Coreia, História em cinco Atos: A Divisão.

O povo coreano dividido.

Fronteira paralelo 38 durante a Guerra da Coreia. Imagem: BBC

Por Renata Resende

Finalmente, depois de longos anos de dominação e sofrimento causados pelos japoneses, os coreanos finalmente estariam livres para voltarem a viver sua identidade milenar, tomar conta do próprio país sem que uma potência estrangeira desse opinião no que não era de sua conta. A Coreia voltaria a ser uma nação unida, com um longo caminho de restauração pela frente e viveria em paz, como num conto de fada… a ilusão é uma coisa linda né?

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Tá, a parte de se livrarem do Japão realmente se concretizou, mas dois anos antes do Império se render, já tinha acontecido uma reunião lá no Egito para, entre suas pautas, definir o futuro da Coreia. Estavam presentes na Conferência do Cairo, Winston Churchill (o da “Cortina de Ferro”), Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA e Chiang Kai-chek, presidente da China (em Inglês). Um britânico, um estadunidense e um chinês, mas nenhum coreano para decidir o destino de seu país.

A ideia era tornar a Coreia independente, e em 1945 aconteceu mais uma conferência em Ialta, com o objetivo de assegurar o fim da Segunda Guerra Mundial e repartir territórios em os Aliados, e acabou ficando acertado que a península iria entrar na zona de influência soviética, é claro, se a URSS ajudasse a derrotar o Japão (como se os russos precisassem de mais motivos para derrotar os japoneses).

Então o exército vermelho foi para a Coreia, ocupando boa parte no norte, e parou, ali no paralelo 38, para aguardar a chegada dos norte americanos. Os EUA estavam ressabiados, desconfiados das intenções soviéticas e mandou tropas para a parte sul coreana.

O medo estadunidense era que a URSS quisesse ocupar território mais do que estava acordado entre eles. O Stalin até poderia pensar em pegar mais terras coreanas, mas o russo estava com atenção voltada para o Leste Europeu destruído pós Segunda Guerra Mundial.

Mais uma conferência aconteceu, a de Potsdam, e no meio das pautas, os Aliados acabaram dividindo a península. Os coreanos ficaram indignados, porque depois de vários anos de sofrimento, ia chegar gente de fora, de novo, para decidir coisas e sequer pedir a opinião deles. “Uai, como assim?! Vocês querem mandar no nosso território, dividir e ainda colocar uma parte comunista e a outra capitalista?! Que absurdo é esse?!”, essa foi mais ou menos a linha de pensamento deles (o mineirês é só para dar uma charme a mais).

No ano seguinte a situação coreana não estava das melhores. Greves, revoltas, a situação civil piorava cada vez mais. Mesmo tendo negociações, a situação não se resolveu e os EUA mostraram o cenário para a ONU. E a organização deu sua ideia para tentar resolver a situação: realizar eleições para eleger uma Assembleia Nacional Coreana. Aí foi a vez da URSS ficar indignada. Bateu de frente com a ONU e disse que na sua área não ia ter eleição não e que quem decidia a situação coreana eram o signatários do Acordo do Cairo. Mas tiveram eleições, dos dois lados da Coreia, embora cada uma com seus termos.

Paralelo 38: dividindo terra e política.

A península coreana se tornou oficialmente dois Estados, com dois governos diferentes em 1948. No Norte, se formou a República Popular Democrática da Coreia (só reconhecida pela URSS e satélites),sob o comando do comunista Kim Il-sung, e no Sul se formou a República da Coreia, com Syngman Rhee sendo o presidente.

O governo sul-coreano era anticomunista, então qualquer um que partilhasse desse ideal soviético podia ir embora, por bem ou por mal. Rhee era um cara muito próximo dos ideais estadunidenses e também muito linha dura com quem não tinha a mesma opinião.

Coreanos se rebelando não seria o único problema para Rhee.

Em 1949, a maioria das tropas estadunidenses voltaram para casa, já que os EUA e a Coreia do Sul não acreditavam que a ameaça comunista fosse mais que guerrilhas. E alguém se enganou.

Cruzando a fronteira.

O fato de qual das Coreias ter cruzado o paralelo 38 primeiro é discutido entre autores. Uns acreditam que foram os sul-coreanos que fizeram arte primeiro, enquanto outros acreditam que a atitude veio do Norte. Retalhando ou não, Kim Il-sung ordenou que o exército comunista ocupasse o sul da península. Os sul-coreanos não estavam preparados para o estrago que estava por vir.

Tecnicamente a Guerra da Coreia pode ser dividida em três partes: ataque, contra-ataque e impasse. Na primeira fase foi quando as tropas norte coreanas cruzaram a linha do paralelo 38. O ataque surpresa fez com que quase toda a península coreana ficasse sob o poder de Kim Il-sung. O líder comunista tinha chegado até pedir apoio a Stalin, mas o soviético disse que poderia ajudar na logística, mas não entraria na guerra diretamente.

Com a maior parte do território sob domínio de Kim, a ONU quis dar sua resposta, e assim começaria a segunda parte do conflito: o contra-ataque.

Desembarque capitalista.

A verdade é que os EUA estavam preocupados com o avanço comunista na península e até onde a influência soviética chegaria, mais especificamente se chegaria no Japão. A ideia de Stalin chegando no Japão, de qualquer forma que seja, arrepiava os pelos na nuca dos norte americanos, afinal poderia atrapalhar sua posição no Pacífico.

