Coreia, História em cinco Atos: Resistência Cultural.

Da anexação japonesa até a resistência coreana.

Soldados da Resistência Coreana em 1907. Imagem: Aventuras na História.

Por Renata Resende

Era 22 de agosto de 1910, quando o Império Japonês anexou a Coreia como uma colônia e começou a colocar em prática seus planos de dominação, o que incluía o apagamento da identidade coreana. E ele dominaria a península por anos a fio… até que chegasse o final da Segunda Guerra Mundial em 1945. Mas antes de explorar um pouco sobre esses fatos, que tal continuar a saga pelo final do post anterior, hein?

Leia também: Coreia, uma história em cinco atos: Antes da Divisão.

Fazer com que a Coreia assinasse o Tratado de Ganghwa (em inglês), em 1876, foi só o pontapé inicial para a dominação japonesa na península. O que o Japão realmente queria era dominar a China, que era outra das superpotências asiáticas, e os dois países chegaram a entrar em guerra duas vezes, guerras essas conhecidas como Sino-Japonesa.

A Primeira Guerra Sino-Japonesa aconteceu entre os anos de 1894 e 1895. Pode ter durado “pouco” tempo, mas foi o suficiente para mostrar a superioridade militar do Império Japonês em comparação com a China, que estava enfraquecida pelas Guerras do Ópio. Pode-se dizer que um dos motivos principais para essa guerra foi a disputa pela Coreia? Pode, mas não foi a única razão do conflito.

O Japão crescia cada vez mais, então automaticamente precisava de mais mercado consumidor, recursos, e claro, a ambição de querer ser o império maioral. Assim, os japoneses viraram para os coreanos e praticamente disseram, “e aí, vamos modernizar por bem ou por mal?”.

Enquanto dois países disputavam quem mandaria na Coreia, os coreanos viam sua situação piorar cada vez mais. Em 1894, aconteceu a Revolta Camponesa de Donghak (em inglês), e o governo coreano pediu ajuda aos chineses para acabar com a revolta. O Japão olhou para aquela cena indignado, falando que a China violou o Tratado de Tientsin (1885, dizia que os dois países só poderiam colocar tropas na Coreia se avisarem um ao outro primeiro). Isso foi a gota d’água para estourar a guerra.

O conflito aconteceu no mar e na terra. Mas não foi no território japonês ou chinês que o sangue foi derramado, e sim no coreano. Nas águas, a marinha chinesa, inferior e antiga foi derrotada pela moderna em estratégica frota japonesa. Na terra, o exército chinês estava mal-acabado e parecia não ter lido a Arte da Guerra de Sun Tzu, porque apanhou para as tropas japonesas, que eram disciplinadas e organizadas.

A brutalidade foi intensa dos dois lados, e o Japão ficou com a reputação manchada perante o mundo. A guerra terminou com a China assinando o Tratado de Shimonoseki, sendo obrigada a: aceitar a humilhação, reconhecer a independência da Coreia, ceder terras ao Japão e pagar uma indenização (que foi ótima para os investimentos japoneses, diga-se de passagem).

Mas antes do Japão colocar as mãos oficialmente na Coreia, e transformar a península num centro de produção, o país se enfiou em outra guerra, dessa vez contra um europeu, a Rússia. Para quem quiser ler sobre a história russa, pode ver a série de posts quem tem aqui no blog sobre isso, clicando nos links abaixo:

Leia também: Rússia: da influência Viking até o fim dos czares.

Leia também: Rússia da século XX: Da foice e do martelo até Putin no poder.

Leia também: Rússia: fora do asfalto e do gramado mundial.

Depois de derrotar a China, o Japão achou que o caminho estava livre para colocar as mãos na obra, mas quando foi ver, deu de cara com a Rússia, que queria a mesma coisa coisa que ele. O Império Japonês olhou para os russos, olhou também para os aliados da Rússia, estreitou os olhos e pensou “tá, pera aí, deixa eu pensar direito”.

