Uma mesma península dividida por diferentes ideologias.

Por Renata Resende
Depois que a trégua entre as duas Coreias foi firmada, ambas passaram por altos e baixos até se tornarem o que são hoje. Enquanto a Coreia do Norte se destaca no mundo geopolítico atual pela sua reclusão e seu programa nuclear, a Coreia do Sul se transformou numa grande exportadora cultural e passou a influenciar o mundo inteiro, principalmente com a indústria do K-pop e de doramas.
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Cada Coreia com um rumo diferente, mas com uma semelhança entre si: a vontade das famílias de se unirem de novo.
Coreia do Norte, a potência nuclear em ascensão.

Tendo uma vida melhor que os sul-coreanos, pelo menos por algum tempo, Kim Il-sung impôs ao país o Juche, uma ideologia que defendia que o país deveria ser autossuficiente, um tipo de socialismo, mas adaptado ao estilo coreano.
O Estado assumiu o controle de todas as empresas privadas, ergueu monumentos cultuando o líder, passou a controlar da comunicação até as viagens para o exterior. E um novo sistema, o Songbun, foi introduzido à sociedade, muito parecido com as Castas indianas.
De acordo com a ativista e acadêmica Yeonmi Park, para a BBC, “Songbun é o sistema no qual o seu valor é medido pelos méritos ou falhas de seus ancestrais e parentes”. Na prática, os descendentes de quem lutou pela pátria norte coreana, contra o inimigo, são pertencentes a classe superior, a Haeksim, e são os mais fiéis ao líder Kim. Claro, eles se beneficiam do bom e do melhor na capital Pyongyang. Tem também a classe inferior da sociedade, os Choktae.
Os Choktae, ou hostis, são descendentes de proprietários de terras, comerciantes, cristãos e até de quem lutou “contra a Coreia”. Como o sangue deles é “impuro”, quanto mais longe ficarem da liderança, melhor. Como vivem em locais mais periféricos, não tem a mesma qualidade de vida que os “puros” que vivem na capital.
Entre as classes sociais, existe uma que é considerada intermediária, a Dongyo. Com mais oportunidades que os Choktae, essa classe consegue viver pelo menos ao redor da capital, mas carrega sobre si o olhar desconfiado do Estado.
A partir da década de 70, a situação norte-coreana começava aos poucos a se transformar. A prosperidade se estagnou, afinal a Coreia do Norte não tinha uma economia diversificada e era muito dependente dos soviéticos. Imagina o que aconteceu com o país quando acabou a URSS, seu maior apoiador econômico? Sim, deu pane no sistema.
Na década de 90 os norte-coreanos viveram sua pior fase. A fome se instaurou, doenças se alastraram e a população foi perecendo. Em 1994, o líder morreu e deixou seu filho Kim Jong-il para controlar o país em decadência. O Estado lutava para controlar sua população esfomeada (em inglês), que buscava sobreviver acima de tudo, e alguns norte-coreanos se arriscavam, no mercado ilegal ou se refugiando em outros países como na China. Mas com o tempo a situação iria melhorar.
Recebendo apoio econômico da Coreia do Sul (com limitações) e da China, o país começou aos poucos se recuperar, até 2009 chegar e mais um baque vir. O Estado resolveu acabar com a riqueza privada, o que atrapalhou a economia de novo, fazendo que os norte-coreanos que desconfiavam do regime, agora ficassem descrentes de vez.
Em 2011, assumiu o atual líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un. E é sob o comando dele que aconteceu a “transformação milagrosa” na economia. Mas dessa transformação, os norte-coreanos teriam que enfrentar uma das piores crises mundiais que já aconteceram… a Covid-19.
A pandemia fez ainda mais estrago no norte da península, junto com as sanções impostas pelo exterior a fim de parar o desenvolvimento nuclear do país. O cenário ficou tão grave que Kim Jong-un se pronunciou na TV, se mostrando abatido com a situação da Coreia do Norte. Mas agora a esperança voltaria para a parte norte da península.
Quando a Rússia entrou em guerra com a Ucrânia, o líder norte-coreano aproveitou o momento, e continuou a desenvolver seu programa nuclear, e também começou a fornecer armamento e mão de obra para os russos. Os norte-coreanos foram obrigados a irem para a Rússia? Talvez, depende do ponto de vista, porque existem boatos de coerção.
Enquanto a Coreia do Norte se aproveita da guerra russo-ucraniana para movimentar setores de produção (principalmente militar), nas fábricas que estavam com pó e teia de aranha, na parte sul da península, a economia se movimenta de outra forma.
Coreia do Sul, exportadora da perfeição.

