Tag: Coreia do Norte

  • Coreia, História em cinco Atos: o K-Pop nas pistas da Fórmula 1.

    Coreia, História em cinco Atos: o K-Pop nas pistas da Fórmula 1.

    Atualmente a Fórmula 1 não tem mais no calendário o Grande Prêmio da Coreia do Sul, mas os ídolos coreanos marcam presença no asfalto, não pilotando, mas fazendo parte da trilha sonora da velocidade.

    Lewis Hamilton e Rosé no box da Ferrari, no Grande Prêmio de Miami/ Imagem: F1 Instagram.

    Por Renata Resende

    O ano era 2012 e um dos videoclipes mais acessados, no YouTube, vinha da Coreia do Sul. O sucesso do Psy, com a música Gangnam Style, seria só uma amostra do que viria a ser o K-pop no mundo, chegando até ao paddock da Fórmula 1.

    Voltando na história…

    O que hoje se tornou uma das indústrias mais importantes na Coreia do Sul, o K-Pop é fruto  de uma tentativa de resgate de nacionalidade num país destroçado.

    Quando o Império Japonês invadiu a Coreia (em inglês), os japoneses deram o máximo de si para acabarem com qualquer vestígio de identidade coreana.

    Leia também: Coreia, História em cinco Atos: Resistência Cultural.

    A música coreana também seria influenciada nesse tempo, e mesmo que reprimida por seus invasores, a Huimangga entraria para a história daquele povo, como uma canção de esperança.

    Embora os japoneses tenham feito algum avanço naquelas terras, como na construção de uma malha ferroviária, os coreanos foram reprimidos e só se veriam livres quando a Segunda Guerra Mundial acabasse. Mas a felicidade coreana nao viria tão fácil.

    Momento da Guerra da Coreia./ Imagem: BBC.

    A queda dos japoneses foi sentida também na Coreia, e para piorar, o país ainda se veria divido entre as maiores potências vindas com a Guerra Fria. O território coreano, em acordo com os EUA e a URSS, foi governado e divido no paralelo 38. Não demorou muito tempo para que houvesse tentativa de reunificação, mas como o post sobre a Guerra da Coreia mostrou, o estrago feito foi sentido pela península inteira.

    Leia também: Coreia, História em cinco Atos: A Divisão.

    Leia também: Rússia do século XX: Da foice e do martelo até Putin no poder.

    Agora além dos japoneses, os coreanos seriam influenciados também pelos ritmos musicais vindos junto com os soldados estadunidenses.

    Na tentativa de se distrairem naquele cenário de guerra, soldados estadunidenses teriam como atração, cantores coreanos interpretando músicas que viam das terras americanas. Trazendo elementos do jazz, hip hop e outros estilos musicais dos EUA, os sons dos dois países foram se misturando o que viria a ser o K-Pop.

    Batidas misturadas e coreografias inesquecíveis.

    Kim Sisters se apresentando./ Imagem: Vanity Fair.

    Ainda nos bailes frequentados pelos soldados ocidentais, surgiria um dos primeiros grupos musicais sul-coreanos. Formado pelas duas irmãs e a prima, Kim Sook-ja, Kim Ai-ja e Lee Min-ja, o conjunto The Kim Sisters (em inglês) fizeram um sucesso estrondoso, chegando entrar nas paradas da Billboard.

    Os jovens, da parte sul da península, viriam a gostar de um tipo de música mais animada, dançante e moderna, o que foi um desagrado para o governo ditador da década de 70.

    Certas músicas com letras que desagradavam o Estado chegaram a serem censuradas. Mas a repressão não deu certo e esse novo estilo musical que surgia veio para ficar.

    Outro grupo musical que foi uma forte influência na cultura coreana foi o grupo Seo Taiji and Boys. Com uma proposta diferenciada, eles trouxeram uma apresentação guiada com uma coreografia complexa e sincronizada. O estilo de roupa, mais despojado também influenciou o guarda-roupa dos jovens, e alguém viu o potencial comercial disso e resolveu investir pesado nessa música.

