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  • Coreia, História em cinco Atos: Rumos diferentes.

    Coreia, História em cinco Atos: Rumos diferentes.

    Uma mesma península dividida por diferentes ideologias.

    Bandeiras das Coreias, do Norte à esquerda e do Sul à direita. Imagem: CNN Brasil.

    Por Renata Resende

    Depois que a trégua entre as duas Coreias foi firmada, ambas passaram por altos e baixos até se tornarem o que são hoje. Enquanto a Coreia do Norte se destaca no mundo geopolítico atual pela sua reclusão e seu programa nuclear, a Coreia do Sul se transformou numa grande exportadora cultural e passou a influenciar o mundo inteiro, principalmente com a indústria do K-pop e de doramas.

    Leia também: Coreia, História em cinco Atos: A Divisão.

    Cada Coreia com um rumo diferente, mas com uma semelhança entre si: a vontade das famílias de se unirem de novo.

    Coreia do Norte, a potência nuclear em ascensão.

    Kim Jong-il em uma indústria de munições. Imagem: O GLOBO

    Tendo uma vida melhor que os sul-coreanos, pelo menos por algum tempo, Kim Il-sung impôs ao país o Juche, uma ideologia que defendia que o país deveria ser autossuficiente, um tipo de socialismo, mas adaptado ao estilo coreano.

    O Estado assumiu o controle de todas as empresas privadas, ergueu monumentos cultuando o líder, passou a controlar da comunicação até as viagens para o exterior. E um novo sistema, o Songbun, foi introduzido à sociedade, muito parecido com as Castas indianas.

    De acordo com a ativista e acadêmica Yeonmi Park, para a BBC, “Songbun é o sistema no qual o seu valor é medido pelos méritos ou falhas de seus ancestrais e parentes”. Na prática, os descendentes de quem lutou pela pátria norte coreana, contra o inimigo, são pertencentes a classe superior, a Haeksim, e são os mais fiéis ao líder Kim. Claro, eles se beneficiam do bom e do melhor na capital Pyongyang. Tem também a classe inferior da sociedade, os Choktae.

    Os Choktae, ou hostis, são descendentes de proprietários de terras, comerciantes, cristãos e até de quem lutou “contra a Coreia”. Como o sangue deles é “impuro”, quanto mais longe ficarem da liderança, melhor. Como vivem em locais mais periféricos, não tem a mesma qualidade de vida que os “puros” que vivem na capital.

    Entre as classes sociais, existe uma que é considerada intermediária, a Dongyo. Com mais oportunidades que os Choktae, essa classe consegue viver pelo menos ao redor da capital, mas carrega sobre si o olhar desconfiado do Estado.

    A partir da década de 70, a situação norte-coreana começava aos poucos a se transformar. A prosperidade se estagnou, afinal a Coreia do Norte não tinha uma economia diversificada e era muito dependente dos soviéticos. Imagina o que aconteceu com o país quando acabou a URSS, seu maior apoiador econômico? Sim, deu pane no sistema.

    Na década de 90 os norte-coreanos viveram sua pior fase. A fome se instaurou, doenças se alastraram e a população foi perecendo. Em 1994, o líder morreu e deixou seu filho Kim Jong-il para controlar o país em decadência. O Estado lutava para controlar sua população esfomeada (em inglês), que buscava sobreviver acima de tudo, e alguns norte-coreanos se arriscavam, no mercado ilegal ou se refugiando em outros países como na China. Mas com o tempo a situação iria melhorar.

    Recebendo apoio econômico da Coreia do Sul (com limitações) e da China, o país começou aos poucos se recuperar, até 2009 chegar e mais um baque vir. O Estado resolveu acabar com a riqueza privada, o que atrapalhou a economia de novo, fazendo que os norte-coreanos que desconfiavam do regime, agora ficassem descrentes de vez.