Até chegar a esse sucesso que faz no mundo inteiro, a Coreia do Sul também passou por perrengues desde o fim da Guerra da Coreia. Começando seu governo na base da ditadura, o primeiro presidente sul-coreano Syngman Rhee teve uma grande preocupação (além de lidar com os comunistas): levantar um país destroçado pela guerra.
Até a década de 60, a Coreia do Sul recebia grande auxílio financeiro vindo de fora para reestabelecer a situação sul-coreana, mas eles não podiam ficar dependendo de ajuda para sempre. Então Rhee tomou uma atitude fundamental para a parte sul da península se tornar o que é hoje.
Com uma política protecionista, e uma estratégia de substituição de importações, o presidente começou a mexer na economia do país. Mas Rhee não aguentou a pressão da população e renunciou, dando lugar para um governo parlamentarista, sob a liderança de Chang Myon. Após um ano de governo, Myon levou um golpe militar, cujo líder era o general Park Chung Hee.
O general Park teve outra de ideia para desenvolver a economia sul-coreana e fez uma série de planos quinquenais, cada plano com um objetivo. O primeiro deles deu mais que o resultado esperado, com um aumento de exportações e indústrias com mão de obras intensivas. Além do setor da economia, o general se envolveu na Guerra do Vietnã, querendo reforçar laços com os EUA e recebendo empréstimo dos estadunidenses.
Junto com o empréstimo norte-americano, o governo sul-coreano também recebeu empréstimos e subsídios do Japão, formalizando a acordo entre os dois países. Era hora de começar o Segundo Plano Quinquenal, dessa vez focando na modernização da infraestrutura de suas indústrias. Partindo para o Terceiro Plano, o Estado priorizou o investimento nas indústrias voltadas para a exportação.
Foram sete planos quinquenais no total, cada um deles voltado para um tipo de investimento, sendo que o quarto foi o único que não atingiu a meta estipulada, mesmo que o governo tenha investido bastante em tecnologia e mão de obra qualificada. Mas tem explicação para isso, e parte do fracasso aconteceu por causa da segunda crise do petróleo, e a Coreia do Sul dependia demais dessa fonte energética.
Para piorar a situação, o general foi assassinado, e o próximo presidente que assumiu o comando, Choi Kyu-ha instaurou lei marcial (com a ajuda de Choi Kyu-ha), fazendo com que o país voltasse para a ditadura. Mas os planos quinquenais continuaram, fazendo com que a inflação caísse. Depois de 16 anos, voltaram as eleições democráticas, e Roh Tae-woo foi eleito.
A ciência e a tecnologia avançaram, o governo deu mais assistências para pequenas e médias empresas, barreiras e restrições não tarifárias foram removidas e em 1992, o último plano foi formulado. O objetivo principal do Sétimo Plano Quinquenal era promover uma economia mais eficiente, mas o plano foi trocado pelo novo presidente eleito, Kim Young-sam (sim, nesse momento a península coreana era comandada por Kims).
Agora o foco se voltava para desenvolver ainda mais a tecnologia. Pelo menos até uma nova crise chegar, e ela chegaria em 1997.
As taxas de câmbio ficaram instáveis e investidores tiraram seus dólares da região asiática. Empresas coreanas, como a Kia Motors, iam entrar em processo de falência se o governo não tivesse intervindo. Através do Acordo contra falência, o governo obrigou os bancos a fazerem empréstimos extras, piorando ainda mais a economia sul-coreana. Mas ainda não era o fim da Coreia do Sul e ela ia ressurgir.
Querendo amenizar o efeito da crise, a Coreia do Sul fez um acordo com o Fundo Monetário Internacional, conseguindo empréstimo em troca de reformas estruturais, o que incluía os Chaebols e qualquer outra instituição responsável pela crise. Agora guarda esse nome, Chaebols, porque esses caras foram fundamentais para a Coreia do Sul.
Imagina comigo, um grupo familiar que é muito rico e é dono de empresas em vários setores econômicos de um país. Então, essa é a definição dos Chaebols. E esses grupos não ficam só na Coreia do Sul não, e eu tenho quase certeza que tem algum produto desses investidores na sua casa. Duvida? Você tá lendo esse post por onde? Pelo celular, computador… Samsung, LG? Agora quando sair na rua, repara se não tem um Hyundai HB20 passando por aí. Essas marcas que citei são só alguns exemplos dos Chaebols sul-coreanas famosas.
Esses grupos só foram perder tanto poder no país quando teve a crise de 1997, quando muitas empresas faliram e acabaram desaparecendo do mapa, mesmo com o apoio do governo. Os Chabols que passaram pela crise influenciam fortemente o país até hoje.
Para se recuperar e diversificar um pouco, a Coreia do Sul investiu em indústrias que gerariam exportação, com mais valor agregado. Adivinha um exemplo desse tipo de indústria? K-pop e dorama. E é aí que começa a influência cultural sul-coreana no mundo. Um exemplo de cultura que foi e ainda é muito exportada é o K-pop, que vai entrar em todas as áreas, inclusive no paddock da Fórmula 1.
Mas aí você já sabe né? Isso é história para o próximo post, então, até lá!
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