    Grupo coreano Seo Taiji and Boys./ Imagem: Spotify.

    Lee Soo-man percebeu o potencial que viria do K-Pop e criou a SM Entertinment, uma das empresas mais forte nessa indústria coreana. Investindo em um grupo de 5 coreanos, o H.O.T, Lee começou toda essa história de indústria de produzir ídolos coreanos, que ficariam treinando por anos e sendo preparados para o sucesso mundial.

    Dos palcos sul-coreanos para trilha sonora da F1.

    Uma das artistas mais famosas da Coreia do Sul, Rosé entrou para a trilha sonora do filme F1, estrelado por Brad Pitt e Damson Idris, com a música Messy. Além de entrar no álbum oficial, a cantora já vinha marcando presença no paddock e até na narração brasileira ela era citada.

    Rosé, nasceu na Nova Zelândia mas foi na Coreia do Sul que começou sua trajetória musical. A cantora estreou pelo Blackpink, conjunto musical formado também por Lisa, Jisoo e Jennie.

    Além de Rosé, outros artistas coreanos também marcam presença no paddock da Fórmula 1, como Lisa, outra das integrantes do Blackpink, e o grupo Enhypen foi convidado pela Red Bull Racing a estar no Grande Prêmio de Singapura em 2025. Mas mencionar K-Pop na Fórmula 1, não se pode esquecer a abertura icônica do Grande Prêmio da Coreia do Sul em 2012.

    Perfeição fabricada.

    Assim como na Fórmula 1, a indústria do K-Pop constrói uma imagem perfeita para seus artistas, pressionando-os a terem a conduta ideal em qualquer área de suas vidas. O programa de treinamento para os futuros ídolos sul-coreanos chega a ser tão intenso, que acontecem notícias de abuso.

    Os jovens que entram para esse meio, trabalham por horas em coreografias e passam por procedimentos estéticos para ficar no mais perfeito padrão possível.

    Além da pressão para continuarem sendo perfeitos, mesmo com a fama já conquistada, esses artistas têm a vida pessoal afetada, sendo controlados até na vida amorosa, já que o ideal é não se envolverem com outras pessoas.

    Quem sabe um dia.

    O circuito sul-coreano não é o mais famoso ou mais agraciado pelos fãs da F1, mas quem sabe um dia ele volte a ser palco da categoria de elite do automobilismo. Mas uma coisa é certa, a Coreia do Sul pode não sediar mais um GP de Fórmula 1, mas isso não quer dizer que ela fique de fora de seu paddock.

  • Coreia, História em cinco Atos: Rumos diferentes.

    Coreia, História em cinco Atos: Rumos diferentes.

    Uma mesma península dividida por diferentes ideologias.

    Bandeiras das Coreias, do Norte à esquerda e do Sul à direita. Imagem: CNN Brasil.

    Por Renata Resende

    Depois que a trégua entre as duas Coreias foi firmada, ambas passaram por altos e baixos até se tornarem o que são hoje. Enquanto a Coreia do Norte se destaca no mundo geopolítico atual pela sua reclusão e seu programa nuclear, a Coreia do Sul se transformou numa grande exportadora cultural e passou a influenciar o mundo inteiro, principalmente com a indústria do K-pop e de doramas.

    Leia também: Coreia, História em cinco Atos: A Divisão.

    Cada Coreia com um rumo diferente, mas com uma semelhança entre si: a vontade das famílias de se unirem de novo.

    Coreia do Norte, a potência nuclear em ascensão.

    Kim Jong-il em uma indústria de munições. Imagem: O GLOBO

    Tendo uma vida melhor que os sul-coreanos, pelo menos por algum tempo, Kim Il-sung impôs ao país o Juche, uma ideologia que defendia que o país deveria ser autossuficiente, um tipo de socialismo, mas adaptado ao estilo coreano.