    Em 2011, assumiu o atual líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un. E é sob o comando dele que aconteceu a “transformação milagrosa” na economia. Mas dessa transformação, os norte-coreanos teriam que enfrentar uma das piores crises mundiais que já aconteceram… a Covid-19.

    A pandemia fez ainda mais estrago no norte da península, junto com as sanções impostas pelo exterior a fim de parar o desenvolvimento nuclear do país. O cenário ficou tão grave que Kim Jong-un se pronunciou na TV, se mostrando abatido com a situação da Coreia do Norte. Mas agora a esperança voltaria para a parte norte da península.

    Quando a Rússia entrou em guerra com a Ucrânia, o líder norte-coreano aproveitou o momento, e continuou a desenvolver seu programa nuclear, e também começou a fornecer armamento e mão de obra para os russos. Os norte-coreanos foram obrigados a irem para a Rússia? Talvez, depende do ponto de vista, porque existem boatos de coerção.

    Enquanto a Coreia do Norte se aproveita da guerra russo-ucraniana para movimentar setores de produção (principalmente militar), nas fábricas que estavam com pó e teia de aranha, na parte sul da península, a economia se movimenta de outra forma.

    Coreia do Sul, exportadora da perfeição.

    Seul, Capital da Coreia do Sul. Imagem: Vogue- Globo.

    Até chegar a esse sucesso que faz no mundo inteiro, a Coreia do Sul também passou por perrengues desde o fim da Guerra da Coreia. Começando seu governo na base da ditadura, o primeiro presidente sul-coreano Syngman Rhee teve uma grande preocupação (além de lidar com os comunistas): levantar um país destroçado pela guerra.

    Até a década de 60, a Coreia do Sul recebia grande auxílio financeiro vindo de fora para reestabelecer a situação sul-coreana, mas eles não podiam ficar dependendo de ajuda para sempre. Então Rhee tomou uma atitude fundamental para a parte sul da península se tornar o que é hoje.

    Com uma política protecionista, e uma estratégia de substituição de importações, o presidente começou a mexer na economia do país. Mas Rhee não aguentou a pressão da população e renunciou, dando lugar para um governo parlamentarista, sob a liderança de Chang Myon. Após um ano de governo, Myon levou um golpe militar, cujo líder era o general Park Chung Hee.

    O general Park teve outra de ideia para desenvolver a economia sul-coreana e fez uma série de planos quinquenais, cada plano com um objetivo. O primeiro deles deu mais que o resultado esperado, com um aumento de exportações e indústrias com mão de obras intensivas. Além do setor da economia, o general se envolveu na Guerra do Vietnã, querendo reforçar laços com os EUA e recebendo empréstimo dos estadunidenses.

    Junto com o empréstimo norte-americano, o governo sul-coreano também recebeu empréstimos e subsídios do Japão, formalizando a acordo entre os dois países.  Era hora de começar o Segundo Plano Quinquenal, dessa vez focando na modernização da infraestrutura de suas indústrias. Partindo para o Terceiro Plano, o Estado priorizou o investimento nas indústrias voltadas para a exportação.

    Foram sete planos quinquenais no total, cada um deles voltado para um tipo de investimento, sendo que o quarto foi o único que não atingiu a meta estipulada, mesmo que o governo tenha investido bastante em tecnologia e mão de obra qualificada. Mas tem explicação para isso, e parte do fracasso aconteceu por causa da segunda crise do petróleo, e a Coreia do Sul dependia demais dessa fonte energética.

    Para piorar a situação, o general foi assassinado, e o próximo presidente que assumiu o comando, Choi Kyu-ha instaurou lei marcial (com a ajuda de Choi Kyu-ha), fazendo com que o país voltasse para a ditadura. Mas os planos quinquenais continuaram, fazendo com que a inflação caísse. Depois de 16 anos, voltaram as eleições democráticas, e Roh Tae-woo foi eleito.

