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  • Hungria: dos gramados da Copa do Mundo até o asfalto na Fórmula 1.

    Hungria: dos gramados da Copa do Mundo até o asfalto na Fórmula 1.

    Antes de sediar a Fórmula 1, a Hungria já fazia história no esporte mundial, proporcionando momentos incríveis para o mundo do futebol.

    Por Renata Resende

    Alemanha Ocidental e Hungria. Imagem: GE.Globo

    Destaque na história da Copa do Mundo por seus feitos impressionantes, a Seleção Húngara tem passado por altos e baixos, não conseguindo se classificar no torneio internacional desde 1986. Coincidência ou não, no mesmo ano em que deixava temporariamente a Copa do Mundo, sendo eliminada ainda na fase de grupos, estrearia em outro evento esportivo mundial, a Fórmula 1.

    O começo húngaro no gramado mundial.

    Em 1930 aconteceu a primeira das muitas edições da Copa do Mundo, com sede no Uruguai. E foi ali, nas terras uruguaias que o primeiro campeão foi consagrado. Com apenas 13 seleções disputando, a final foi entre dois vizinhos sul-americanos. Argentina e Uruguai se enfrentaram, com a seleção uruguaia fazendo a festa nas próprias terras. Mas a Hungria só entraria para a competição na sua segunda edição.

    Quatro anos após a primeira edição, a Hungria estreou num duelo contra o Egito, ganhando de 4 a 2 e conseguiu se classificar para as quartas, quando enfrentaria a outra metade do seu antigo império, a Áustria. Ali nas terras italianas, a Áustria levou a melhor, mas perdeu na semifinal para a dona da casa. Na própria capital, a Itália conquistaria a primeira de suas quatro estrelas da camisa.

    É Magyares na final!

    Seleção de Ouro da Hungria. Imagem: Imortais do Futebol.

    Na terceira edição da Copa do Mundo, a Hungria teria um de seus melhores resultados. Seu primeiro duelo seria contra a Indonésia, em que venceu e os húngaros fizeram a festa, já se preparando para a próxima fase, quando enfrentariam a Suíça.

    Passando pelos suíços, que não fizeram nenhum gol, a Hungria iria enfrentar a Suécia na semifinal. Pela primeira vez na sua história, eles chegaram à final do torneio, mas perderam o título para a Itália. Em 1954, a Hungria voltaria a enfrentar uma final, dessa vez com sua Seleção de Ouro.

    Ídolo do futebol húngaro, Ferenc Puskás liderava o time pelos gramados suíços. Batendo recordes nas goleadas contra a Coreia do Sul (9 a 0) e contra a Alemanha Ocidental (8 a 3), a Hungria foi apontada como uma das favoritas para ganhar a Copa de 54. Passando fase por fase, os “Magiares Mágicos” eliminaram, respectivamente, o Brasil e o Uruguai, antes de partirem para mais uma final.

    Com um gol de Puskás e outro de Czibor, a Hungria começou vencendo os alemães ocidentais, dando a impressão que a taça seria deles. Mas os alemães não abaixaram a cabeça. Morlok começou a dar esperança para a Seleção da Alemanha Ocidental, e Rahn empatou e virou o jogo. O jogo terminou com o placar Hungria 2 x 3 Alemanha Ocidental, entrando para a história como o “Milagre de Berna”. Infelizmente para os húngaros, esse foi o último melhor resultado para eles nas Copas do Mundo.

    A derrocada dos Magyares.

    Em 1958, a Hungria tentou retornar com tudo para a Copa do Mundo, mas foi eliminada ainda na fase de grupos, empatando apenas em um jogo contra o País de Gales, e sendo derrotada nos outros jogos do grupo.

    Em 1962, chegou nas quartas de final, mas perdeu para a antiga Tchecoslováquia. Quatro anos depois, os húngaros seriam eliminados de novo na mesma fase, mas dessa vez perdendo para a União Soviética. Depois disso, a Hungria só participaria de mais três edições das Copas, em 1978, 1982 e 1986, sendo eliminada na fase de grupos. Após 1986, a Seleção Húngara não conseguiu mais se classificar para o torneio mundial (até 2026).

    O futebol húngaro e a Revolução de 1956.

    Na década de 50, os húngaros se encontravam insatisfeitos com o atual regime comunista no país, e decidiram começar uma revolução. Infelizmente o resultado foi ruim para o país, já que a União Soviética massacrou a revolta. Foi nesse conflito que alguns jogadores, da Seleção de Ouro húngara, decidiram sair do país e continuar a jogar futebol em outros países, como o próprio Puskás, que migrou para a Espanha, chegando a jogar pelo Real Madrid e pela Seleção Espanhola.

    Puskás chegou a ser motivo de vergonha para os húngaros por causa dessa saída, sendo considerado um traidor, mas hoje ele é considerado o ídolo do país, assim como Pelé para o Brasil e Maradona para a Argentina. A contribuição dele para o futebol nacional e internacional foi tão grande, que tem estádio com seu nome na Hungria e a FIFA criou o Prêmio Puskás, para eleger o gol mais bonito do ano.

    Torcedores polêmicos.

    A torcida húngara, principalmente a “Carpathian Brigade”, esteve envolvido em polêmicas como racismo e homofobia, contra jogadores de outras seleções, como os ingleses. Na disputa entre Hungria e Inglaterra, alguns torcedores húngaros foram acusados de proferir insultos de cunho racial contra os jogadores Jude Bellingham e Marcus Rashford.

