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  • Etruscos: Itália antes dos Romanos.

    Etruscos: Itália antes dos Romanos.

    O começo da Itália, antes da influência Romana.

    Por Renata Resende

    Quando se fala em história da Itália, geralmente o que vem na mente é o grandioso império romano, as famosas figuras do Renascimento e até as Grandes Guerras contemporâneas em que os italianos participaram.

    Porém, o que muitos não sabem, é que os italianos tem antepassados que vão além dos antigos romanos. E uma das presenças mais marcantes, na formação do futuro povo italiano, foi a Civilização Etrusca.

    Povo originário.

    Arte etrusca. Imagem: Roma Pra Você

    Existia divergência sobre a origem dos Etruscos. Enquanto alguns historiadores acreditavam que esse povo era originário da Lídia (atual Turquia), outros pesquisadores partiam da ideia que os Etruscos sempre estiveram na península.

    De acordo com o site World Story, estudos de DNA confirmaram que os etruscos são originários daquele território. Mais especificamente, as cidades etruscas ficavam pelo litoral da península e pela região da atual Toscana.

    Os Etruscos foram uma das civilizações mais bem sucedidas do Mediterrâneo. Vivendo em cidades-estado, como os gregos antigos, eles não tinham uma fronteira limitada territorialmente, mas eram unidos pelo idioma e pela religião.

    A sua prosperidade vinha das terras férteis, das ferramentas agrícolas e dos ricos recursos minerais. E não dá para deixar de fora o fato que os etruscos eram ótimos comerciantes.

    Os etruscos tinham grande proximidade com os gregos (perdão, helenos). A influência, vinda da Grécia, podia ser vista desde o traje do exército até no idioma etrusco, mais especificamente no alfabeto.

    A queda.

    Assim como qualquer civilização da História Antiga, os Etruscos passaram por altos e baixos, mas no caso deles, a época de baixa foi seguida pelo “fim” desse povo.

    Mais ou menos no século V antes de Cristo, os Etruscos construíram extensas fortificações com torres e portões, querendo proteger suas cidades de uma possível ameaça militar. E a ameaça veio… com força.

    Roma ganhava cada vez mais força, e resolveu que a parte sul da península estava pequena demais. Os romanos olharam para as cidades etruscas, pensando em como conquistá-las.

    Os Etruscos por sua vez, tiveram que lidar com Roma vindo do sul, e ao norte, estavam sendo invadidos por tribos celtas. Foram aproximadamente 200 anos de guerras intermitentes. Mesmo com Tratados de Paz, o povo etrusco não conseguiu segurar a derrocada por muito tempo.

    Os romanos sempre foram resilientes, e quando perdiam, eles não abaixavam a cabeça, aprendiam com os erros e voltavam com tudo.

    Aproximadamente 80 a.C., os etruscos caíram e foram romanizados. O idioma etrusco foi substituído pelo Latim, e qualquer aspecto de sua cultura foi quase esquecida. Quase.

    Depois de 2.500 anos, tumbas decoradas e cheias de artefatos exóticos foram descobertas. E a cada descoberta, um pouquinho mais sobre os Etruscos é compreendido.

    Marca etrusca.

    Arte etrusca. Imagem: World History Encyclopedia

    Os homens tinham o poder, mas pelo menos as mulheres eram mais livres, principalmente quando comparadas com as espartanas ou as romanas. Não podiam participar da vida política, mas pelo menos podiam herdar propriedades e eram mais independentes.

    A religião era politeista, e o principal deus de seu panteão era Tin. Os etruscos se preocupavam tanto com seu futuro, que usavam entranhas dos animais, como o fígado, para tentar saber um pouco mais sobre o destino que estava por vir.

    Templos erguidos aos deuses, se tornaram traço característico de sua arquitetura. Dos tijolos de barro, os etruscos foram evoluindo para o uso de pedras e colunas toscanas.

    Assim como os egípcios, as tumbas dos membros da elite eram pintadas. Os temas dessas artes variavam entre dança, música, esportes e qualquer evento de maior importante para eles.