A ONU também condenava a invasão, e no dia 25 de junho de 1950, foi assinado a Resolução 82, exigindo que os norte coreanos saíssem da parte sul. Como a URSS disse que não ia interferir na guerra coreana, os outros países da ONU assinaram a Resolução 83, que recomendou uma ajuda militar a fim de acabar com o conflito.

Os EUA então mandam, para a península, uma força expedicionária sob o comando do General MacArthur. Sofrendo com ataques e bombardeios, as tropas da Coreia do Norte tiveram que recuar. Entre as batalhas mais famosas, está a de Incheon, que foi um estrago e tanto para os comunistas. A capital Seul agora voltou para o controle da Coreia do Sul.

O general MacArthur, depois de seus grandes feitos, ficou com a autoestima muito alta, e depois de mandar os comunistas de volta para o norte, e foi autorizado a intervir na Coreia do Norte. A China entrou na história, dizendo que ia entrar na guerra se os estadunidenses cruzassem o paralelo 38. Até então só estava ajudando a Coreia do Norte, mas sem declarar guerra, sabe? Mas a ONU fingiu que não escutou e colou os pés no norte.

Lembra que eu disse que a autoestima do general norte americano estava muito alta? Então, ele achou que a guerra estava praticamente ganha e mandou mensagem para Truman, dando a ideia de já que estavam ali, podiam dar uma ida na China para acabar com os inimigos de uma vez só. O presidente dos EUA não aprovou, e o general fingiu que não escutou (na verdade ele não podia ignorar a ordem do presidente, mas ficou contrariado).

Ni-hao (olá em mandarim) para todos.

Enquanto as tropas norte americanas chegavam, a China estava só olhando e desgostando cada vez mais da aproximação ocidental na sua fronteira. Agora sim os chineses entrariam para valer na guerra, e eles estavam ótimos para agirem na surdina. As forças da ONU tentavam atacar os soldados chineses, mas quem disse que conseguiam eles? O exército da China só marchava durante a noite e a camuflagem era top de linha. Não eram os mesmos que bateram de frente com o Japão não.

A URSS apoiava a Coreia do Norte, mas ao mesmo tempo estava evitando entrar em combate direto. Começou mandando mensagem para a China, pedindo o envio de reforço para combater as forças de ONU, e agora eles mesmos entrariam no conflito (não oficialmente, claro). Teve uma série de baixas para todos os lados, mas os chineses conseguiram mandar os EUA e companhia de volta para o outro lado do paralelo.

Começou então a última parte da guerra, o impasse. Ataca de cá. ataca de lá e nada de algum lado avançar. A URSS mandou mais ajuda, os chineses continuaram com problema logístico, e o general MacArthur foi dispensado. Esse comandante já estava achando que tinha mais poder de decisão que o presidente dos EUA, e estava ameaçando destruir a China, caso ela não se rendesse. Até assunto de arma nuclear foi parar nesse papo.

O Truman já era mais pessimista (ou realista?) e estava pendendo mais para um acordo de paz. Mais dois generais passaram pelo comando, sendo eles Ridgway e James Van Fleet. A China tenta atacar, é repelida, tenta de novo e seus planos não dão certo.

Em julho de 1951 começaram as negociações para o armistício, mas a situação ainda continuava feia na guerra. Mas as baixas não “só” entre soldados batalhando nas trincheiras ou sendo bombardeados. A situação humanitárias nas Coreias piorava cada vez mais. Em 1953, os comunistas tentaram um último ataque às forças aliadas, que mais uma vez falhou. Era chegada a hora de acabar com isso.

Trégua sim… paz definitiva não.

Fronteira no paralelo 38 após a Guerra da Coreia. Imagem: BBC

Foram três anos de guerra, com um saldo de três milhões de mortos. No dia 27 de julho de 1953, finalmente foi assinado o armistício entre as duas Coreias. A Guerra da Coreia terminou sem vencedores, com um cessar-fogo imediato. Surgiu então a Zona Desmilitarizada, que vai por toda a fronteira, e que deve ter largura de dois quilômetros para cada lado.

Depois do fim da guerra, os países envolvidos puderam receber de volta os corpos dos combatentes que morreram em solo adversário, na chamada “Operação Glória”. As Coreias até hoje não convivem na santa paz, mas avanços na convivência foram feitos ao longo dos anos.

Foi organizada, em 1953, a Comissão de Supervisão da Neutralidade das Nações, composta pela Suíça, Suécia, Tchecoslováquia e Polônia, que ficam com o cargo de monitorar a zona desmilitarizada e evitar mais conflitos.

Ainda hoje, existem famílias separadas, assim como na Alemanha da Guerra Fria, mas que aos poucos vão retomando contatos, junto com as tentativas de reaproximação entre as Coreias.

Os dois Estados dividindo a península coreana teriam rumos diferentes a partir do fim da Guerra da Coreia, e um deles entraria para a história da Fórmula 1, mas essa história fica para o próximo post, então até lá.

Comentários

2 respostas a “Coreia, História em cinco Atos: A Divisão.”

  1. Avatar de Coreia, História em cinco Atos: Rumos diferentes. – Poliglota nas Pistas

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