    Além dos casos de racismo, alguns desses torcedores foram também ligados a atos de homofobia, quando levaram uma bandeira no estádio escrito anti-LGBTQ, durante jogos da Seleção, como na imagem abaixo:

    Torcedores húngaros praticando homofobia. Imagem: GE.Globo.

    A Hungria chegou a ser punida pela UEFA (União das Federações Europeias de Futebol), tendo que disputar três jogos em casa com os portões fechados, mais uma multa de 100 mil euros e teria que exibir uma faixa escrita #EqualGame, junto com o logotipo da UEFA.

    Dos gramados ao asfalto.

    Mesmo não conseguindo se qualificar a anos na Copa do Mundo, a Hungria deixou sua marca no esporte, seja pela lendária Seleção de Ouro, seja na forma como o futebol é jogado até hoje. Enquanto não continua sua história nos gramados do principal torneio mundial, os húngaros permanecem no esporte internacional, deixando sua marca também no asfalto da Fórmula 1, mantendo sua tradição nos grandes eventos esportivos.

    Leia também: Hungaroring: Quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

  • Hungaroring: Quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

    Hungaroring: Quando a Fórmula 1 atravessou a Cortina de Ferro.

    A chegada da Fórmula 1 na Hungria socialista se tornou não só um marco para a história da categoria, como também do país.

    Por Renata Resende

    Hungaroring. Imagem:Band

    Num período de guerra, principalmente ideológica, como foi na Guerra Fria, ter a ideia de trazer um esporte característico do Ocidente capitalista para um país socialista, parece improvável não? Até um pouco absurda. Mas a Hungria não deixou que isso a impedisse de criar um circuito e levar a Fórmula 1 para as terras húngaras (em inglês).

    A história do país é marcante, como foi falada no post anterior, com vários altos e baixos ao longo dos tempos. Em 1986, a Hungria não queria viver mais sob o regime Comunista, e lutava pelo direito de eleger seus representantes. Num ano que já não estava sendo dos melhores, pela sua eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo, o país resolveu inovar, trazendo um esporte diferente (até da ideologia que governava na época), fazendo mais um ato de colocar o pé pra fora do bloco soviético.

    Entrando para a história.

    Senna e Piquet duelando na pista. Imagem: Globo Esporte.

    Então no dia 10 de agosto de 86, acontece o primeiro Grande Prêmio da Hungria, o grid de largada foi a felicidade brasileira. Ayrton Senna (Lotus Renault) consegue a melhor volta e pega a Pole Position. Em seguida vem Nelson Piquet, pilotando sua Williams Honda.

    Já durante a corrida, Senna até tentou segurar o compatriota, mas Piquet o ultrapassou com maestria. Depois de tentar ultrapassar Senna e levar um x na pista do mesmo, Piquet tenta de novo, com o carro quase escorregando no asfalto, mas se mantem na liderança. Inclusive, a primeira curva do circuito foi nomeada Piquet (em inglês), pois o pai de Kelly Piquet ganhou os dois primeiros Grandes Prêmios e também ultrapassou Senna nessa curva.

    Além dessa cena, outros momentos marcaram o circuito como Fernando Alonso se tornando o piloto mais jovem a vencer uma corrida (até 2008), Vettel vencendo e dedicando sua vitória (junto com a Ferrari) à Jules Bianchi, ou até um momento mais engraçado como Lando Norris quebrando um troféu quem nem era dele no pódio.

    Primeiras Vitórias.

    Esteban Ocon no primeiro lugar do pódio. Imagem: Folha UOL

    Hungaroring é especialmente memorável para dois pilotos, um que ainda corre na Fórmula 1, já que foram suas primeiras vitórias na categoria. Em 2006, Jenson Button (Honda) começaria a prova largando em 12º lugar, mas a corrida caiu nas mãos dele. Com abandonos durante a prova, safety car na pista, e resiliência, Button conquistou sua primeira vitória, na sua sétima temporada na categoria. 15 anos depois aconteceria mais uma vitória improvável em meio a uma corrida caótica.

    Esteban Ocon, que na época corria pela Alpine, largou em oitavo lugar no grid, conseguiu sobreviver no caos provocado por Valtteri Bottas, piloto da Mercedes em 2021. Depois de vários abandonos, causados por outros pilotos além de Bottas, aconteceu uma relargada inusitada, com só Lewis Hamilton, pilotando uma Mercedes, já que os outros pilotos tinham ido para o pit stop.

    Quando Hamilton foi para o box, Ocon assumiu a liderança. O piloto francês deu a vida para segurar Sebastian Vettel (Aston Martin), e contou também com a ajuda de seu colega de equipe, Fernando Alonso, que também segurava Hamilton. O resultado foi a felicidade grande para o francês nesse dia.

    Brasileiros no circuito.

    Além de Senna e Piquet, outros pilotos brasileiros correram no circuito húngaro, como Rubens Barrichello, Felipe Massa, Mauricio Gugelmin, Roberto Moreno, Christian Fittipaldi, Pedro Diniz, Ricardo Rosset, Tarso Marques, Ricardo Zonta, Enrique Bernoldi, Luciano Burti, Cristiano da Matta, Antonio Pizzonia, Nelsinho Piquet, Bruno Senna, Lucas di Grassi, Felipe Nars e Gabriel Bortoleto, atual representante brasileiro no grid da Fórmula 1.

    O risco perfeito.

    Com quase quarenta nos de história na Fórmula 1, a Hungria, que tinha mais uma atitude de se abrir para o mundo, se tornou palco de uma tradição no automobilismo de elite. Criar o circuito Hungaroring foi mais um ato arriscado na época, mas que hoje é motivo de orgulho para o país.