    Foi do povo Etrusco, que os romanos pegaram a ideia de fazer procissões quando venciam alguma batalha. Palavras do idioma foram adicionadas ao Latim, e a língua etrusca chegou a influênciar idiomas do norte europeu.

    Fontes consultadas

    CARTWRIGHT, Mark. Civilização Etrusca. Tradução de Ana Carolina de Sousa. World History Encyclopedia, 18 jun. 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-206/civilizacao-etrusca/

    RODRIGUES, Luciana. Etruscos: uma civilização evoluída da Itália Antiga. Roma Pra Você, atualizado em 17 jul. 2024. https://romapravoce.com/etruscos-civilizacao-evoluida/

  • Monza: tristeza, alegria e Sará perché ti amo.

    Monza: tristeza, alegria e Sará perché ti amo.

    Voltando da década de 60 até as lágrimas de alegria em 2026.

    Tifosi no Grande Prêmio da Itália. Imagem: F1 Site oficial.

    Por Renata Resende

    O circuito de Monza sempre trouxe fortes emoções para qualquer amante de corridas, e com Enzo Ferrari e os fãs da sua escuderia não seria diferente. Em 2026, a canção Sará perchè ti amo foi a trilha sonora da vitória do italiano Kimi Antonelli, mas em 1961, a trilha sonora foi o choque dos fãs diante da tragédia.

    Leia também: Monza: uma história de glórias e tragédias.

    Monza 61.

    Yates descreve em sua biografia sobre Enzo Ferrari como o ano de 1961 estava sendo maravilhoso para o Commendatore Italiano. A Scuderia tinha conquistado a vitória nas 24 Horas de Le Mans . Na Fórmula 1, a equipe pilotada por Wolfgang von Trips e Phil Hill, estava sendo a melhor no campeonato, com seus dois pilotos disputando o campeonato de pilotos.

    A definição do título ficou para a etapa de Monza, mas ninguém contava com o estrago que aconteceria naquela prova.

    Jim Clark conseguiu ser o líder da prova, pilotando uma Lotus 21, e era perseguido por von Trips. Foi a caminho da Parabólica que a cena se desenrolou. Trips, freou bruscamente e a Ferrari e a Lotus se tocaram. Pra quê? Von Trips perdeu o controle da sua Ferrari 156, foi em direção ao público e o piloto alemão foi lançado para fora do bólido.

    O choque foi instantâneo.

    O jornalista Antônio Teixeira Neto conta, no livro Monza 61, como foi a tragédia, e fala não só sobre o piloto como também sobre as vítimas da tragédia. Infelizmente, quinze dos espectadores do público morreram, e algumas dezenas mais saíram feridas desse acidente.

    Leia também: Resenha Monza 61, a maior das tragédias da Fórmula 1.

    Consequentemente com a morte de Wolfgang von Trips, o campeão dos pilotos foi Phil Hill. Ainda no seu livro, Yates fala que Clark foi usado como um bode expiatório, embora tenha sido absolvido no julgamento, e que a culpa tecnicamente era da diligência da prova, que deixou aqueles espectadores ficarem vulneráveis diante do perigo iminente da corrida.

    Empate… na bandeirada final ?

    Em 1971, o autódromo de Monza foi palco de mais um momento icônico na Fórmula 1.

    No dia 5 de setembro de 1971, a F1 já tinha seu campeão definido, com Jackie Stewart vencendo pela Tyrrell na antepenúltima etapa. Quando chegou na corrida de Monza, não tinha mais aquela pressão de ganhar pontos, afinal, o resultado já estava feito.

    A Lotus de Emerson Fittipaldi (ainda não era a Lotus 72D) estava causando burburinhos no paddock. Se inscrevendo com o nome de World Wide Racing, a Lotus tentava evitar que o inovador e turbinado modelo 56B, ou qualquer outro equipamento fosse confiscado (consequência do acidente fatal de Jochen Rindt, um ano antes, também em Monza).

    O carro que Fittipaldi pilotava era inovador e turbinado, mas isso não queria dizer que era bom o suficiente para lutar pelo pódio.

    O Grande Prêmio da Itália chegou a ter os dois pilotos da Ferrari abandonando e ser liderado por oito pilotos diferentes ao longo da prova.