    O Estado assumiu o controle de todas as empresas privadas, ergueu monumentos cultuando o líder, passou a controlar da comunicação até as viagens para o exterior. E um novo sistema, o Songbun, foi introduzido à sociedade, muito parecido com as Castas indianas.

    De acordo com a ativista e acadêmica Yeonmi Park, para a BBC, “Songbun é o sistema no qual o seu valor é medido pelos méritos ou falhas de seus ancestrais e parentes”. Na prática, os descendentes de quem lutou pela pátria norte coreana, contra o inimigo, são pertencentes a classe superior, a Haeksim, e são os mais fiéis ao líder Kim. Claro, eles se beneficiam do bom e do melhor na capital Pyongyang. Tem também a classe inferior da sociedade, os Choktae.

    Os Choktae, ou hostis, são descendentes de proprietários de terras, comerciantes, cristãos e até de quem lutou “contra a Coreia”. Como o sangue deles é “impuro”, quanto mais longe ficarem da liderança, melhor. Como vivem em locais mais periféricos, não tem a mesma qualidade de vida que os “puros” que vivem na capital.

    Entre as classes sociais, existe uma que é considerada intermediária, a Dongyo. Com mais oportunidades que os Choktae, essa classe consegue viver pelo menos ao redor da capital, mas carrega sobre si o olhar desconfiado do Estado.

    A partir da década de 70, a situação norte-coreana começava aos poucos a se transformar. A prosperidade se estagnou, afinal a Coreia do Norte não tinha uma economia diversificada e era muito dependente dos soviéticos. Imagina o que aconteceu com o país quando acabou a URSS, seu maior apoiador econômico? Sim, deu pane no sistema.

    Na década de 90 os norte-coreanos viveram sua pior fase. A fome se instaurou, doenças se alastraram e a população foi perecendo. Em 1994, o líder morreu e deixou seu filho Kim Jong-il para controlar o país em decadência. O Estado lutava para controlar sua população esfomeada (em inglês), que buscava sobreviver acima de tudo, e alguns norte-coreanos se arriscavam, no mercado ilegal ou se refugiando em outros países como na China. Mas com o tempo a situação iria melhorar.

    Recebendo apoio econômico da Coreia do Sul (com limitações) e da China, o país começou aos poucos se recuperar, até 2009 chegar e mais um baque vir. O Estado resolveu acabar com a riqueza privada, o que atrapalhou a economia de novo, fazendo que os norte-coreanos que desconfiavam do regime, agora ficassem descrentes de vez.

    Em 2011, assumiu o atual líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un. E é sob o comando dele que aconteceu a “transformação milagrosa” na economia. Mas dessa transformação, os norte-coreanos teriam que enfrentar uma das piores crises mundiais que já aconteceram… a Covid-19.

    A pandemia fez ainda mais estrago no norte da península, junto com as sanções impostas pelo exterior a fim de parar o desenvolvimento nuclear do país. O cenário ficou tão grave que Kim Jong-un se pronunciou na TV, se mostrando abatido com a situação da Coreia do Norte. Mas agora a esperança voltaria para a parte norte da península.

    Quando a Rússia entrou em guerra com a Ucrânia, o líder norte-coreano aproveitou o momento, e continuou a desenvolver seu programa nuclear, e também começou a fornecer armamento e mão de obra para os russos. Os norte-coreanos foram obrigados a irem para a Rússia? Talvez, depende do ponto de vista, porque existem boatos de coerção.

    Enquanto a Coreia do Norte se aproveita da guerra russo-ucraniana para movimentar setores de produção (principalmente militar), nas fábricas que estavam com pó e teia de aranha, na parte sul da península, a economia se movimenta de outra forma.

    Coreia do Sul, exportadora da perfeição.

    Seul, Capital da Coreia do Sul. Imagem: Vogue- Globo.

