Da construção do circuito à chegada da Fórmula 1: as histórias que transformaram Monza em um dos templos do automobilismo.

Por Renata Resende
E Monza faz história mais uma vez no Grande Prêmio da Itália. Depois de 60 anos sem nenhum italiano ganhando um GP de Fórmula 1 em casa, Kimi Antonelli (Mercedes) fez os tifosi (torcedores da Ferrari) virarem a casaca, pelo menos temporariamente. Charles Leclerc (Ferrari), por sua vez, fez alguns fãs chorarem, quando bateu e ainda foi parar na instalação médica (mas ele passa bem, obrigada pela preocupação).
Mas não é a primeira vez que os amantes da Fórmula 1 ficam eletrizados assistindo o desenrolar das cenas neste circuito italiano. Foram vários os momentos impactantes que aconteceram em Monza, alguns trazendo felicidade, outros trazendo tragédia. E tudo começou lá atrás, depois que acabou a Primeira Guerra Mundial.
Benvenuti à década de 1920.
Em 1922, uma grande obra começou a ser construída nos arredores de Milão, e ela se tornou um dos circuitos mais antigos e icônicos do calendário da Fórmula. A ideia, que partiu do Automobile Club de Milano, tinha pelo menos dois objetivos diferentes: ser um circuito permanente de testes para as montadoras italianas, e também para receber um Grand Prix internacional para rivalizar com o disputado na França.
Na sua biografia sobre Enzo Ferrari (Ferrari: O homem por trás das máquinas) Brock Yates cita a construção da autódromo, e como ele faria parte da história do Commendatore italiano. Segundo Yates, Ferrari viu de perto a construção, enquanto ainda era piloto, porém curiosamente nunca chegou a protagonizar um momento bombástico pilotando naquele circuito. Mas Ferrari e Monza sempre estariam ligados um ao outro.
O traçado original do circuito, que foi inaugurado no dia 3 de setembro de 1922, tinha quase 10 km de extensão. Seis anos após sua inauguração, foi preciso alterar o desenho devido à primeira das tragédias que abalaram Monza.
O primeiro grande abalo.
Há exatos 98 anos, no dia 9 de setembro de 1928, Emilio Materassi participaria de sua última corrida da vida. O piloto italiano tinha uma carreira já consolidada no automobilismo, e inclusive era dono da Scuderia Materassi, equipe que comprou da Talbot-Darracq. No Grand Prix da Itália de 1928, Materassi pilotava sua Talbot 700, e já começou a prova enfrentando problemas e precisando ir para o box duas vezes.
Na décima sétima volta, Materassi perdeu o controle de seu carro quando tentou ultrapassar a Bulgatti de Giulio Foresti. O resultado foi uma tragédia, que envolveu mais pessoas além do piloto. Na tentativa de desviar o carro, Materassi saiu da pista, saltou sobre uma vala de proteção e atingiu o público. Dezenas de pessoas morreram praticamente na hora, e mais algumas se feriram, com uma chegando a morrer no dia seguinte e outra indo a óbito nove dias depois.
Emilio Materassi tinha apenas 34 anos, quando deixou a esposa e duas filhas. Na sua sepultura, foi erguida uma estátua de bronze, obra do escultor Mario Ferretti. Com relação às outras vítimas do acidente, no site Motorsport Memorial tem uma lista dando nome a cada uma delas (link em inglês).
Embora o acidente não tenha sido na parte oval do autódromo, esse trecho foi fechado na tentativa de reduzir as altas velocidades na reta principal. Em 1930, Vincenzo Florio, idealizador da corrida Targa Florio, teve uma ideia de alteração para o circuito. Usando a infraestrutura já existente, foi adicionada uma chicane e só a inclinação sul da pista era utilizada (em inglês).
No dia 6 de setembro de 1931, aconteceu o quarto Grand Prix de Monza, e mais uma vez outro acidente aconteceu. Philippe Étancelin, pilotando um Alfa Romeo, tentou ultrapassar Giovanni Minozzi, mas perdeu o controle do carro, saiu da pista e também acertou alguns fãs (assistiam a corrida num local proibido). Ao contrário das vítimas, entre elas duas mortas, Étancelin saiu apenas levemente lesionado, mas devastado e inocentando Minozzi de qualquer culpa.
Em 1933, o circuito original mostrou mais uma vez o quão perigoso era, praticamente pedindo para ser alterado de novo.
O Dia Negro de Monza.