Em 1902, o Japão firmou uma aliança com a Inglaterra, que tinha uma cláusula dizendo que em caso de guerra com um outro país, deveria ter auxílio entre eles (isso em caso de força maior). Depois de partir de para cima dos russos, os japoneses acabaram vencendo a Rússia enfraquecida, num conflito que durou 18 meses. Foi então assinado o Tratado de Portsmouth, mediado pelos EUA, com a Rússia cedendo o controle de territórios (Manchúria, Coreia e Port Arthur).

Enquanto o Japão estava no seu auge, com um exército top de linha e táticas e armamentos adequados, a Rússia não estava dando conta nem dela, que dirá dar conta dos japoneses. E agora sim, chegou a hora tão esperada pelos japoneses e eles já podiam olhar para a Coreia, sorrindo e esfregando as mãos.

A colonização japonesa.

Mulheres de Conforto. Imagem: Forbes.

Como dito anteriormente, antes de anexar a península coreana, o Império Japonês já estava atuando nas terras coreanas. A Imperatriz Myeongseong (명성황후) , principal oponente à influência japonesa, tinha sido assassinada (e sim, teve dedo japonês nessa morte). Seu marido, o Imperador Gojong (고종) mandou representantes para a Holanda, no Congresso da Haia, na tentativa de chamar a atenção do mundo para o que aconteceria na Coreia. Péssima decisão.

O Japão retaliou com força. Gojong teve que abdicar do trono, o exército coreano foi dissolvido e a pouca autonomia que restava da Coreia foi para o espaço. Até no ensino o Império Japonês interferiu, proibindo o ensino da língua coreana e colocando a língua japonesa como aprendizagem obrigatória.

Coreanos foram rebatizados, tendo que substituírem seus nomes coreanos por japoneses. O objetivo imperial era claro como água cristalina, apagar qualquer traço da identidade coreana da península.

Claro, não foi só coisa ruim que o Japão fez na Coreia. Os japoneses desenvolveram uma rede de transportes, fundamentais para a melhoria da infraestrutura coreana. Os sistemas monetário e financeiro também foram reorganizados. Mas essas melhorias era para interesse próprio, pois a Coreia virou nada mais que um centro de produção para o Império Japonês.

Vale destacar também a situação das coreanas, transformadas em “mulheres de conforto”. Essas mulheres, foram obrigadas a se tornarem escravas sexuais para o império, chegando a serem até enviadas para outros territórios japoneses.

A vida de todo coreano foi afetada pela dominação japonesa, e muitos chegaram até perderem suas terras, pois não conseguiram registrá-las de acordo com a Lei de Levantamento Fundiária, imposta pelo império, sendo obrigados a venderem seus pedaços de terra a preço de banana.

Dominada mas resistente.

No dia primeiro de março de 1919, pouco tempo depois da morte de Gojong, parte dos coreanos foram se manifestar, lutando pela independência coreana na capital Seul. Conhecido como Movimento Primeiro de Março (em coreano), esses manifestantes leram a Declaração da Independência da Coreia. O império não reagiu nada bem com essa luta. Como se diz em Minas Gerais, “o trem foi feio”.

Esses coreanos foram massacrados. Os que continuaram resistindo sofreram com censura à morte. Igrejas, escolas e prédios foram queimados, milhares de coreanos foram presos ou mortos. Mas a luta não foi em em vão, e um governo provisório foi criado (no exterior, afinal eles não foram doidos de ficarem na Coreia.).

O Império Japonês até cedeu um pouco, mas estava chegando um outro período que nem se eles quisessem, poderiam deixar de usar seu centro de produção em massa. Logo começaria a Segunda Guerra Mundial.

O fim de um império.

Em 1939, começaria uma das guerras mais sangrentas da história mundial (e que com certeza vai aparecer muito aqui no blog). Mas o Império Japonês não entraria logo de início no conflito, afinal ele estaria guerreando de novo com a China, na chamada Segunda Guerra Sino-Japonesa.

Os chineses já se preparavam para um possível conflito contra o Japão. Em dado momento as duas forças opostas existentes dentro da China se uniram com o único objetivo de enfrentarem seu inimigo histórico.