    Até chegar a esse sucesso que faz no mundo inteiro, a Coreia do Sul também passou por perrengues desde o fim da Guerra da Coreia. Começando seu governo na base da ditadura, o primeiro presidente sul-coreano Syngman Rhee teve uma grande preocupação (além de lidar com os comunistas): levantar um país destroçado pela guerra.

    Até a década de 60, a Coreia do Sul recebia grande auxílio financeiro vindo de fora para reestabelecer a situação sul-coreana, mas eles não podiam ficar dependendo de ajuda para sempre. Então Rhee tomou uma atitude fundamental para a parte sul da península se tornar o que é hoje.

    Com uma política protecionista, e uma estratégia de substituição de importações, o presidente começou a mexer na economia do país. Mas Rhee não aguentou a pressão da população e renunciou, dando lugar para um governo parlamentarista, sob a liderança de Chang Myon. Após um ano de governo, Myon levou um golpe militar, cujo líder era o general Park Chung Hee.

    O general Park teve outra de ideia para desenvolver a economia sul-coreana e fez uma série de planos quinquenais, cada plano com um objetivo. O primeiro deles deu mais que o resultado esperado, com um aumento de exportações e indústrias com mão de obras intensivas. Além do setor da economia, o general se envolveu na Guerra do Vietnã, querendo reforçar laços com os EUA e recebendo empréstimo dos estadunidenses.

    Junto com o empréstimo norte-americano, o governo sul-coreano também recebeu empréstimos e subsídios do Japão, formalizando a acordo entre os dois países.  Era hora de começar o Segundo Plano Quinquenal, dessa vez focando na modernização da infraestrutura de suas indústrias. Partindo para o Terceiro Plano, o Estado priorizou o investimento nas indústrias voltadas para a exportação.

    Foram sete planos quinquenais no total, cada um deles voltado para um tipo de investimento, sendo que o quarto foi o único que não atingiu a meta estipulada, mesmo que o governo tenha investido bastante em tecnologia e mão de obra qualificada. Mas tem explicação para isso, e parte do fracasso aconteceu por causa da segunda crise do petróleo, e a Coreia do Sul dependia demais dessa fonte energética.

    Para piorar a situação, o general foi assassinado, e o próximo presidente que assumiu o comando, Choi Kyu-ha instaurou lei marcial (com a ajuda de Choi Kyu-ha), fazendo com que o país voltasse para a ditadura. Mas os planos quinquenais continuaram, fazendo com que a inflação caísse. Depois de 16 anos, voltaram as eleições democráticas, e Roh Tae-woo foi eleito.

    A ciência e a tecnologia avançaram, o governo deu mais assistências para pequenas e médias empresas, barreiras e restrições não tarifárias foram removidas e em 1992, o último plano foi formulado. O objetivo principal do Sétimo Plano Quinquenal era promover uma economia mais eficiente, mas o plano foi trocado pelo novo presidente eleito, Kim Young-sam (sim, nesse momento a península coreana era comandada por Kims).

    Agora o foco se voltava para desenvolver ainda mais a tecnologia. Pelo menos até uma nova crise chegar, e ela chegaria em 1997.

    As taxas de câmbio ficaram instáveis e investidores tiraram seus dólares da região asiática. Empresas coreanas, como a Kia Motors, iam entrar em processo de falência se o governo não tivesse intervindo. Através do Acordo contra falência, o governo obrigou os bancos a fazerem empréstimos extras, piorando ainda mais a economia sul-coreana. Mas ainda não era o fim da Coreia do Sul e ela ia ressurgir.

    Querendo amenizar o efeito da crise, a Coreia do Sul fez um acordo com o Fundo Monetário Internacional, conseguindo empréstimo em troca de reformas estruturais, o que incluía os Chaebols e qualquer outra instituição responsável pela crise. Agora guarda esse nome, Chaebols, porque esses caras foram fundamentais para a Coreia do Sul.