    Na hora da bandeirada, cinco pilotos cruzaram a chegada no mesmo segundo, com apenas milésimos de diferença entre eles. O vencedor da corrida, Peter Gethin (BRM) foi seguido por Ronnie Petterson (March Ford).

    Francois Cevert (Tyrrell Ford), Mike Hailwood (Surtees Ford) e Howden Ganley (BRM) fecharam o “Top 5” dos mais rápidos da prova. O brasileiro Fittipaldi terminou em oitavo. Uma curiosidade foi que um dos que abandonaram, além das Ferraris, foi então piloto Helmut Marko (também pilotando uma BRM).

    Monza agora viveria mais momentos inesquecíveis, mas dessa vez sob a pilotagem de um alemão guiando uma Ferrari. Uma dica? Foi homenageado no GP desse ano.

    Schumi, O cara da Scuderia.

    A Ferrari esse ano quis fazer aquela homenagem para Michael Schumacher, digna de arrancar lágrimas até dos fãs mais durões da F1. Colocou Rubens Barrichello e Sebastian Vettel para pilotarem o modelo F2002.

    No caso de Barrichello, ele teve a oportunidade de pilotar de novo o carro, já que em 2002 ele era companheiro de equipe de Schumacher.

    Pode-se dizer que 2002 foi um dos melhores anos para a Scuderia italiana, Das 17 provas competidas, 15 foram a alegria dos Tifosi. A etapa de Monza, foi uma das 4 vencidas pelo brasileiro (podendo ser uma das 5 se não fosse a “arte” feita pela Ferrari na Áustria).

    Schumacher venceu 11 corridas e conquistou seu pentacampeonato. A Scuderia trouxe de volta a pintura de 2002, para fazer referencia ao carro dominante. Mas nem precisa comentar que a homenagem ao piloto alemão terminou aí né? A prova de 2026, se pudesse, seria apagada da memória dos fãs e da equipe.

    Batendo na Parabólica e causando uma bandeira vermelha, Charles Leclerc foi parar no centro médico e precisará passar por mais exames antes do Grande Prêmio da Espanha, já neste final de semana.

    Mas o futuro papai monegasco não proporcionou apenas lembranças ruins para os Tifosi.

    Fratelli d’Italia no pódio.

    Charles Leclerc e a torcida tifosi no GP da Itália de 2024. Imagem: F1 Site oficial.

    Embora o Grande Prêmio da Itália seja, talvez, o mais importante para a Scuderia italiana, a Ferrari tem enfrentado jejuns de vitórias em Monza na Fórmula 1.

    Em 2010, Fernando Alonso garantiu a viória para os Tifosi, mas demorou 9 anos para que o hino Fratelli d’Italia fosse tocado de novo no pódio. Em 2019, Charles Leclerc tinha sido contratado pela Ferrari e conseguiu sua segunda vitória no campeonato em Monza (a primeira tido sido na Bélgica).

    Leclerc infelizmente aprendeu como funciona o box da equipe de Maranello e já sabe que a Ferrari não tem tanta chance de vencer quanto deveria (espero que a terapia esteja em dia). Porém, de vez em quando acontece um milagre na garagem vermelha, e em 2024 aconteceu.

    O GP da Itália daquele ano começou com a pole position de Oscar Piastri (McLaren) e os pilotos da Ferrari não tinham conseguido nem a primeira fila do grid. Charles Leclerc e Carlos Sainz pelo menos chegaram com estilo, usando aqueles macacões pretos inspirados no carbono.

    Mas um milagre aconteceu.

    Na 39ª volta, Leclerc assumiu a liderança e não soltou mais. Levou a Ferrari para o lugar mais alto do pódio, e quebrou mais um jejum de cinco anos sem vitória da equipe italiana em Monza (Que dia meu povo, que dia).

    Esse dia foi marcado também na memória dos argentinos, com Franco Colapinto estreando na Fórmula 1, trazendo o país latino para a categoria depois de 23 anos. O piloto conquistou até os brasileiros, não só pelo sobrenome diferenciado, mas também pelo desempenho na pista.

