Hungria: uma viagem na história até Hungaroring.

Da Antiguidade Clássica até a chegada da F1, conheça a história húngara marcada por batalhas, revoluções e recordes, no asfalto e no gramado mundial.

Nelson Piquet pilotando no GP em 1986. Imagem: Estadão.

Por Renata Resende

Com uma história carregada de momentos marcantes, a Hungria recebe a Fórmula 1 no circuito Hungaroring, para o que promete ser mais uma disputa emocionante no asfalto húngaro. Mas o país proporciona cenas memoráveis na história da F1, mas também no gramado da Copa do Mundo e nos grandes acontecimentos da história mundial.

Tempos antigos.

Hungria nos tempos antigos. Imagem: Europa

A origem húngara remonta ainda na época da Antiguidade Clássica quando Roma expandia seu império para o mundo afora. Com povos antigos migrando de um lado para o outro, os Hunos decidiram se firmar nas terras que um dia seriam a atual Hungria. Com a queda de Roma mais ondas imigratórias aconteceram, nas quais povos como germanos, eslavos e outros também foram passando por ali, até a chegada dos Magiares, que continuariam a história húngara.

De acordo com a tradição, os Magiares chegaram por volta do século IX, e sob a liderança de Árpad, firmaram um futuro reino e queriam muito se aproximar da Europa Cristã. Foi rei Estevão I, ou como conhecido, rei Santo Estevão que realmente fundou o reino húngaro, chegando a receber do próprio papa da Igreja, a coroa de seu reinado. Mas a tranquilidade não durou muito, e logo começaria a primeira das devastações para o povo húngaro.

Em 1242, os Mongóis chegaram devastando e fizeram um estrago na população e nas terras húngaras. Após a Batalha de Moji (link em inglês), desastrosa para o povo magiar, e a morte do comandante mongol, o rei Béla IV, retornou para o reino com o objetivo de construir castelos fortificados, que se tornariam importantes nas batalhas contra os Otomanos.

Se reconstruindo, o reino Húngaro foi se fortificando cada vez mais, repelindo os Otomanos e tornando a Hungria um forte centro cultural na Europa. Mas os Otomanos não desistiram da ambição de tomar as terras húngaras e acabaram com a independência dos magiares em 1526, na Batalha de Mohács, massacrando o exército magiar. O reino húngaro então passaria pela sua primeira divisão territorial, na qual só 1 terço ficaria independente. Mas essa parte ainda não ficaria sob o comando dos magiares, e sim dos Habsburgos.

Esse povo, que foi uma Dinastia extremamente importante na Europa (mas que é história para outro momento), queria retomar o terço húngaro que estava sob controle Otomano e faz com que o atual povo turco recuasse, mas não tornou a Hungria totalmente independente de novo. Mesmo com essa vitória, a nobreza húngara não ficou totalmente feliz, já que não tinha qualquer autonomia no território, sendo parte do Império Austríaco que comandava outro dos terços do território original.

O povo húngaro, ao invés de baixar a cabeça, lutou por algum controle, começando a Revolução de 1848. A luta foi o suficiente para fazer pressão sobre o Império Austríaco, que decretou as “Leis de Abril”, dando autonomia ao Reino Húngaro, e também garantindo direitos civis aos húngaros como controle sobre impostos locais.

Um tempo depois essas concessões foram retiradas e depois, até de uma guerra civil e, da Revolução ter sido reprimida, o Império Austríacos decidiu tomar algumas medidas para evitar que a Hungria se tornasse independente. Reconhecendo o Reino Húngaro como um Estado autônomo, o Império se tornou então Império Austro-Húngaro. E assim o território ficaria até estourarem a grandes Guerras Mundiais.

O mundo em guerra.

República Húngara. Imagem: BBC

Em 1914, ocorreria o que seria a gota d’água para a Primeira Guerra Mundial, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, seria assassinado na Sérvia, e esse acontecimento geraria uma série de invasões, formando então a primeira das grandes guerras.

O Reino Húngaro, por ser parte minoritária do controle imperial, sofria com a marginalização de populações que pertenciam a outras etnias. Para completar o sofrimento húngaro, após o fim da Primeira Guerra, o Império Austro-Húngaro, que fazia parte do grupo das Potências Centrais (junto com a Alemanha e Itália), foi desmantelado, e a parte Húngara foi fatiada, no Tratado de Trianon, tendo grande perda de população e território.

Embora a Hungria tenha se tornado uma República independente, a situação do país não melhorava. Sob influência soviética, a nação tentou uma experiência comunista, mas o regime acabou entrando em colapso. Para piorar, começa o período conhecido como “Terror Branco”. Na tentativa de acabar com o regime comunista, aconteceu uma contrarrevolução que matou milhares de húngaros, metade deles sendo judeus.

Ainda sobre o Tratado de Trianon, a Hungria não queria aceitar a perda que teve, mas não tinha sequer forças para lutar contra o tratado. Sua população, que vivia nas terras que não eram mais húngaras, sofriam com a discriminação, tendo consequências até os dias atuais, já que os que moram na atual Eslováquia, são proibidos de falar o idioma húngaro. Mas nem só de tristeza vivia o povo húngaro nesse período entre guerras.