    Imagina comigo, um grupo familiar que é muito rico e é dono de empresas em vários setores econômicos de um país. Então, essa é a definição dos Chaebols. E esses grupos não ficam só na Coreia do Sul não, e eu tenho quase certeza que tem algum produto desses investidores na sua casa. Duvida? Você tá lendo esse post por onde? Pelo celular, computador… Samsung, LG? Agora quando sair na rua, repara se não tem um Hyundai HB20 passando por aí. Essas marcas que citei são só alguns exemplos dos Chaebols sul-coreanas famosas.

    Esses grupos só foram perder tanto poder no país quando teve a crise de 1997, quando muitas empresas faliram e acabaram desaparecendo do mapa, mesmo com o apoio do governo. Os Chabols que passaram pela crise influenciam fortemente o país até hoje.

    Para se recuperar e diversificar um pouco, a Coreia do Sul investiu em indústrias que gerariam exportação, com mais valor agregado. Adivinha um exemplo desse tipo de indústria? K-pop e dorama. E é aí que começa a influência cultural sul-coreana no mundo. Um exemplo de cultura que foi e ainda é muito exportada é o K-pop, que vai entrar em todas as áreas, inclusive no paddock da Fórmula 1.

    Mas aí você já sabe né? Isso é história para o próximo post, então, até lá!

  • Coreia, História em cinco Atos: A Divisão.

    Coreia, História em cinco Atos: A Divisão.

    O povo coreano dividido.

    Fronteira paralelo 38 durante a Guerra da Coreia. Imagem: BBC

    Por Renata Resende

    Finalmente, depois de longos anos de dominação e sofrimento causados pelos japoneses, os coreanos finalmente estariam livres para voltarem a viver sua identidade milenar, tomar conta do próprio país sem que uma potência estrangeira desse opinião no que não era de sua conta. A Coreia voltaria a ser uma nação unida, com um longo caminho de restauração pela frente e viveria em paz, como num conto de fada… a ilusão é uma coisa linda né?

    Leia também: Coreia, História em cinco Atos: Resistência Cultural.

    Tá, a parte de se livrarem do Japão realmente se concretizou, mas dois anos antes do Império se render, já tinha acontecido uma reunião lá no Egito para, entre suas pautas, definir o futuro da Coreia. Estavam presentes na Conferência do Cairo, Winston Churchill (o da “Cortina de Ferro”), Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA e Chiang Kai-chek, presidente da China (em Inglês). Um britânico, um estadunidense e um chinês, mas nenhum coreano para decidir o destino de seu país.

    A ideia era tornar a Coreia independente, e em 1945 aconteceu mais uma conferência em Ialta, com o objetivo de assegurar o fim da Segunda Guerra Mundial e repartir territórios em os Aliados, e acabou ficando acertado que a península iria entrar na zona de influência soviética, é claro, se a URSS ajudasse a derrotar o Japão (como se os russos precisassem de mais motivos para derrotar os japoneses).

    Então o exército vermelho foi para a Coreia, ocupando boa parte no norte, e parou, ali no paralelo 38, para aguardar a chegada dos norte americanos. Os EUA estavam ressabiados, desconfiados das intenções soviéticas e mandou tropas para a parte sul coreana.

    O medo estadunidense era que a URSS quisesse ocupar território mais do que estava acordado entre eles. O Stalin até poderia pensar em pegar mais terras coreanas, mas o russo estava com atenção voltada para o Leste Europeu destruído pós Segunda Guerra Mundial.

    Mais uma conferência aconteceu, a de Potsdam, e no meio das pautas, os Aliados acabaram dividindo a península. Os coreanos ficaram indignados, porque depois de vários anos de sofrimento, ia chegar gente de fora, de novo, para decidir coisas e sequer pedir a opinião deles. “Uai, como assim?! Vocês querem mandar no nosso território, dividir e ainda colocar uma parte comunista e a outra capitalista?! Que absurdo é esse?!”, essa foi mais ou menos a linha de pensamento deles (o mineirês é só para dar uma charme a mais).