    Franco não só quase pontuou, como também questionou a teoria sobre o desempenho da Williams. Afinal, o carro era uma carroça, ou o desempenho ruim era na verdade responsabilidade do piloto Logan Sargeant?

    Sará perché ti amo.

    Kimi Antonelli comemorando com Senna no pódio. Imagem: Gazzetta di Milano.

    Kimi Andrea Antonelli, um moleque hoje com 20 anos, foi muito subestimado e pressionado quando estreou na Fórmula 1 numa equipe de ponta, a Mercedes, quando na Fórmula 2 nem tinha aquela performance.

    Substituindo o heptacampeão Lewis Hamilton, que tinha anunciado sua ida para a Ferrari, Antonelli não era o rookie mais habilidoso do grupo de novatos na F1 em 2025. O destaque ficava mesmo era para Isack Hadjar (RBR) e Gabriel Bortoleto, brasileiro que estreou pela Sauber (futura Audi) e que foi considerado por Helmut Marko como um “piloto B”.

    Mas Kimi se adaptou, e virou quase uma reencarnação do Senna. seu ídolo. O garoto atualmente lidera o campeonato de pilotos, e praticamente empurrou George Bottas (ops, Russell) para a brita da Mercedes (entendedores entenderão).

    Como se não estivesse tendo um desempenho fora da curva, o italiano ainda quebrou mais um jejum de Monza, levando o prêmio para a Itália depois de 60 anos. Ele fez a torcida da Ferrari virar a casaca, e teve até ferrarista exibindo a bandeira italiana com o escrito “Kimi Antonelli”.

    Mas posso falar a verdade aqui? Foi bonito ver o Pierre Gasly (Alpine) largando na pole position e a torcida italiana cantando Sará perché ti amo, canção de Ricchi e Poveri.

    Monza, nós te amamos.

    Não importa o time para qual torça, não dá para perder o Grande Prêmio da Itália que acontece em Monza. A cada ano é uma cena inesquecível, e que prova que o autódromo de Monza sempre estará no coração da Fórmula 1.

  • Monza: uma história de glórias e tragédias.

    Monza: uma história de glórias e tragédias.

    Da construção do circuito à chegada da Fórmula 1: as histórias que transformaram Monza em um dos templos do automobilismo.

    Kimi Antonelli vence o Grande Prêmio da Itália. Imagem: F1 site oficial.

    Por Renata Resende

    E Monza faz história mais uma vez no Grande Prêmio da Itália. Depois de 60 anos sem nenhum italiano ganhando um GP de Fórmula 1 em casa, Kimi Antonelli (Mercedes) fez os tifosi (torcedores da Ferrari) virarem a casaca, pelo menos temporariamente. Charles Leclerc (Ferrari), por sua vez, fez alguns fãs chorarem, quando bateu e ainda foi parar na instalação médica (mas ele passa bem, obrigada pela preocupação).

    Mas não é a primeira vez que os amantes da Fórmula 1 ficam eletrizados assistindo o desenrolar das cenas neste circuito italiano. Foram vários os momentos impactantes que aconteceram em Monza, alguns trazendo felicidade, outros trazendo tragédia. E tudo começou lá atrás, depois que acabou a Primeira Guerra Mundial.

    Benvenuti à década de 1920.

    Em 1922, uma grande obra começou a ser construída nos arredores de Milão, e ela se tornou um dos circuitos mais antigos e icônicos do calendário da Fórmula. A ideia, que partiu do Automobile Club de Milano, tinha pelo menos dois objetivos diferentes: ser um circuito permanente de testes para as montadoras italianas, e também para receber um Grand Prix internacional para rivalizar com o disputado na França.

    Na sua biografia sobre Enzo Ferrari (Ferrari: O homem por trás das máquinas) Brock Yates cita a construção da autódromo, e como ele faria parte da história do Commendatore italiano. Segundo Yates, Ferrari viu de perto a construção, enquanto ainda era piloto, porém curiosamente nunca chegou a protagonizar um momento bombástico pilotando naquele circuito. Mas Ferrari e Monza sempre estariam ligados um ao outro.

    O traçado original do circuito, que foi inaugurado no dia 3 de setembro de 1922, tinha quase 10 km de extensão. Seis anos após sua inauguração, foi preciso alterar o desenho devido à primeira das tragédias que abalaram Monza.

