Da Amazônia à Malásia: a história do “contrabando” da borracha.

Extração do látex. Imagem: Aventuras na História.

Roubo ou ato humanitário, os pontos de vista sobre o evento que marcou o Ciclo da Borracha no Brasil.

Por Renata Resende

No século XIX, o Brasil viveu uma de suas melhores fases comerciais. A borracha, produzida através do látex, era uma das matérias-primas mais utilizadas nas indústrias que surgiam, e na Amazônia tinha esse produto para dar e vender.

Leia também: Da Amazônia aos Grand Prix: a história da borracha brasileira.

No Amazonas, a capital Manaus se desenvolvia cada vez mais, chegando até a ganhar o apelido de Paris dos Trópicos. Mas no meio da floresta tinha um britânico que almejava riqueza e aventuras, e que teve um papel importante para a queda do ciclo da borracha no Brasil: Henry Wickham.

Aventureiro e pai da biopirataria

Henry Wickham. Imagem :Wickham History Society

Entrando para a história do Brasil, como um dos estrangeiros que mais alterou a economia brasileira, Henry Alexander Wickham não chegou ao Brasil através de alguma missão oficial inglesa.

Autor da biografia de Wickham, Joe Jackson mostrava que o britânico não passava de um aventureiro em busca de investimentos e riquezas, mas que só colecionava um fracasso atrás do outro. Todavia ele sabia fazer propaganda de si mesmo.

Antes mesmo que negociasse com o governo britânico para a retirada das sementes da seringueira Hevea Brasiliensis, Henry já tinha chegado no Pará, mais especificamente em Santarém, e viu com os próprios olhos a riqueza dessa espécie. Ali na Amazônia, ele tentou se tornar um seringueiro, mas sem sucesso.

Mas mesmo vivendo um de seus fracassos, Wickham viu a oportunidade perfeita cair em suas mãos. A sede inglesa pelas sementes da Hevea.

Contrabando ou “ato humanitário”?

Como dito anteriormente, o Brasil dominava grande parte da produção mundial da borracha, mas esse monopólio desagradava uma potência mundial: A Inglaterra.

Quando a borracha amazônica começou a dominar no mercado mundial, o governo britânico não agiu logo de cara. O que realmente fez a Inglaterra dar seus pulos foi a pressão da India Office, um departamento que administrava a Índia britânica.

Acontece que a Índia demandava cada vez mais a matéria-prima obtida do látex, e os britânicos queriam que a borracha viesse de um lugar mais “confiável”. E eles não confiavam muito no Brasil.

Provavelmente esse departamento britânico compartilhava da visão de que Thomas Hancock tinha demonstrado em público. Segundo Hancock, o Brasil não era confiável com relação a preços e ofertas.

Além disso o India Office colocou em seu relato para o governo britânico, deixar as seringueiras em posse brasileira seria perigoso. Afinal, a borracha era um “bem da humanidade” e quem garantia que “um seringueiro bêbado que, depois de uma noitada de cachaça, poderia destruir todas as árvores em seu caminho.”

Sim, essas foram as palavras usadas para justificar o futuro contrabando da seringueira brasileira, relatadas no artigo As sementes da discórdia, de Carlos Haag.

Luz, câmera, ação

Porto por onde saia a borracha para a Europa. Imagem: BBC

Era hora do roubo – perdão, ato humanitário – acontecer.

Em 1876, Henry Wickham voltou para o Brasil, dessa vez trouxe junto sua mãe, sua esposa, seu irmão e a cunhada. Com ajuda de algumas pessoas, Henry conseguiu coletar 70 mil sementes da seringueira, e ali, nas margens do Rio Tapajós, avisou para Hooker que parte da missão estava cumprida.

Agora ele teria que passar com as sementes pela alfândega brasileira. É semelhante ao que vemos no programa Aeroporto- Área Restrita, sabe?

Para que o plano desse certo, Henry contou com o auxílio do cônsul inglês e do Barão de Santarém. Argumentando que as sementes eram plantas exóticas para o jardim britânico, Wickham conseguiu que elas chegassem ao seu destino, o Jardim Botânico Kew Gardens.

Mas é claro que ele não correu todo esse perigo à toa. Seu pagamento foi feito, porém Henry foi tapeado, já que o governo não quis dar o reconhecimento que ele “merecia”.

Missão cumprida, honraria renegada

Não se pode dizer que Henry foi totalmente feliz nessa missão, já que durante a estadia, o britânico perdeu parte da sua família. Vale destacar também que ele tentou se tornar seringalista, usando como investimento, o pagamento do contrabando.

Seu plano, mais uma vez, não deu certo. Além do investimento falho, ele ainda foi excluído do plantio da seringueira, e teve os créditos roubados, já que a equipe de Kew Gardens ajudou a ventilar a história que quem tinha transportado as sementes foi Robert Cross – outro contrabandista.

O baque foi pesado, mas não o suficiente para Wickham desistir de se tornar um rico fazendeiro. Mas o humilhado foi exaltado e, depois de anos, Henry finalmente recebeu os créditos de seu ato.

A fama de “herói provedor” chegou e em 1920, a coroa inglesa o condecorou com o título de Cavalheiro, além da pensão vitalícia pela sua participação na expansão do império.

Legado de Wickham

Dizer que ele foi o único culpado pela quebra do ciclo da borracha no Brasil, seria tendencioso e irresponsável da parte desta autora, mas o efeito da sua presença em Santarém não foi dos mais positivos.

Embora o látex fosse uma grande fonte de riqueza para o Brasil, o governo brasileiro dava atenção mesmo é na produção do café. O baque econômico foi mais no Norte do país.

Já para a Inglaterra foi uma festa imensa a chegada das sementes. Nem todas as sementes sobreviveram na viagem ou durante a germinação, mas as que vingaram foram o suficiente para mudar o monopólio da borracha de mãos.

Um dos destinos das seringueiras após o Kew Gardens, foi a Malásia.

Esse país asiático que foi cenário de alegria para os fãs de Max Verstappen e vergonha para a FIA em 2026, teve sua economia transformada.

Embora a contribuição da produção da borracha no PIB da Malásia tenha diminuído, até hoje ela tem grande importância.

Referências

BRITISH MUSEUM. India Office. British Museum. Disponível em: https://www.britishmuseum.org/collection/term/BIOG93149. Acesso em: 6 out. 2026.

BRITANNICA. Malaysia: Agriculture, forestry and fishing. Encyclopaedia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Malaysia/Agriculture-forestry-and-fishing. Acesso em: 6 out. 2026.

BBC NEWS BRASIL. A história do ‘roubo’ que acabou com a ‘Paris brasileira’ . BBC News Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cge5xwzznwno. Acesso em: 6 out. 2026.

HAAG, Carlos. As sementes da discórdia. Pesquisa FAPESP. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/as-sementes-da-discordia/. Acesso em: 6 out. 2026.

DRUMMOND, José Augusto. Aventuras e desventuras de um biopirata. Bol. Mus. Para. Emilio Goeldi Cienc. Hum. [online]. 2009, vol.4, n.3 [citado  2026-10-06], pp.549-552. Disponível em: <http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222009000300012&lng=pt&nrm=iso&gt;. ISSN 1981-8122. Acesso em: 6 out. 2026.

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