Nos anos trinta, quando o mundo tentava lidar com a Grande Depressão causada pela quebra da bolsa de Nova York em 1929, um evento mundial aconteceria que uniria várias nações, com o intuito de torcer pela sua Seleção disputando a Copa do Mundo. A Hungria não conseguiu participar da edição inaugural, (1930), mas quatro anos depois ela estaria lá, para trazer alegria ao seu povo.

A Seleção Húngara passou pelas oitavas de final, tirando o Egito do caminho, mas a por coincidência do destino, se encontrou com a Áustria nas quartas de final. Perdendo de 2 a 1 para a antiga companheira de território, os húngaros voltaram para a casa, sentindo que seria apenas o começo de sua história nas Copas do Mundo. E provavelmente felizes, por terem sido vingados, já que a Itália eliminou Áustria na semifinal.

Voltando para a disputa mundial em 1938, eles ficaram com seu melhor resultado nas Copas, levando a vice-liderança. Após a Copa de 38, o mundo teria outro palco de eventos, mas dessa vez não seria uma competição saudável, já que em 39, começaria a Segunda Guerra Mundial.

Devastação e reconstrução.

Quase na década de 40, surge um líder que usou seu carisma para convencer a frágil Hungria, que a crise existente em seu território era falta de homogeneidade de uma raça superior. Hitler, um político austríaco que quase tinha morrido na Primeira Guerra, usou sua lábia para tomar o poder na destruída Alemanha, dizendo ter a solução ideal para um recomeço germânico glorioso. E ele foi um dos poucos que estendeu a mão para também destruída Hungria.

“Vamos Hungria, se alie com nossa luta e conquistaremos seus territórios perdidos.” E a Hungria realmente retomou suas terras, mas assim como Ícaro, os húngaros voaram perto demais do sol. Com uma autoestima elevada, um sonho e escutando os conselhos do “melhor amigo”, a Hungria declara guerra a União Soviética. O resto é história…

Depois de várias derrotas e soldados perdidos, a Hungria tentou um acordo com o grupo dos Aliados, e isso caiu nos ouvidos do líder nazista. O alemão não quis deixar barato e invadiu o território húngaro, e depois de várias batalhas, os nazistas são derrotados.

Bons recordes em Guerra Fria.

Húngaros na Copa do Mundo de 1954. Imagem: GE Globo.

A Segunda Grande Guerra acabou, mas os estragos ainda demorariam para acabar. A Hungria tentava se recuperar nesse novo mundo polarizado, e entrou para o lado socialista da força, se juntando a União Soviética. Em 1956, o trauma da guerra parecia ter esfriado nas mentes húngaras, e os populares decidiram se levantar contra o regime que comandava o país.

A Revolução de 1956 começou com uma manifestação popular, que se encontrava infeliz a situação do país. O ministro da Defesa não discordava do povo, e deu ainda mais força. Até aconteceu uma trégua, mas no final a União Soviética invadiu e massacrou a revolta.

Depois de alguns anos, já quase na década de 90, a Hungria queria dissolver o Pacto de Varsóvia, sendo um dos primeiros países soviéticos a querer acabar com esse regime. A atitude húngara acabou se tornando um dos motivos para o fim na União Soviética e junto o fim da Guerra Fria, começando assim um novo marco para o mundo inteiro.

Mas a Hungria não foi só o primeiro país a querer sair do bloco socialista, como foi também o primeiro a trazer um outro evento esportivo mundial para seu território. Evento esse muito… capitalista em sua essência. No ano de 1986, a Fórmula 1 chega nas terras húngaras e começando com chave de ouro, já que teve uma dobradinha brasileira no pódio, com Nelson Piquet (Williams) em 1º e Ayrton Senna (Lotus) em 2º, e com a companhia de Nigel Mansell (Williams) fechando o pódio.

No mesmo ano que sediava pela 1ª vez a F1, era também o último que competia na Copa do Mundo. Mesmo não conseguindo se classificar de novo para a Copa do Mundo, a Hungria entrou para o livro de Recordes pelas suas goleadas no evento (meus pêsames aos times que enfrentaram os húngaros).

Voltando a história do país, os húngaros tiveram suas primeiras eleições livres em 1990, com os socialistas sendo esculachados na votação. Quatro anos depois foi registrada uma queda na qualidade e vida húngara, e os socialistas se aproveitaram disso para voltarem ao poder, mas o país não voltou a ser aquele modelo socialista ferrenho de antes.

Atualmente a Hungria faz parte tanto da OTAN (Organização do Tratado Atlântico do Norte) quanto da UE (União Europeia), sendo um dos países da UE que não tem o Euro como moeda nacional e com a língua Húngara (ou Magiar) reconhecida oficialmente pela organização.

Idioma . Fórmula 1 . Copa do Mundo.

A Hungria ainda tem muita história pra contar, com seu idioma diferenciado, seus momentos marcantes na F1 e as goleadas na Copa do Mundo, mas elas ficam para os próximos posts. Te espero por aqui!

Referências e leituras recomendadas:

Esta matéria tem como base de construção fontes confiáveis como BBC (perfil da Hungria), VatticanNews, Brittanica (em Inglês), VEJA, Brasil Escola, FIFA, F1 (site oficial) e outra fontes linkadas ao longo do texto.

Comentários

2 respostas a “Hungria: uma viagem na história até Hungaroring.”

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