    O primeiro grande abalo.

    Há exatos 98 anos, no dia 9 de setembro de 1928, Emilio Materassi participaria de sua última corrida da vida. O piloto italiano tinha uma carreira já consolidada no automobilismo, e inclusive era dono da Scuderia Materassi, equipe que comprou da Talbot-Darracq. No Grand Prix da Itália de 1928, Materassi pilotava sua Talbot 700, e já começou a prova enfrentando problemas e precisando ir para o box duas vezes.

    Na décima sétima volta, Materassi perdeu o controle de seu carro quando tentou ultrapassar a Bulgatti de Giulio Foresti. O resultado foi uma tragédia, que envolveu mais pessoas além do piloto. Na tentativa de desviar o carro, Materassi saiu da pista, saltou sobre uma vala de proteção e atingiu o público. Dezenas de pessoas morreram praticamente na hora, e mais algumas se feriram, com uma chegando a morrer no dia seguinte e outra indo a óbito nove dias depois.

    Emilio Materassi tinha apenas 34 anos, quando deixou a esposa e duas filhas. Na sua sepultura, foi erguida uma estátua de bronze, obra do escultor Mario Ferretti. Com relação às outras vítimas do acidente, no site Motorsport Memorial tem uma lista dando nome a cada uma delas (link em inglês).

    Embora o acidente não tenha sido na parte oval do autódromo, esse trecho foi fechado na tentativa de reduzir as altas velocidades na reta principal. Em 1930, Vincenzo Florio, idealizador da corrida Targa Florio, teve uma ideia de alteração para o circuito. Usando a infraestrutura já existente, foi adicionada uma chicane e só a inclinação sul da pista era utilizada (em inglês).

    No dia 6 de setembro de 1931, aconteceu o quarto Grand Prix de Monza, e mais uma vez outro acidente aconteceu. Philippe Étancelin, pilotando um Alfa Romeo, tentou ultrapassar Giovanni Minozzi, mas perdeu o controle do carro, saiu da pista e também acertou alguns fãs (assistiam a corrida num local proibido). Ao contrário das vítimas, entre elas duas mortas, Étancelin saiu apenas levemente lesionado, mas devastado e inocentando Minozzi de qualquer culpa.

    Em 1933, o circuito original mostrou mais uma vez o quão perigoso era, praticamente pedindo para ser alterado de novo.

    O Dia Negro de Monza.

    Era 10 de outubro de 1933, o Grande Prêmio de Monza trouxe mais uma memória perturbadora para o automobilismo. A sequência de acontecimentos que se prosseguiu foi tão intensa para Enzo Ferrari, que Yates fez questão de falar sobre esse GP em seu livro.

    A prova, que seria realizada em três baterias, aconteceu na parte oval da pista. Um dia antes, alguns pilotos, entre eles os dois mais icônicos da época, Tazio Nuvolari e Luigi Fagioli, desistiram de participar da competição. O dia frio, ameaçando chover, parecia avisar sobre a tragédia que aconteceria.

    Ainda na primeira bateria, o piloto Felice de Trossi abandonou a corrida, pois seu carro (Duesenberg Special) deu um problema no motor, e ao que parece, deixou uma poça de óleo na pista, bem no meio da curva sul. Guy Moll, que terminou em segundo lugar, exigiu que alguma providência fosse tomada sobre esse óleo. Antes que a segunda bateria começasse, a mancha de óleo foi limpa com vassouras e teve um revestimento de areia. Mas não foi o suficiente para evitar os próximos momentos.

    Então começou a segunda parte da prova. Giuseppe Campari pilotava um Scuderia P3, e competia lado a lado contra Baconin Borzacchini (Maserati), e desapareceram da vista dos espectadores, e junto com eles, também não haviam notícias de Nando Barbieri e o conde Castelbarco. Como esses pilotos não voltavam, surgiu um boato que talvez eles tivessem se acidentado. Infelizmente, o boato se concretizou.

