país aumentasse e ele saísse do seu caminho.

    Agora sim os russos sairiam da guerra e, algum tempo depois, começaria uma mudança de sistema no país, começando uma União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

    O martelo e a foice.

    A bandeira do partido comunista sendo exibida. Imagem: CNN

    Inspirados pela ideologia de Karl Marx, Lenin e seus apoiadores começariam um novo regime no território multiétnico. Uma nova política econômica (NEP) (em inglês) tinha entrado em vigor antes da formação do bloco soviético e a Rússia estava conseguindo se recuperar economicamente. Mas ainda tinha problemas para resolver naquelas terras.

    A elite que apoiava o czarado não estava feliz com a situação e decidiu revidar, ou pelo menos tentar. Se o exército comunista seria conhecido como Exército Vermelho, os aristocratas, junto qualquer um que fosse antibolchevique (ou anticomunista), viriam com o Exército Branco.

    Junto com os nomes das armadas, começam também dois terrores, o Terror Branco e o Terror Vermelho, os nomes seguindo a lógica dos guerrilheiros. E quem levaria a pior continuaria a ser a população.

    Quando Lenin morre, o Partido Comunista chega a ser dividido, pois Josef Stalin e Leon Trotsky tinham ideias diferentes entre si, e só participavam do mesmo partido por causa de Lenin, chegando a se tornarem adversários políticos. Mas Stalin foi consolidando seu poder, e começaria com o governo que estudiosos chamam de “Stalinista”.

    De volta aos conflitos mundiais.

    Em 1939 começa o conflito mundial mais sangrento da história (até hoje), conhecido como a Segunda Guerra Mundial. Agora como URSS, o país entra como um importante fator para a derrota da Alemanha Nazista. Mas Stalin não começou na guerra como um inimigo declarado de Hitler.

    Antes de invadir a Polônia, a Alemanha e a URSS entram com um Tratado de Não Agressão, mas com uma entrelinha que só foi ser divulgada ao mundo anos depois. Com o Pacto Molotov-Ribbentrop, eles tinham a ideia era dividir o território polonês, mas não invadindo juntos o território pra não dar bandeira para o mundo.

    Hitler então invade a Polônia, e um tempo depois Stalin toma a outra parte do que era território de um país independente.

    Mais tarde, após ver sua tentativa de invasão a  Grã-Bretanha fracassar, já que os britânicos eram superiores do meio aéreo, o comandante alemão voltou seus olhos para a URSS e decidiu tentar tomar o território soviético. Assim como aconteceu com Napoleão, o Reich alemão também perdeu (os detalhes do acontecimento ficam para outra hora).

    A Segunda Grande Guerra acaba e a Europa fica em frangalhos. Os EUA e a URSS começam a ajudar a reconstruir o continente europeu, ao mesmo tempo que começam uma queda de braço para ver quem é mais forte. E começa a Guerra Fria.

    A URSS tenta espalhar o modelo comunista o tanto quanto pode, enquanto bate de frente com o sistema capitalista estadunidense. Enquanto essa guerra ideológica acontece, grandes avanços vão acontecendo principalmente na tecnologia e nos armamentos de batalha, mas os dois países nunca entraram definitivamente em guerra entre si.

    A URSS avançou, mas chegou uma hora que não deu conta de manter mais seu poder, e o governo soviético foi se desfazendo. Com o passar do tempo, nem abrindo sua economia para o mundo ou cedendo para o fim da censura, através de políticas como a Perestroika e da Glasnost, o território soviético conseguiu se manter por muito tempo.

    Quando o Pacto de Varsóvia é desfeito, em 1991, vários países são formados, e outros Estados, como a Hungria, voltam ter autonomia sobre si.

    Leia também: Hungaring: quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

    Fim de uma era.

    Em 1989 aconteceu uma das cenas mais memoráveis da história mundial. Sob um discurso confuso do dirigente da Alemanha Oriental, Günter Schabowski, o povo alemão, dividido entre oriental e ocidental, vai para as ruas de Berlim. O Muro que dividia a capital alemã deixaria de existir, e os alemães finalmente se reuniriam em uma só nação.

    Famílias e amigos, separados contra a vontade por uma guerra de ideologias entre dois países poderosos, finalmente iriam se encontrar, se abraçar, matar a saudade uns dos outros. Mais uma pá de cimento sobre o bloco socialista.

    Dois anos depois a URSS acabaria oficialmente, e vários novos países seriam formados. Voltando a ser Rússia, o país poderia estar fraco, mas não deixaria de ser a influência que tanto teve.

    Após o fim do bloco, aconteceu a primeira eleição, para eleger o presidente, de toda a história russa. Comandando a federação na transição entre socialismo e capitalismo, Boris Yelstin renuncia oito anos após sua eleição. Vladimir Putin foi o segundo presidente a ser eleito, chegando a ser reeleito em 2004, 2012, 2018 e 2024, quando provavelmente ficará no poder até 2030.

    Decisões geram consequências.

    Haas rescinde o contrato com Nikita Mazepin após a invasão da Ucrânia. Imagem: Team- BHP

    Dando um pulo no tempo, em 2022 a Rússia, sob o comando de Vladimir Putin, decide partir para cima da Ucrânia, sob algumas justificativas, como tentar desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia, entre outros motivos. Os ucranianos, por sua vez, não abaixam a cabeça e enfrentam com tudo de podem.

    Grande parte do mundo ficou indignado com uma situação dessas. E os russos não ficaram ilesos. A guerra dura até hoje (2026), e a Rússia sofreu várias sanções, principalmente econômicas.

    E uma das consequências dessa atitude foi a eliminação do país de dois dos principais eventos mundiais esportivos, a Copa do Mundo e a Fórmula 1.

    Na Copa do Mundo de 2022, alguns países chegaram a se recusar a jogar contra a Seleção russa nas eliminatórias. A Polônia foi um desses. Com rivalidade histórica, os poloneses se recusaram a disputar nas vagas de repescagem, e a FIFA deu uma vaga direta a Seleção Polonesa na final da repescagem.

    Na Fórmula 1, não só o Circuito de Sochi foi tirado do calendário, como a carreira de Nikita Mazepin também afetada. O russo pilotava pela Haas na época do começo da guerra, e teve o contrato rescidido.

    Mesmo depois de anos da queda dos Romanov, a Rússia nunca deixou ser um país importante no cenário mundial. Entrando e saindo de conflitos, a história mundial e a geopolítica estão sendo sempre influenciada pelos russos.