Por Renata Resende
Hoje feito à base de trigo e polvilhado com açúcar, sementes de gergelim e flor de laranjeira, esse pão carrega forte simbolismo e tradição. E é sobre ele que vamos falar hoje, na continuação da série sobre O Día de los Muertos.
Leia também: Día de los Muertos: a história e as tradições da celebração mexicana.
Lenda Imperial
Como um item essencial das comemorações do Día de Muertos, o Pan de Muerto está presente em vários cenários. Das padarias e confeitarias até os altares feitos em homenagem aos mortos.
Mas não se sabe ao certo quando essa tradição começou. As histórias sobre a origem desse pão remontam ao período em que os astecas ainda tinham seu grande império.
Reza a lenda que os astecas sacrificavam uma nobre em honra às suas divindades. Durante o ritual, o coração da moça – ainda pulsando – era colocado em um pote de amaranto e mordido pelo líder do ritual.
Quando os espanhóis desembarcaram no atual México, eles se escandalizaram com os sacrifícios humanos feitos pelos mexicas – ou astecas – e se recusaram a continuar com essas práticas religiosas.
Para acabar com essa forma de cultuar os deuses, os espanhóis teriam sugerido a preparação desse pão com trigo, que seria coberto com açúcar e pintado de vermelho para representar o sangue sacrificial.
Essa pode ter sido também a forma de introduzir a gastronomia espanhola na América, já que eles têm um pão especial para essa data, o Pan de animas. A versão espanhola é uma tradição de séculos, prática na qual os espanhóis fazem esse pão para oferecer aos almas dos entes queridos nos dias dos Santos e no dia dos mortos.
Existem ainda outras versões da história desse alimento, e seguindo na linha de sacrifício humano.
O frei Bernardino de Sahagún, famoso cronista da literatura espanhola, chegou a descrever uma preparção que poderia ser comparada ao que conhecemos hoje como Pan de muerto. No terceiro livro do Códice Florentino, Sahagún mostra como era feita a massa de amaranto para o festival de Panquetzaliztli.
Nos tempos pré-colombianos, essa massa de amaranto era feita após os sacrifícios humanos. Com forma de borboleta, os fiéis ofereciam o pão aos deuses e festejavam de acordo com a época do ano.
Estudar um pouco da origem do Pan de muerto é só o começo para entender o simbolismo desse alimento, já que cada detalhe dele é pensado para representar algo.
Detalhes com significado

Por todo o México, podem-se encontrar várias formas desse pão.
Na capital, a Cidade do México, até o desenho do Pan de muerto tem vários significados. A forma circular têm como um dos significados a continuidade da vida, o ciclo que envolve vida e morte.
A protuberância central com linhas dispostas na diagonal são interpretadas como representações um crânio com ossos cruzados. As direções para as quais os ossos apontam podem significar tanto as quatro direções do universo Mesoamericano, os pontos cardeais ou até mesmo as divindades Quetzalcóaltl, Xipotec, Tiàloc e Tezcatlipoca.
O açúcar pulverizado sobre o pão vem para mostrar como a morte pode ser doce, e também para guiar a alma durante a sua jornada após à morte.
Em algumas versões, sementes de gergelim simbolizam as lágrimas dos mortos, enquanto as flores podem representar a jornada da alma.
Pelo país afora, mais detalhes podem ser acrescentados no Pan de muerto. Queijo cremoso pode ser adicionado, como na região de Yucatán. Em Guerrero, alguns pães têm um adorno avermelhado, que pode representar uma morte trágica. Já em Morelos, é possível encontrar pães decorados com a figura de uma mulher com um bebê nos braços. Neste caso, a homenagem é feita à mãe que morreu durante o parto.
Tradições que emocionam
O pan de muerto é apenas uma das parte mais importantes dessa tradição mexicana. Colocado no altar, ele faz parte de um conjunto de oferendas que demonstra que a memória dos falecidos permanece viva entre seus entes queridos.
Mas na tradição do Día de los muertos, existem muitos outros elementos que também merecem atenção. E um deles é com certeza a cerimônia feita pelos familiares durante as festividades.
Na próxima matéria poderemos conhecer um pouco mais da tradição e de como os mexicanos preparam suas casas, igrejas, ruas e cemitérios para essa data tão tradicional.
Referências
1. CÓDICE FLORENTINO
SAHAGÚN, Bernardino de. Códice Florentino. Livro 3, fólio 4r. Getty Research Institute. Disponível em: https://florentinecodex.getty.edu/book/3/folio/4r. Acesso em: 30 out. 2026.
2. LOLO MERCADITO
LOLO MERCADITO. Día de Muertos Traditions: What Is Pan de Muerto? Disponível em: https://lolomercadito.com/blogs/news/dia-de-muertos-traditions-what-is-pan-de-muerto. Acesso em: 30 out. 2026.
3. KIWILIMON
KIWILIMON. O que significa o pão dos mortos? Disponível em: https://br.kiwilimon.com/blog/estacoes/halloween-e-dia-de-finados/o-que-significa-o-pao-dos-mortos. Acesso em: 30 out. 2026.
4. DIARIO DE PONTEVEDRA
DIARIO DE PONTEVEDRA. Qué es el pan de ánimas, el antiguo alimento para difuntos que Pontevedra recupera por el Samaín. Disponível em: https://www.diariodepontevedra.es/articulo/gastronomia/que-es-pan-animas-antiguo-alimento-difuntos-que-pontevedra-recupera-samain/202610271443111474055.html. Acesso em: 30 out. 2026.
5. CIENCIA UNAM
UNIVERSIDAD NACIONAL AUTÓNOMA DE MÉXICO. Pan de muerto: sabor y tradición en un alimento. Ciencia UNAM. Disponível em: https://ciencia.unam.mx/leer/1183/pan-de-muerto-sabor-y-tradicion-en-un-alimento. Acesso em: 30 out. 2026.




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