    A ciência e a tecnologia avançaram, o governo deu mais assistências para pequenas e médias empresas, barreiras e restrições não tarifárias foram removidas e em 1992, o último plano foi formulado. O objetivo principal do Sétimo Plano Quinquenal era promover uma economia mais eficiente, mas o plano foi trocado pelo novo presidente eleito, Kim Young-sam (sim, nesse momento a península coreana era comandada por Kims).

    Agora o foco se voltava para desenvolver ainda mais a tecnologia. Pelo menos até uma nova crise chegar, e ela chegaria em 1997.

    As taxas de câmbio ficaram instáveis e investidores tiraram seus dólares da região asiática. Empresas coreanas, como a Kia Motors, iam entrar em processo de falência se o governo não tivesse intervindo. Através do Acordo contra falência, o governo obrigou os bancos a fazerem empréstimos extras, piorando ainda mais a economia sul-coreana. Mas ainda não era o fim da Coreia do Sul e ela ia ressurgir.

    Querendo amenizar o efeito da crise, a Coreia do Sul fez um acordo com o Fundo Monetário Internacional, conseguindo empréstimo em troca de reformas estruturais, o que incluía os Chaebols e qualquer outra instituição responsável pela crise. Agora guarda esse nome, Chaebols, porque esses caras foram fundamentais para a Coreia do Sul.

    Imagina comigo, um grupo familiar que é muito rico e é dono de empresas em vários setores econômicos de um país. Então, essa é a definição dos Chaebols. E esses grupos não ficam só na Coreia do Sul não, e eu tenho quase certeza que tem algum produto desses investidores na sua casa. Duvida? Você tá lendo esse post por onde? Pelo celular, computador… Samsung, LG? Agora quando sair na rua, repara se não tem um Hyundai HB20 passando por aí. Essas marcas que citei são só alguns exemplos dos Chaebols sul-coreanas famosas.

    Esses grupos só foram perder tanto poder no país quando teve a crise de 1997, quando muitas empresas faliram e acabaram desaparecendo do mapa, mesmo com o apoio do governo. Os Chabols que passaram pela crise influenciam fortemente o país até hoje.

    Para se recuperar e diversificar um pouco, a Coreia do Sul investiu em indústrias que gerariam exportação, com mais valor agregado. Adivinha um exemplo desse tipo de indústria? K-pop e dorama. E é aí que começa a influência cultural sul-coreana no mundo. Um exemplo de cultura que foi e ainda é muito exportada é o K-pop, que vai entrar em todas as áreas, inclusive no paddock da Fórmula 1.

    Mas aí você já sabe né? Isso é história para o próximo post, então, até lá!

  • Rússia: fora do asfalto e do gramado mundial.

    Rússia: fora do asfalto e do gramado mundial.

    País que sediou a Fórmula 1 e a Copa do Mundo, a Rússia hoje se encontra suspensa dos principais eventos esportivos mundiais.

    Grande Prêmio da Rússia. Imagem: F1.

    Por Renata Resende

    Durante oito temporadas, a Rússia fez parte do calendário da Fórmula 1, sediando em Sochi, mas o circuito ali presente não agradava tanto o público. A ideia era mudar a sede do GP, levando para o circuito de Igora Drive, em São Petersburgo em 2023, mas os planos foram cancelados um ano antes da transferência, quando começou a guerra.

    O ato de invadir Ucrânia desagradou o mundo, e uma das decisões contra a Rússia foi excluir o país, temporariamente, de eventos esportivos mundiais, como a Fórmula 1 e a Copa do Mundo.

    Início de um sonho, na prática nem tanto.

    Levar a F1 para a Rússia era uma ambição de Bernie Ecclestone, o então dono da categoria. Na verdade, seu desejo era levar o campeonato para a Rússia e para Nova York, e ele conseguiu apoio de Vladimir Putin para esse feito.

    Leia também: A Rússia do século XX: Da foice e do martelo até Putin no poder.