Nacionalistas e Comunistas lutaram juntos, deixando de lado as ideologias diferentes, e mesmo se unindo, passaram por grandes dificuldades. Os japoneses já eram brutais em batalhas, agora imagina eles tendo a possibilidade de derrotar de novo, aqueles que os soldados japoneses acreditavam desde cedo que eram inferiores, menos valiosos que porcos.

O episódio mais marcante da Segunda Guerra Sino-Japonesa foi o Estupro de Naquim. Na batalha de aconteceu na cidade de Nanquim, milhares de chineses foram mortos, sendo eles soldados ou civis, e cerca de 20 mil mulheres foram violentadas, repetidamente, pelo exército japonês.

Essa guerra contra a China, que tinha começado em 1937 só foi terminar em 1945, junto com o fim da Segunda Guerra Mundial, sendo uma derrota em dose dupla para o Japão.

Durante sua estadia nas guerras, o império precisava mais que nunca de insumos para se manter. Forçando cada vez mais a produção na Coreia, os japoneses chegaram a enviar coreanos para fábricas, instalações e até para servir nas tropas japonesas. Os homens eram mandados para os campos de batalha, as mulheres eram enviadas para os acampamentos, obrigadas a servirem aos japoneses.

A tentativa de apagar a cultura coreana foi ainda mais intensificada, o Hangul sendo proibido, o Xintoísmo sendo imposto. Mas os coreanos resistiram firmemente, até que chegou 1945 com a libertação do povo coreano.

O Japão só foi entrar na Segunda Guerra Mundial em 1941, e fez questão de “chegar chegando” quando atacou Pearl Harbor, uma base estadunidense no pacífico, e claro que haveria retaliação, que por sinal surpreenderia o mundo inteiro.

No dia 7 de maio 1945 (embora a rendição tenha entrado em vigor um dia depois), a Alemanha não aguentava mais e se rendeu aos Aliados, mas ainda não seria o fim da guerra. O Império Japonês estava com sua autoestima lá acima das nuvens, e com seu orgulho, se recusava a ceder, e fazia várias propagandas em seu território, dizendo que o povo japonês era invencível. O clima no país durante e após guerra é relatado por Takashi Morita, um sobrevivente da guerra, no seu livro A Última Mensagem de Hiroshima.

Morita relata como foi sua vida até o evento fatídico de Hiroshima, como sobreviveu, a cena que viu e como esse momento afetou sua vida e de todos os sobreviventes. O evento em questão foi o lançamento da Little Boy, nome da bomba atômica lançada pelos EUA em Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945, para que o Japão se rendesse.

O orgulho japonês era tão grande que eles se recusavam a abaixarem a guarda, e mesmo com a destruição de Hiroshima, causada pela bomba, o Japão se recusava à rendição. O Império achava que os EUA só tinham uma bomba atômica, que os estadunidenses já não tinham mais nenhuma carta na manga. Ledo engano.

Em 9 de agosto de 1945, foi lançada mais uma bomba, a Fat Man, que faria outro estrago no Japão, dessa vez na cidade de Nagasaki. O estrago foi tanto, que o imperador Hirohito se rendeu no dia 15 e finalmente chegou o fim da Segunda Guerra Mundial, oficialmente em setembro.

O Governo Provisório Coreano, aproveitando a fragilidade de seu dominador, ressurgiu e declarou guerra ao Império Japonês. se juntando aos Aliados, o Exército de Restauração Coreano lutaram na China, se opondo aos japoneses.

Com tantos eventos marcantes acontecendo em 1945, talvez o mais importante para a Coreia, seria a sua libertação e independência. Mal imaginavam os coreanos o que ainda viria pela frente, mas isso fica para o próximo post.

Comentários

2 respostas a “Coreia, História em cinco Atos: Resistência Cultural.”

  1. Avatar de Coreia, História em cinco Atos: A Divisão. – Poliglota nas Pistas

    […] Coreia, História em cinco Atos: Resistência Cultural. […]

    Curtir

  2. Avatar de Coreia, História em cinco Atos: o K-Pop nas pistas da Fórmula 1. – Poliglota nas Pistas

    […] Coreia, História em cinco Atos: Resistência Cultural. […]

    Curtir

Deixe um comentário