Por Renata Resende

A chegada do mês de novembro é um período muito especial para os mexicanos. Para os amantes do automobilismo, é a vez de receber a tão aguardada etapa da Fórmula 1 na sua terra, ao mesmo tempo em que são representados, nas pistas, pelo piloto da Cadillac – Sérgio Pérez. Mas ter a F1 acontecendo no seu país é só mais uma das alegrias dos mexicanos nesta época do ano.

Muitos vão passar as tardes deste fim de semana com a atenção dividida entre o que acontece no Autódromo Hermanos Rodriguez e a preparação para uma das principais festividades que acontecem no país: O Dia de los Muertos.

Final de uma vida ou um novo ciclo

Desde a Antiguidade diferentes povos refletem sobre o que acontece após a morte. A ideia de que tudo acaba junto com o último fôlego era e ainda é motivo de descrença para muitos.

Os egípcios acreditavam que quando morressem, seus corações seriam pesados e julgados por Anúbis. Já os gregos tinham a crença que veriam pessoalmente Hades, um dos principais deuses de seu panteão. Mas existe uma outra crença que tem muitos adeptos até os dias de hoje, o Cristianismo.

Se dividindo em algumas doutrinas, a pregação Cristã trás a concepção, na doutrina Católica, que no final da passagem pela Terra, se tem no máximo três destinos de ida: o céu, o inferno e o purgatório. Para o Catolicismo, muitas almas ficam no purgatório, em um processo doloroso de purificação de seus pecados.

Essa via do Cristianismo tem sido pregada ao redor do mundo desde as Grandes Navegações. Os europeus chegavam em novas terras, buscavam riquezas e usavam também como desculpa, a missão de civilizar os gentios, para se fixarem nesses lugares estrangeiros.

E foi assim quando os espanhóis chegaram na América.

O choque cultural

Quando os espanhóis atracaram seus navios no litoral do que seria o atual México, eles se depararam com diferentes povos indígenas. Astecas – também conhecidos como Mexicas – Maias e mais outros povos já faziam suas moradas naquele território, não necessariamente no mesmo período. Cada um com seus costumes, religiões e sociedades.

O choque cultural do europeu com relação ao nativo foi o suficiente para os habitantes do Velho Mundo julgarem os índios como selvagens pagãos que deveriam ser civilizados e cristianizados. Porém o que realmente aconteceu foi uma interação que transformaria as crenças de ambos os povos.

Parte dos rituais, antes feitos para suas divindades, se voltaram para o culto aos santos católicos. E foi nessa mistura de credos que influenciou na construção da festividade do Dia de los Muertos.

A alegria na morte

Festa do Dia de los Muertos. Imagem: Grupo Dicas de Viagem

Em muitas culturas, a perda de um ente querido ou qualquer data relacionada ao falecido é motivo de tristeza para amigos e familiares. Porém no México, existe um olhar diferente sobre a morte.

Como o Carnaval no Brasil, para os mexicanos a celebração de vida e morte acontece mais dias além do feriado oficial.

Cheia de rituais e tradições folclóricas, as festividades começam ainda no dia 29 de outubro. Dentro de casa, nas igrejas, nas ruas e nos cemitérios, os mexicanos enfeitam os ambientes, fazem altares e celebram seus mortos.

O preto, usado como símbolo de luto em muitos países, dá lugar às cores vivas na celebração. No interior do México, a tradição pode ganhar ainda mais força, como acontece na cidade de Ocotepec. Para os moradores desta cidade, cada dia da festividade tem honra à diferentes mortes.

No dia 29 de outubro, a celebração recebe aquelas almas que partiram de forma trágica. No dia 31, enquanto no Brasil é comemorado o Dia das Bruxas, os mexicanos homenageiam e recebem as que faleceram ainda crianças. No primeiro dia de Novembro, é a vez das almas dos adultos serem recebidas.

A crença cultuada no México diz que aqueles que morreram, voltam aos lugares que viveram seus melhores momentos em vida. Nessa data, as almas visitam suas casas para passarem o dia junto aos seus familiares e amigos. E não só as almas humanas que voltam, como também as dos animais.

Na tradição seguida em Ocotepec, Em cada dia de celebração, as igrejas batem os sinos às doze horas, marcando o início do breve retorno dos falecidos às suas casas. Nesse momento começa a cereada – que seria a cera de vela em espanhol – e os familiares recebem velas que são colocadas nos altares montados.

Em todo o país se observam diferenças nas comemorações. A cada cidade visitada, seja a capital ou no interior, as pessoas têm a sua forma, o seu toque especial para a festa.

Cada família monta um altar para homenagear seu falecido. Esses altares podem ter de dois a sete andares, e cada andar pode representar uma parte da vida da alma. Nesses andares, o falecido é lembrado pelas coisas que mais amava, como alguma comida ou objeto específico, além dos elementos tradicionais.

Um dos destaques presentes nos altares é o “Pan de Muerto” (em inglês). Esse pão dos mortos é um alimento que remonta ainda na época que os espanhóis não tinham chegado ao México e as histórias sobre sua origem divergem.

A história desse pão é tão rica que merece um post à parte.

Além do altar, cada pedacinho da decoração tem seu significado, como a música ambiente – a preferida do falecido, o caminho para o altar, feito com pétalas da flor cempasúchil.

Nas ruas, os mexicanos se maquiam e se vestem, representando a morte. As maquiagens de caveira se misturam com as variadas cores das vestimentas. Las Catrinas podem ser vistas em todos os lugares, sendo uma das tradições mais enraizadas da cultura mexicana.

Detalhes que merecem atenção

Escrever apenas um post sobre O Dia de los Muertos, data tão esperada pelos mexicanos, seria como deixar de olhar para cada elemento e significado da festividade.

Cada flor, cada alimento, cada cor utilizada na decoração não são escolhidas de forma aleatória. Os detalhes são escolhidos a dedo e representam as histórias por trás da tradição.

Acompanhando cada dia da festa, o Poliglota nas Pistas faz questão de trazer cada parte desse feriado tradicional. A cada artigo escrito, uma parte da festividade será contada, a fim de mostrar cada pedacinho da história e cultura mexicana.

Um spoiler? Existem diferentes versões sobre o Pan de Muerto.

Referências

GUEDES, Izabela Aparecida de Almeida; ANDERY, Maria Carolina Rissoni; COMARU, Claudia Marques. Dia dos mortos e a vivência do luto: relato de experiência. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 12, n. 1, p. 226–239, 2021. DOI: https://doi.org/10.5433/2236-6407.2021v12n1p226.

CANÇÃO NOVA. Você sabe o que é o purgatório e o que a Igreja diz sobre ele? Formação Canção Nova. Disponível em: https://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/voce-sabe-o-que-e-o-purgatorio-e-o-que-a-igreja-diz/. Acesso em: 29 out. 2026.

LOLO MERCADITO. Día de Muertos traditions: what is Pan de Muerto? Lolo Mercadito. Disponível em: https://lolomercadito.com/blogs/news/dia-de-muertos-traditions-what-is-pan-de-muerto. Acesso em: 29 out. 2026.

Uma resposta a “Día de los Muertos: a história e as tradições da celebração mexicana”

  1. […] Leia também: Día de los Muertos: a história e as tradições da celebração mexicana. […]

    Curtir

Deixe um comentário

Tendência