    No ano seguinte a situação coreana não estava das melhores. Greves, revoltas, a situação civil piorava cada vez mais. Mesmo tendo negociações, a situação não se resolveu e os EUA mostraram o cenário para a ONU. E a organização deu sua ideia para tentar resolver a situação: realizar eleições para eleger uma Assembleia Nacional Coreana. Aí foi a vez da URSS ficar indignada. Bateu de frente com a ONU e disse que na sua área não ia ter eleição não e que quem decidia a situação coreana eram o signatários do Acordo do Cairo. Mas tiveram eleições, dos dois lados da Coreia, embora cada uma com seus termos.

    Paralelo 38: dividindo terra e política.

    A península coreana se tornou oficialmente dois Estados, com dois governos diferentes em 1948. No Norte, se formou a República Popular Democrática da Coreia (só reconhecida pela URSS e satélites),sob o comando do comunista Kim Il-sung, e no Sul se formou a República da Coreia, com Syngman Rhee sendo o presidente.

    O governo sul-coreano era anticomunista, então qualquer um que partilhasse desse ideal soviético podia ir embora, por bem ou por mal. Rhee era um cara muito próximo dos ideais estadunidenses e também muito linha dura com quem não tinha a mesma opinião.

    Coreanos se rebelando não seria o único problema para Rhee.

    Em 1949, a maioria das tropas estadunidenses voltaram para casa, já que os EUA e a Coreia do Sul não acreditavam que a ameaça comunista fosse mais que guerrilhas. E alguém se enganou.

    Cruzando a fronteira.

    O fato de qual das Coreias ter cruzado o paralelo 38 primeiro é discutido entre autores. Uns acreditam que foram os sul-coreanos que fizeram arte primeiro, enquanto outros acreditam que a atitude veio do Norte. Retalhando ou não, Kim Il-sung ordenou que o exército comunista ocupasse o sul da península. Os sul-coreanos não estavam preparados para o estrago que estava por vir.

    Tecnicamente a Guerra da Coreia pode ser dividida em três partes: ataque, contra-ataque e impasse. Na primeira fase foi quando as tropas norte coreanas cruzaram a linha do paralelo 38. O ataque surpresa fez com que quase toda a península coreana ficasse sob o poder de Kim Il-sung. O líder comunista tinha chegado até pedir apoio a Stalin, mas o soviético disse que poderia ajudar na logística, mas não entraria na guerra diretamente.

    Com a maior parte do território sob domínio de Kim, a ONU quis dar sua resposta, e assim começaria a segunda parte do conflito: o contra-ataque.

    Desembarque capitalista.

    A verdade é que os EUA estavam preocupados com o avanço comunista na península e até onde a influência soviética chegaria, mais especificamente se chegaria no Japão. A ideia de Stalin chegando no Japão, de qualquer forma que seja, arrepiava os pelos na nuca dos norte americanos, afinal poderia atrapalhar sua posição no Pacífico.

    A ONU também condenava a invasão, e no dia 25 de junho de 1950, foi assinado a Resolução 82, exigindo que os norte coreanos saíssem da parte sul. Como a URSS disse que não ia interferir na guerra coreana, os outros países da ONU assinaram a Resolução 83, que recomendou uma ajuda militar a fim de acabar com o conflito.

    Os EUA então mandam, para a península, uma força expedicionária sob o comando do General MacArthur. Sofrendo com ataques e bombardeios, as tropas da Coreia do Norte tiveram que recuar. Entre as batalhas mais famosas, está a de Incheon, que foi um estrago e tanto para os comunistas. A capital Seul agora voltou para o controle da Coreia do Sul.

    O general MacArthur, depois de seus grandes feitos, ficou com a autoestima muito alta, e depois de mandar os comunistas de volta para o norte, e foi autorizado a intervir na Coreia do Norte. A China entrou na história, dizendo que ia entrar na guerra se os estadunidenses cruzassem o paralelo 38. Até então só estava ajudando a Coreia do Norte, mas sem declarar guerra, sabe? Mas a ONU fingiu que não escutou e colou os pés no norte.

