Henry Ford até tentou recomeçar sua produção, mas os obstáculos continuaram a atrapalhar seus planos.

Por Renata Resende

Mesmo com todos os desafios enfrentados na construção da Fordlândia, Henry não desistiu do seu objetivo. Começar seu plantio em Santarém não deu certo, então alguns anos após a primeira empreitada, Ford seguiu para um novo rumo.

Leia mais: Fordlândia: o sonho de Henry Ford na Amazônia brasileira

O destino da sua plantation de Hevea brasiliensis agora seria Belterra. Mas recomeço nem sempre quer dizer sucesso à vista.

Seringal 2.0

Mesmo sendo local de origem das 70 mil sementes de seringueiras, a região que vai da margem do rio Tapajós até Santarém não deu a Henry Ford a produção que ele tanto queria.

Mas não dá para culpar aquelas terras, já que além de não ter um relevo propício para aquela plantation, ainda sofreu com um desmatamento sem precedentes.

Até 1929 já haviam sido plantadas seringueira em 400 hectares de terra. A quantidade de área transformada em plantio pode ser enorme para os leigos no assunto, essa extensão de território pode ser traduzida como 4 milhões de metros quadrados. Porém, para a Companhia Ford Industrial do Brasil, o resultado foi abaixo da meta esperada.

Esse desmatamento pode ter sido o primeiro que fez grande estrago na Amazônia, já que até 1931, mais 900 hectares foram varridos da floresta.

Mesmo com toda essa área liberada, o plantation não seguiu os planos de Ford, e as seringueiras ainda sofreram com o ataque massivo do Microcyclus ulei. Esse fungo, inimigo número um da Hevea, foi a gota d’água no estrago inesquecível para a Companhia.

Só nos dois primeiros anos de plantação, o Microcyclus – ou “Mal das Folhas” – praticamente acabou com a plantação. A atuação desse fungo na seringueira, que começa com pequenas lesões de necrose nas folhas, se alastrou a ponto de fazer severos estragos na árvore, como queda de folhas e galhos, e nos casos mais graves, levando à morte da Hevea.

Consequentemente a produção do látex foi reduzida a tal ponto que se imprescindível a mudança do plantio para outro local.

Hora de recomeçar

Igreja construída em Belterra. Imagem: Viagem e Turismo.

Nessa segunda tentativa Henry Ford começou se saindo bem. Para início de conversa, ele contratou o micologista James R Weir, a fim de diagnosticar a causa do seringal ter sido tão improdutivo.

Em 1934, Weir levou para Belterra 53 sementes clonadas selecionadas a dedo. A escolha do novo local, cerca de 50 quilômetros do Sul de Santarém, também foi feita de forma técnica.

Belterra apresentava condições mais favoráveis para o plantio da Hevea. O solo, clima e a topografia eram mais vantajosos para o plantation. Mas nenhuma dessas vantagens eram impedimento para o fungo Microcylus, e o “Mal das Folhas” atacou novamente.

A esperança da Companhia de ter bastante látex para a produção foi por água abaixo. Em 1941, quando eles começaram a explorar as seringueiras, viram que a produtividade era baixa e não compensava o alto investimento feito.

Era o momento de aceitar a derrota.

Abandono do sonho

Depois de 18 anos marcando presença na Amazônia, a Companhia da Ford finalmente percebeu que o prejuízo era grande demais, se dando por vencida pela floresta brasileira.

Agora no comando da empresa, Henry Ford II desistiu do empreendimento no ano de 1945. Para o neto de Ford, não compensava mais manter esse investimento, já que além de não dar o retorno almejado, ainda havia a presença do fungo – que era uma praga – e as relações trabalhistas desgastadas.

Somados a esse fatores, tem também o fato que a demanda pela borracha tinha diminuído consideravelmente. O fim da Segunda Guerra Mundial tinha chegado e não havia mais tanta busca pelo látex. Além disso, se deve levar em conta a evolução científica que permitiu a criação da borracha sintética.

As terras da Fordlândia, que era o sonho utópico de Henry Ford, foram vendidas para o Governo Brasileiro pelo valor simbólico de cinco milhões de cruzeiros.

Com os investimentos feitos, e todas as dívidas a pagar para os trabalhadores, a Companhia da Ford teve o gasto de vinte milhões de dólares.

Fordlândia ainda conserva um pouco do que foi e do que poderia ter sido. Ainda restam poucos habitantes na cidade, sendo eles remanescentes da “época de ouro”.

A Amazônia, por sua vez permanece de pé, mesmo com os ataques que sofreu – e sofre até hoje – e mostrou para Ford que nem mesmo todo o dinheiro do mundo é capaz de domar sua natureza selvagem.

Referências

AGROLINK. Mal das folhas. Disponível em: https://www.agrolink.com.br/problemas/mal-das-folhas_1612.html. Acesso em: 20 out. 2026.

DADAZIO, Tais Santo; DIAS, Roque de Carvalho; TROPALDI, Leandro. Mal-das-folhas da seringueira: todo cuidado é pouco. Campo & Negócios, 1 jul. 2020. Atualizado em 15 maio 2025. Disponível em: https://campoenegocios.com/mal-das-folhas-da-seringueira-todo-cuidado-e-pouco/. Acesso em: 20 out. 2026.

SENA, Cristovam. Fordlândia: breve relato da presença americana na Amazônia. Cadernos de História da Ciência, v. 4, n. 2, 2008. Disponível em: https://bibliotecadigital.butantan.gov.br/arquivos/27/PDF/a05v4n2.pdf. Acesso em: 20 out. 2026.

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