    Campari e Borzacchini tinham tocado as rodas dos carros e sido lançados para a cerca de arame do campo interno. Borzacchini se feriu gravemente e morreu horas depois, enquanto Campari faleceu na hora. Os outros dois pilotos também considerados desaparecidos voltaram praticamente ilesos.

    Segundo Yates, as mortes de Giuseppe Campari e Baconin Borzacchini abalaram o senhor Ferrari, que considerava os dois pilotos como companheiros. A partir daquele momento, Enzo Ferrari fecharia seu coração para os pilotos, com apenas um ou outro piloto atravessando a barreira do Commendatore.

    Prenúncio de Guerra.

    Após essas tragédias acontecerem, era hora de dar um jeito naquele autódromo. A pista era rápida demais para o seu próprio bem. O engenheiro Aldo di Rionzo foi o responsável pelas alterações, e demoliu a parte oval do autódromo. A Curva de Lesmo foi alterada e o pedido da Pirelli por um trecho de testes foi aceito. Instalações para os fãs também foram feitas, como a arquibancada para 2000 pessoas e um restaurante no térreo.

    Quando estava chegando a hora de ver se as melhorias feitas dariam realmente certo, as corridas precisaram ser paralisadas … e a Segunda Guerra Mundial bateu na porta.

    A cidade de Monza foi ocupada em 1943, pelos alemães, e o circuito também foi afetado. O que antes era um autódromo, agora se tornou um depósito de arquivos e até mesmo dos animais retirados do zoológico de Milão. Quando a guerra acabou, o circuito de Monza precisaria passar por mais uma reforma se quisesse voltar a receber corridas.

    O asfalto da pista foi danificado pelo desfile de blindados dos Aliados. Mas dessa vez a reforma foi rápida, durando apenas dois meses e o autódromo voltou a ter a carinha de pista de corrida. Construído sobre concreto armado e com uma nova curva parabólica. Mais melhorias foram feitas, agora sendo construídas duas grandes torres com placares luminosos, mostrando cada posição da corrida ao longo da pista.

    Senhoras e senhores, bem-vindos à Fórmula 1.

    Grande Prêmio da Fórmula 1 em 1950. Imagem BBC.

    Era 1950 quando aconteceu a primeira temporada do campeonato oficial da Fórmula 1, e claro que o circuito de Monza sediaria uma das sete etapas da categoria.

    No dia 3 de setembro, era a última prova da temporada e a briga do título estava entre Nino Farina e Juan Manuel Fangio. A lenda argentina, Fangio, até conseguiu a pole position, mas logo na largada foi ultrapassado por Farina. Vencendo em casa, Nino conquistou o campeonato com apenas três pontos de diferença para Fangio, fazendo a festa da torcida italiana.

    Desde 1950, Monza vem recebendo a Fórmula 1, sendo um dos circuitos mais antigos do calendário a estar presentes desde o início do campeonato. Infelizmente, onze anos após seu início, a F1 veria uma das piores tragédias de sua história acontecendo em Monza. Mas essa história fica para o próximo post, te aguardo lá.

  • Autódromo de Ímola, fora do calendário, mas sempre na F1

    Por Renata Resende

    Autódromo Internacional Enzo e Dino Ferrari/ Imagem: Motorsport

    Grande Prêmio de San Marino ou Grande Prêmio da Emilia Romagna, não importa quais os nomes oficiais, mas os fãs de Fórmula 1 vão sempre chamar, essa etapa da F1, de Ímola. Esse GP acontece na Itália, no Autódromo Enzo e Dino Ferrari e é nessa pista que aconteceram momentos marcantes, bons e ruins, que ficam nas memórias dos fãs de Fórmula 1.

    Autódromo Enzo e Dino Ferrari/ Imagem: F1 site oficial

    O autódromo, que leva o nome dos Ferrari, foi construído lá na década de 1950, e no começo seu nome era Circuit de Santano. Após anos levando o nome do rio que delimitava o circuito, foi decidido que seu nome passaria para Circuit d`Imola, o que também fazia sentido por ser próximo da cidade italiana de mesmo nome, Ímola.