Era 10 de outubro de 1933, o Grande Prêmio de Monza trouxe mais uma memória perturbadora para o automobilismo. A sequência de acontecimentos que se prosseguiu foi tão intensa para Enzo Ferrari, que Yates fez questão de falar sobre esse GP em seu livro.
A prova, que seria realizada em três baterias, aconteceu na parte oval da pista. Um dia antes, alguns pilotos, entre eles os dois mais icônicos da época, Tazio Nuvolari e Luigi Fagioli, desistiram de participar da competição. O dia frio, ameaçando chover, parecia avisar sobre a tragédia que aconteceria.
Ainda na primeira bateria, o piloto Felice de Trossi abandonou a corrida, pois seu carro (Duesenberg Special) deu um problema no motor, e ao que parece, deixou uma poça de óleo na pista, bem no meio da curva sul. Guy Moll, que terminou em segundo lugar, exigiu que alguma providência fosse tomada sobre esse óleo. Antes que a segunda bateria começasse, a mancha de óleo foi limpa com vassouras e teve um revestimento de areia. Mas não foi o suficiente para evitar os próximos momentos.
Então começou a segunda parte da prova. Giuseppe Campari pilotava um Scuderia P3, e competia lado a lado contra Baconin Borzacchini (Maserati), e desapareceram da vista dos espectadores, e junto com eles, também não haviam notícias de Nando Barbieri e o conde Castelbarco. Como esses pilotos não voltavam, surgiu um boato que talvez eles tivessem se acidentado. Infelizmente, o boato se concretizou.
Campari e Borzacchini tinham tocado as rodas dos carros e sido lançados para a cerca de arame do campo interno. Borzacchini se feriu gravemente e morreu horas depois, enquanto Campari faleceu na hora. Os outros dois pilotos também considerados desaparecidos voltaram praticamente ilesos.
Segundo Yates, as mortes de Giuseppe Campari e Baconin Borzacchini abalaram o senhor Ferrari, que considerava os dois pilotos como companheiros. A partir daquele momento, Enzo Ferrari fecharia seu coração para os pilotos, com apenas um ou outro piloto atravessando a barreira do Commendatore.
Prenúncio de Guerra.
Após essas tragédias acontecerem, era hora de dar um jeito naquele autódromo. A pista era rápida demais para o seu próprio bem. O engenheiro Aldo di Rionzo foi o responsável pelas alterações, e demoliu a parte oval do autódromo. A Curva de Lesmo foi alterada e o pedido da Pirelli por um trecho de testes foi aceito. Instalações para os fãs também foram feitas, como a arquibancada para 2000 pessoas e um restaurante no térreo.
Quando estava chegando a hora de ver se as melhorias feitas dariam realmente certo, as corridas precisaram ser paralisadas … e a Segunda Guerra Mundial bateu na porta.
A cidade de Monza foi ocupada em 1943, pelos alemães, e o circuito também foi afetado. O que antes era um autódromo, agora se tornou um depósito de arquivos e até mesmo dos animais retirados do zoológico de Milão. Quando a guerra acabou, o circuito de Monza precisaria passar por mais uma reforma se quisesse voltar a receber corridas.
O asfalto da pista foi danificado pelo desfile de blindados dos Aliados. Mas dessa vez a reforma foi rápida, durando apenas dois meses e o autódromo voltou a ter a carinha de pista de corrida. Construído sobre concreto armado e com uma nova curva parabólica. Mais melhorias foram feitas, agora sendo construídas duas grandes torres com placares luminosos, mostrando cada posição da corrida ao longo da pista.
Senhoras e senhores, bem-vindos à Fórmula 1.

Era 1950 quando aconteceu a primeira temporada do campeonato oficial da Fórmula 1, e claro que o circuito de Monza sediaria uma das sete etapas da categoria.
No dia 3 de setembro, era a última prova da temporada e a briga do título estava entre Nino Farina e Juan Manuel Fangio. A lenda argentina, Fangio, até conseguiu a pole position, mas logo na largada foi ultrapassado por Farina. Vencendo em casa, Nino conquistou o campeonato com apenas três pontos de diferença para Fangio, fazendo a festa da torcida italiana.
Desde 1950, Monza vem recebendo a Fórmula 1, sendo um dos circuitos mais antigos do calendário a estar presentes desde o início do campeonato. Infelizmente, onze anos após seu início, a F1 veria uma das piores tragédias de sua história acontecendo em Monza. Mas essa história fica para o próximo post, te aguardo lá.
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