    Usando o parque olímpico, onde recebeu as Olimpíadas de Inverno de 2014, como cenário de construção, Hermann Tilke arquitetou o traçado do circuito.  Mas desde quando estreou no calendário, Sochi nunca tinha se tornado um dos GPs mais esperados pelos fãs.

    O circuito com curvas de 90 graus, não dava chance para muitas ultrapassagens, e o fato de só a Mercedes ter ganhado em todas as provas desde o primeiro GP russo, era só mais um ponto que desagradou do público. Era a chance de Putin levar o evento para sua cidade natal.

    Autódromo de Igora Drive, em São Petersburgo. Imagem: Ge Globo.

    Nascido em São Petersburgo, uma das cidades mais famosas da Rússia, o presidente tinha interesse em mudar a etapa de circuito e o governo russo fez uma pressão para que a etapa da F1 saísse de Sochi e fosse para São Petersburgo. Já em 2021, o anúncio foi feito e a partir de 2023, o GP da Rússia aconteceria em Igora Drive… até a guerra começar em 2022.

    Dias após a invasão russa sobre seu país vizinho, a FIA lançou um comunicado (em inglês), dizendo que a Rússia não iria sediar esportes automotivos por tempo indeterminado, incluindo a Fórmula 1. Decisão essa, apoiada por alguns pilotos da categoria de elite.

    Sebastian Vettel, que na época pilotava pela Aston Martin, já tinha afirmado que, havendo ou não o Grande Prêmio de Sochi, ele não iri participar da prova, se firmando contra a ação russa. A decisão também foi seguida pela McLaren.

    A equipe papaya tinha tido uma prova ruim na etapa russa de 2022 no país. Lando Norris estava liderando a corrida, mas por uma decisão ruim, de continuar com os pneus slick mesmo sob a chuva torrencial, Norris acabou derrapando na prova e entregando a liderança para Lewis Hamilton.

    Nessa mesma etapa, Hamilton conquistou sua centésima vitória na categoria, pela Mercedes. Vale lembrar que a equipe alemã tinha vencido todos os Grandes Prêmios da Rússia desde a estreia do país no calendário em 2014.

    Na época, a promotora do GP russo, Rosgonki, se pronunciou (em inglês), pedindo aos fãs que tinham comprado o ingresso não fazerem o reembolso ainda pois ainda havia esperança da corrida acontecer normalmente.

    Além da corrida ser cancelada, a Haas, equipe estadunidense também se posicionou na questão. Tirando as cores da bandeira russa do seu carro ainda na pré-temporada, quando rescindiu o contrato com a Uralkali (patrocinadora da equipe), e também encerrou o contrato com o piloto russo, Nikita Mazepin.

    Mas não seria só o asfalto que fecharia as portas para os russos. Nos gramados, a Rússia deixaria de ser bem vinda.

    Cartão vermelho para os russos.

    Seleção Russa em campo. Imagem: Band.

    Em 2022 também foi o ano de mais uma Copa do Mundo, e a Rússia enfrentaria um rival histórico nas eliminatórias da Copa, a Polônia.

    Os poloneses estavam indignados com seus rivais e decidiram não se dar o trabalho de lidar com eles no gramado mundial. A Seleção Polonesa se recusou a jogar com a russa nas repescagens (em inglês), mas conseguiu uma vaga direta para a final das eliminatórias, onde enfrentaria a Suécia.

    A Rússia, por outro lado, foi suspensa pela FIFA, indo do céu ao inferno, já que enquanto quatro anos antes sediava o maior evento mundial do futebol, agora estava sendo eliminada antes mesmo de participar da Copa.

    Em conjunto com a FIFA, a UEFA (Union of European Football Associations) também decidiu barrar a participação de times russos de  competições europeias, como na Champions League.

    Virando pesadelo.

    A ideia que a Rússia tinha em mente era ampliar sua participação no esporte mundial, mas seus planos foram por água abaixo em poucos anos, quando perdeu a chance de participar deles. Mas quem sabe num futuro próximo o país volte com tudo no cenário esportivo mundial, não é mesmo?