    Na década de 1970 vários trabalhos foram realizados, e o circuito mudou novamente seu nome. A partir de então ele passaria a ser chamado de Autódromo Dino Ferrari, em homenagem ao único filho do casal Ferrari. O autódromo seria renomeado de novo após a morte de Enzo Ferrari, sendo então chamado de Autódromo Enzo e Dino Ferrari. Agora, com o autódromo pronto, ele poderia receber a categoria de elite do automobilismo, a Fórmula 1.

    O primeiro GP de F1 aconteceu em 1980, algo que também aconteceu porque o Monza estava sob reformas. O autódromo ganhou o coração dos amantes da F1, mas em 1981 ele não poderia sediar mais o GP da Itália, devido a uma regra da categoria que não permitia que dois Grandes Prêmios poderiam ser realizados no mesmo país.

    Porém investidores burlaram essa regra. Como? Colocando o nome do GP com nome de outro país, um pequeno e encostado na Itália, chamado de San Marino. E deu certo. Sob o nome de GP de San Marino, o autódromo foi sediando corridas até 2006. Em 2020, as corridas de Fórmula 1 voltaria para Ímola, mas antes de partir para essa época atual, vale relembrar alguns momentos históricos.

    Traçado feroz da pista

    Acidente de Ayrton Senna/ Imagem: Aventuras na História

    O que tinha de emocionante no autódromo, tinha de perigoso. O traçado original tinha quase 5 km de asfalto e 20 curvas. Já em 1981, foram acontecendo mudanças como a introdução de uma chicane ali na Acque Minerali. Mas a pista era perigosa, e vários acidentes foram acontecendo até 1994, e só depois do pior ter acontecido que o autódromo foi fazer mudanças visando a segurança dos pilotos.

    Até 1994, a segurança da pista era questionada. Na sua primeira curva, a temida Tamburello, os pilotos corriam à quase 300 km/h e qualquer erro podia ser fatal. Naquela curva, vários pilotos se acidentaram, como aconteceu com o brasileiro Nelson Piquet (Williams). Em 1987, Piquet bateu com força e dali foi direto para o atendimento médico. O pai de Kelly Piquet sofreu traumatismo craniano, lesões no tórax, no tornozelo e perda de memória.

    Gerhard Berger, amigo próximo de Senna, foi outro piloto a se acidentar na Tamburello. Na batida, a Ferrari de Berger ainda pegou fogo, mas o austríaco só saiu com fissuras nos ossos. Em 1991, Michele Alboreto (Footwork) também bateu na mesma curva. No ano seguinte foi a vez de Riccardo Patrese (Williams) se ferir na Tamburello. Os próximos acidentes foram acontecer em 1994, e que infelizmente marcou o mundo, principalmente os brasileiros e austríacos.

    Depois das mortes violentas, de Ratzenberger e Senna, o traçado foi ainda mais alterado. A fim de fazer com que os pilotos virassem mais lentamente, foram acrescentadas variantes nas curvas da Tamburello e da Villeneuve. A Variante Bassa, onde o Rubens Barrichello (Jordan) se acidentou, também em 1994, deixou de existir. O local se transformou em uma chicane e teve suas zebras diminuídas.

    Grande Prêmio da Emilia Romagna

    O autódromo saiu do calendário da F1, acontecendo em 2006 o último Grande Prêmio de San Marino. Anos depois ele voltaria, mas com nome de GP diferente. Em 2020 aconteceu a pandemia que todos se lembram. O Coronavírus também atingiu a Fórmula 1, que teve que fazer ajustes no seu calendário.

    Num desses ajustes, acabaram trazendo o GP de Ímola de volta, como um tampão. Mas San Marino dessa vez não quis se envolver, e acabou retirando sua representação da F1. Como aquela regra de não poder ter dois Grandes Prêmios no mesmo país caiu por terra, eles decidiram então chamar a etapa de Grande Prêmio da Emilia Romagna, já que o autódromo fica na região da Emilia Romagna.

    O contrato ficou estabelecido então que Ímola sediaria o GP até 2025. Até a data dessa publicação, não se tem previsão de quando a Fórmula 1 voltará para o autódromo, mas numa carta aberta foi divulgada, pela direção da cidade de Ímola, sobre o fim do contrato com a categoria e deixa a entender que eles ainda tem esperança que a F1 volte para o autódromo.