    Lembra que eu disse que a autoestima do general norte americano estava muito alta? Então, ele achou que a guerra estava praticamente ganha e mandou mensagem para Truman, dando a ideia de já que estavam ali, podiam dar uma ida na China para acabar com os inimigos de uma vez só. O presidente dos EUA não aprovou, e o general fingiu que não escutou (na verdade ele não podia ignorar a ordem do presidente, mas ficou contrariado).

    Ni-hao (olá em mandarim) para todos.

    Enquanto as tropas norte americanas chegavam, a China estava só olhando e desgostando cada vez mais da aproximação ocidental na sua fronteira. Agora sim os chineses entrariam para valer na guerra, e eles estavam ótimos para agirem na surdina. As forças da ONU tentavam atacar os soldados chineses, mas quem disse que conseguiam eles? O exército da China só marchava durante a noite e a camuflagem era top de linha. Não eram os mesmos que bateram de frente com o Japão não.

    A URSS apoiava a Coreia do Norte, mas ao mesmo tempo estava evitando entrar em combate direto. Começou mandando mensagem para a China, pedindo o envio de reforço para combater as forças de ONU, e agora eles mesmos entrariam no conflito (não oficialmente, claro). Teve uma série de baixas para todos os lados, mas os chineses conseguiram mandar os EUA e companhia de volta para o outro lado do paralelo.

    Começou então a última parte da guerra, o impasse. Ataca de cá. ataca de lá e nada de algum lado avançar. A URSS mandou mais ajuda, os chineses continuaram com problema logístico, e o general MacArthur foi dispensado. Esse comandante já estava achando que tinha mais poder de decisão que o presidente dos EUA, e estava ameaçando destruir a China, caso ela não se rendesse. Até assunto de arma nuclear foi parar nesse papo.

    O Truman já era mais pessimista (ou realista?) e estava pendendo mais para um acordo de paz. Mais dois generais passaram pelo comando, sendo eles Ridgway e James Van Fleet. A China tenta atacar, é repelida, tenta de novo e seus planos não dão certo.

    Em julho de 1951 começaram as negociações para o armistício, mas a situação ainda continuava feia na guerra. Mas as baixas não “só” entre soldados batalhando nas trincheiras ou sendo bombardeados. A situação humanitárias nas Coreias piorava cada vez mais. Em 1953, os comunistas tentaram um último ataque às forças aliadas, que mais uma vez falhou. Era chegada a hora de acabar com isso.

    Trégua sim… paz definitiva não.

    Fronteira no paralelo 38 após a Guerra da Coreia. Imagem: BBC

    Foram três anos de guerra, com um saldo de três milhões de mortos. No dia 27 de julho de 1953, finalmente foi assinado o armistício entre as duas Coreias. A Guerra da Coreia terminou sem vencedores, com um cessar-fogo imediato. Surgiu então a Zona Desmilitarizada, que vai por toda a fronteira, e que deve ter largura de dois quilômetros para cada lado.

    Depois do fim da guerra, os países envolvidos puderam receber de volta os corpos dos combatentes que morreram em solo adversário, na chamada “Operação Glória”. As Coreias até hoje não convivem na santa paz, mas avanços na convivência foram feitos ao longo dos anos.

    Foi organizada, em 1953, a Comissão de Supervisão da Neutralidade das Nações, composta pela Suíça, Suécia, Tchecoslováquia e Polônia, que ficam com o cargo de monitorar a zona desmilitarizada e evitar mais conflitos.

    Ainda hoje, existem famílias separadas, assim como na Alemanha da Guerra Fria, mas que aos poucos vão retomando contatos, junto com as tentativas de reaproximação entre as Coreias.

    Os dois Estados dividindo a península coreana teriam rumos diferentes a partir do fim da Guerra da Coreia, e um deles entraria para a história da Fórmula 1, mas essa história fica para o próximo post, então até lá.