  • 1957, o ano que a Fórmula 1 foi para Pescara

    Por Renata Resende

    Várias cidades e circuitos fazem parte da história da Fórmula 1, mas só uma cidade se destaca por ter o circuito mais longo já usado na categoria, o Circuito de Pescara. Com apenas 25,8 km de comprimento, o circuito de estrada, hoje desativado, recebe o mesmo nome da cidade onde acontece a largada e a bandeirada de chegada. Mas este circuito traz curiosidades interessantes, que faz com Pescara fique sempre marcada na história da F1.

    O Circuito de Pescara, Itália

    Circuito de Pescara/ Imagem: Globo Esporte

    Situada na Costa Adriática da Itália, Pescara é uma cidade cheia de praias ao longo da sua costa, e atrações para vários bolsos. Mas a cidade italiana não entrou no calendário da Fórmula 1 na temporada de 1957, por sua beleza, e sim como um Grande Prêmio reserva.

    O circuito tinha como configuração temporária quase o formato de um triângulo e passava por três cidades diferentes, o tornando um circuito de estrada. A largada acontecia em Pescara, passava por Cappelle sul Tavolo, Montesilvano e volta para Pescara para a linha de chegada. Com duas retas intermináveis, só os melhores pilotos tinham chance de vencer a corrida naquela estrada.

    Antes mesmo da Fórmula 1 chegar lá, acontecia a Coppa Acerbo, e na primeira corrida que aconteceu no circuito de Pescara, em 1924, quem levou a vitória para casa foi ninguém mesmo que Enzo Ferrari, pilotando uma Alfa Romeo. E foi também o Commendatore que se recusou a colocar seus carros para competirem no único Grande Prêmio de Pescara na Fórmula 1.

    Foram duas as teorias do porque Enzo Ferrari tomou essa decisão. Uma era que Ferrari estava protestando, indo contra as corridas de estrada porque ele tinha perdido o piloto Alfonso di Portago, na famosa corrida Mille Miglia. Essa prova que aconteceu em 1957 é retratada no filme Ferrari, lançado em 2023, e o di Portago é representado pelo ator brasileiro Gabriel Leone, que também interpretou Ayrton Senna na série da Netflix.

    A outra teoria é que Ferrari estava com medo de colocar seus pilotos no GP de Pescara, e eles acabarem se machucando durante a corrida, ou até acontecendo algum acidente fatal. E ele tinha motivo para isso. O circuito era bem perigoso e foi o primeiro a receber uma chicane artificial para quebrar a velocidade dos pilotos no trecho próximo ao Mar Adriático.

    O Grande Prêmio de Pescara, Fórmula 1, 1957

    Juan Manoel Fangio, Pescara, 1957/ Foto: Goodwood

    Mesmo Ferrari não querendo colocar seus pilotos e carros na prova, ele acabou cedendo um carro para o insistente Luigi Musso. O GP contou com 16 pilotos, com Juan Manoel Fangio na pole position. Musso que tanto quis competir com o carro da Ferrari, por conta própria foi um dos nove pilotos a não concluírem a prova por causa do problema de fuga de óleo do carro, que deixou rastro na pista.

    Fangio, que perdeu a pole para Stirling Moss, estragou uma das rodas de sua Maserati, dando uma folga para o britânico Moss. O incidente mais perigoso da prova foi quando Horace Gould, numa outra Maserati, atropelou um mecânico. Sobre o estado do mecânico, não foi encontrada nenhuma informação.

    Quando terminou a prova, Stirling Moss (Vanwall), Fangio (Maserati) e Harry Schell (Maserati) subiram ao pódio em primeiro, segundo e terceiro lugar respectivamente. A Maserati contou com dez dos dezesseis carros presentes na pista. As outras equipes a se inscreverem no Grande Prêmio (em inglês) foram a Vanwall, Cooper Climax e Luigi Mossi com uma Ferrari.

    Fim do Circuito de Pescara

    A última prova aconteceu em 1961, sendo uma corrida de Endurance. Devido a falta de segurança, tanto para os pilotos quanto para o público, o circuito foi desativado.